quinta-feira, fevereiro 14

A CERTA ALTURA


Michaël Borremans «The Constellation», 2000
(oil on canvas)
- Artist Portfolio -
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A CERTA ALTURA

**** A certa altura deixou de defecar. Tudo o que nele era
excremento era expelido para a *memória, cujas imagens
a breve trecho começaram *a *ir perdendo *consistência,
amolecidas algumas delas *pela *mais variada *espécie de
dejectos e desprendendo-se de todas, mesmo das de quan-
do era criança, um*cheiro de tal modo nauseabundo *que
o levou a recear lembrar-se fosse do que *fosse e a aplicar-
-se no traçado das fronteiras da *memória, para aí *erguer
um muro *que *impedisse o *alastramento do *contágio a
outras zonas igualmente *vulneráveis do seu espírito. Um
dia entrou *numa *livraria e, folheando *ao *acaso um dos
livros em que o olhar primeiro se deteve, leu: «Vem *sem-
pre dar à pele o que *a *memória carregou…» *Fechou-o e
fugiu dali, horrorizado.

(Luís Miguel Nava) *
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in «Poesia Completa 1979-1994», 2002

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