sábado, fevereiro 2

PESADELO


Joseph Beuys «Earth Telephone» 1968, mixed media


PESADELO

Cinco horas da manhã. Três há que ateimo
com o prego espetado nos miolos
− um prego de água e fumo esfarpado −
que se descrave, e a cravá-lo mais.
Tossem no corredor e chiam rodas.
Que é? Já sei. Um doido que morreu,
Que levam ao depósito mortuário,
talvez − mas só hipótese − ao responso,
julgo − talvez − à cova. Esse o costume…
Seis horas da manhã. Rompe-me um doido
pelo quarto, de boina enterrada.
É o doido da faxina. A boina zanga-me.
−«O senhor ganha dez mil réis por mês
para entrar de cabeça descoberta!»
Rápido rapa do seboso testo
e pede-me o salário adiantado.
Adormeço, ou não… Entre o aquém
e o além da vida, em transe, em trânsito
fico, pairando ou nadando. Ásperos
gritos, sob a janela, estremunham-me.
Dou um salto, do espasmo. Quedo arfando.
Peço a cura a um cigarro e mais arfo.
São os pavões heráldicos da cerca,
tão belos como estúpidos, aos gritos.
Belos? Belo, só um. O outro arrasta
uma asa e coxeia, anda à roda.
A par do prego em que penso, penso
que algum doido partiu a asa partida,
mancou a perna tesa do que manca,
e dou-me a figurar como seria.
Pontapé? Esticão? Uma dentada?
Foge-me a perna, só não foge o prego.
Meio-dia, já?! Mas por que espaços, mundos,
por que abismos e nuvens rebolei?
Tenho de pôr-me a pé… Mais um nadinha,
só um nadinha, a ver se o prego expulso!
− O dador desse prego, esse bisonte!
E penso no bisonte, a ver se o anulo,
se até o forço a não ter nascido,
a nem sequer terem nascido os pais,
avós e bisavós, a geração…
Que fabuloso híbrido, em retalhos
de feras e de bichos pré-históricos,
ganhador às visões do Apocalipse!
Olhos de chimpanzé… Cornos de búfalo…
Patorras de elefante, e logo seis!
Língua de lobo… Arca de gorila
e respectivo ronco de caverna…
Picos de porco-espinho… Couro e asno…
Espinhaço e andar de dinossauro…
Um rabo em leque, um rabo de peru…
Abre-se a porta. Eis uma bata branca.
È o barbeirola, e traz a tralha toda.
Que vá embora! Que me deixe me paz!
Arreda a cama, a bruto repelão,
chega-me à cara o pincel dos tolos,
dos de queixo babado, e dos herpéticos.
A navalha tem trava de serrote,
leva-me a pele, deixa ficar os pêlos.
Arre! Passa das marcas! − Vá rapar
a honrada pêra do cabrão seu pai!
E não deixo, e ateimo, e ameaço-o
de fazer queixa ao santo Director…
Que, mal por mal, que me barbeio eu…
Ri-se, escarnece. Barbear-me? Boa!
Olha um doido a ter navalha sua!
Mostro-lhe aí um centenar de lâminas.
Se eu me prevenira a tempo e horas,
e supondo nem todas gastaria:
à espera da morte, a cada instante,
e arredia a morte, fugidia…
Barbeei-me e deitei-me sobre a roupa.
Que tão cansado, tão cansado estou!
Descansar! Descansar! Ah! Descansar!
E não descanso mais, até morrer…
Tenho que me vestir, que ir almoçar.
Calçar meias? Mas não, não paga a pena…
Já nada paga a pena, antes que o prego
saia e retome esta cabeça livre.
Mas o prego não sai, não sai, não sai…

(Tomaz de Figueiredo)



in «Poesia I», edição Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003



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