domingo, maio 31

LIBERDADE


Andrew Wyeth «Christina's World», 1948
(tempera on gessoed panel)
- The Museum of Modern Art, MoMa , NY -

*
LIBERDADE

Contigo,
Rebolo na erva dos prados,
Abraçando o sol ao meio dia.
Não importa a língua que falo,
Ou se a noite já baixou.
Canto árias,
Danço tangos e boleros
Pela terra acabada de lavrar.
Enfio-me nas florestas,
E brinco às escondidas com o lobo mau.

Contigo,
Como amoras silvestres,
E sujo a boca no sumo das laranjas.
Monto cavalos de espuma.
Cubro-me de lama
E banho-me em ribeiros cristalinos.
Ando descalça pelos campos de searas,
E peço à chuva que me molhe,
E às estrelas que mudem de lugar.

Contigo,
Galgo montanhas
E sei de cor o nome das nuvens.
Atravesso tempestades e vendavais
E adormeço numa cama de musgo.
Deito-me nua ao luar,
E gozo o frio das geadas.
Contigo,
Acendo fogueiras no deserto,
E toco uma balada para o vento.

Contigo,
Sou um pássaro com asas a crescer.

(Helena Figueiredo) *

in «Ao sabor da pele», 2009

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LINHA DE RUMO


Ernesto Ferreira Condeixa
«Figuras junto às rochas a observar o mar», 1903
(óleo sobre tela)
- Colecção Particular -

*
LINHA DE RUMO

Quem não me deu Amor,
não me deu nada.
Encontro-me parado. . .
Olho em redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.
*
Tanto tempo perdido . . .
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campos de flores
E silvas . . .
*
Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.
*
Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede.

(Ruy Cinatti) *
*
in «O Livro do Nómada Meu Amigo», 1958

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as novas leis


Fernando Lemos
«Palavras Leva-as o Vento - Roupas Leva-as o Tempo», 1949-52
(fotografia a preto e branco)
*
as novas leis
*
Atrás de qualquer porta
está sempre o mar alto que me espreita
Ou então a capa em que o vento abate
a dúvida ou a suspeita
*
Linhas rectas seguem cidades
quebrando fazendo nós
quando um homem lança mão num estrado
de abelhas completamente sós
*
Criaram-se novas leis
novos modelos de calçado
Fotografias com cores
décors do patriarcado
*
Mas as facas de cortar fruta
que correm a praia de extremo a extremo
dançam em pontas sobre o pequeno
E as mães que já não sabem
fazer as suas contas
deitam-se ao mar pelo que vêem
e julgam-no sereno
*
Saem dos astros pés das ondas mãos
a taparem os rostos os medos
As fardas que andam nuas
sobram armas lugares amenos
*
O mundo não previa tanto
e esgotou-se a lotação
Vão pelos canos correndo pardais cegos
como convém à perseguição
*
Criaram-se novas leis
há pânico pelas nossas varandas
nascem entretanto árvores nuas
tantas
Mas os dentes ainda são de pedra
apesar da nova lei que os não respeita
Embora a máquina de fazer peças para novas peças
seja o mar alto que atrás da porta me espreita.
*
(Fernando Lemos) *
*
in «Teclado Universal», 1963

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domingo, maio 17

Ética


Cy Twombly «Untitled», 2007 (detail)
(acrylic on wood)
- Private Collection -


Ética

Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.
*
(Luís Quintais) *

in «Lamento», 1999

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ESTUDO DE NU


Marlene Dumas «The Kiss», 2003
(oil on canvas)
- Artist portfolio -


ESTUDO DE NU

Essa linha que nasce nos teus ombros,
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se
desprenderam, ansiosos.

Essas duas parábolas que te apertam
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias ciclóides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.

Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho e selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.


(José Saramago) *

in « Os Poemas Possíveis», 1966
**

Nota: Está patente uma exposição das obras de Marlene Dumas no Museu "The Menil Collection" de Houston, Estados Unidos da América.
*

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Folhas Vermelhas


Desiree Dolron, X-teriors VIII, 2004
(c-print)
- Ophelia – Desire, melancholy and the death wish -


Folhas Vermelhas

Andam as estátuas a voar
em redor dos pássaros estáticos
sem que isso perturbe
o bronze da manhã.
Os bancos em frente do rosto da cidade
só aceitam depositantes e não levantamentos.
Uns vagabundos de ar inteligente ainda dormem
sobre um manto invisível de folhas vermelhas.
Deve ser por isso que chegou o Outono.

Ouço um apelo das montanhas
nas asas do granizo
e lá vou eu em busca do Inverno
sem verdadeira coragem de olhar para trás.
Acompanha-me o vento sul e um ocaso
nasce dentro de mim a cem à hora
para acender-me a alma, velho motor
engripado com os versos de Oscar Wilde
e as histórias de Allan Pöe. Neste caso
deve ser algo que tenha a ver com amor.

Estou quase atingindo o clímax, o cimo,
os píncaros da felicidade plena, violeta
e branca, como as flores dos altares das igrejas
que povoaram a catequese da minha infância.

Estou por cima e, daqui, é mais fácil olhar
para baixo, contemplar o sofrimento dos outros
e aplaudir os seus rasgos de alegria. O poeta
tem este destino de eremita. Cultiva laranjas,
maçãs e pêros. Depois colhe romãs e cerejas.

(José António Gonçalves)
*

in «Arte do Voo», 2005

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sábado, abril 25

CAMÕES NA ILHA DE MOÇAMBIQUE


Menez «Figuras» 1993
(guache sobre papel)
- Colecção Particular -


CAMÕES NA ILHA DE MOÇAMBIQUE

É pobre e já foi rica. Era mais pobre
quando Camões aqui passou primeiro,
cheia de livros a cabeça e lendas
e muita estúrdia de Lisboa reles.
Quando passados nele os Orientes
e o amargor dos vis sempre tão ricos,
aqui ficou, isto crescera, mas
a fortaleza ainda estava em obras,
as casas eram poucas, e o terreno
passeio descampado ao vento e ao sol
desta alavanca mínima, em coral,
de onde saltavam para Goa as naus,
que dela vinham cheias de pecados
e de bagagens ricas e pimentas podres.
Como nau nos baixios que aos Sepúlvedas
deram no amor corte primeiro à vida,
aqui ficou sem nada senão versos.
Mas antes dele, como depois dele,
aqui passaram todos: almirantes,
ladrões e vice-reis, poetas e cobardes,
os santos e os heróis, mais a canalha
sem nome e sem memória, que serviu
de lastro, marujagem, e de carne
para os canhões e os peixes, como os outros.
Tudo passou aqui ─ Almeidas e Gonzagas,
Bocages e Albuquerques, desde o Gama.
Naqueles tempos se fazia o espanto
desta pequena aldeia citadina
de brancos, negros, indianos e cristãos,
e muçulmanos, brâmanes, e ateus.
Europa e África, o Brasil e as Índias,
cruzou-se tudo aqui neste calor tão branco
como do forte a cal no pátio, e tão cruzado
como a elegância das nervuras simples
da capela pequena do baluarte.
Jazem aqui em lápides perdidas
os nomes todos dessa gente que,
como hoje os negros, se chegava às rochas,
baixava as calças e largava ao mar
a mal-cheirosa escória de estar vivo.
Não é de bronze, louros na cabeça,
nem no escrever parnasos, que te vejo aqui.
Mas num recanto em cócoras marinhas,
soltando às ninfas que lambiam rochas
o quanto a fome e a glória da epopeia
em ti se digeriam. Pendendo para as pedras
teu membro se lembrava e estremecia
de recordar na brisa as cróias mais as damas,
e versos de soneto perpassavam
junto de um cheiro a merda lá na sombra,
de onde n’alma fervia quanto nem pensavas.
Depois, aliviado, tu subias
aos baluartes e fitando as águas
sonhavas de outra Ilha, a Ilha única,
enquanto a mão se te pousava lusa,
em franca distracção, no que te era a pátria
por ser a ponta da semente dela.
E de zarolho não podias ver
distâncias separadas: tudo te era uma
e nada mais: o Paraíso e as Ilhas,
heróis, mulheres, o amor que mais se inventa,
e uma grandeza que não há em nada.
Pousavas n’água o olhar e te sorrias
─ mas não amargamente, só de alívio,
como se te limparas de miséria,
e de desgraça e de injustiça e dor
de ver que eram tão poucos os melhores,
enquanto a caca ia-se na brisa esbelta,
igual ao que se esquece e se lançou de nós.

(Jorge de Sena) *

Julho 72

in «Camões Dirige-se aos seus Contemporâneos», 1973

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sábado, fevereiro 28

TU ESTÁS AQUI


Louise Bourgeois «Cell II», 1991
( assemblage art, mixed media)
- Carnegie Museum of Art, Pittsburgh / Pennsylvania -
*
*
TU ESTÁS AQUI

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um
*******************************[nome e sabem o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as
***********************************************[palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro
***********************************[de casa sou outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de
********************************************** [exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a
****************************************************[fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas
********************************************[paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-las para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram
*****************************[outro nome que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir umas
**********************************[coisas das outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também
*********************************************[outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos
**********************************************[domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas
******************************[palavras como a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma
************************************************[de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre
*********************************************[presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui

(Ruy Belo) *
*
in «Toda a Terra», 1976
*
Nota:_ Está patente no Hirshhorn Museum em Washington,_ uma exposição de trabalhos realizados pela artista francesa Louise Bourgeois, inspirados em ideias e estilos de diversos movimentos artísticos de vanguarda, oriundos da Europa e da América: surrealismo, primitivismo, psicanálise, conceptualismo e feminismo.
*

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Agora Mesmo


Albert Ràfols-Casamada «Tensions», 2004
(acrylic paint on canvas)
- Artist Portfolio -
*
*
Agora Mesmo

Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado
Está gente a morrer e nós também
*
Está gente a despedir-se sem saber que para
Sempre
Este som já passou Este gesto também
Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante
Tu próprio te despedes de ti próprio
Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
Já estás diferente neste verso e vais com ele
*
Os amantes agarram-se desesperadamente
Eis como se beijam e mordem e por vezes choram
Mais do que ninguém eles sabem que estão a despedir-se
*
A Terra gira e nós também A Terra morre e nós
Também
Não é possível parar o turbilhão
Há um ciclone invisível em cada instante
Os pássaros voam sobre a própria despedida
As folhas vão-se e nós
Também
Não é vento É movimento fluir do tempo amor e morte
Agora mesmo e para todo o sempre
Amen
*
(Manuel Alegre) *
*
in «Chegar Aqui», 1984

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quarta-feira, fevereiro 25

Não Fora o Mar!


José Malhoa «Praia das Maçãs (À beira-mar)», 1918
(óleo sobre madeira)
- Museu do Chiado -


Não Fora o Mar!

Não fora o mar,

e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite
a lua, calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.

(Fernanda de Castro) *

in «Trinta e Nove Poemas», 1941

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domingo, fevereiro 22

TEMOR DE NÃO HAVER DEUS


Robert Scott Duncanson «At the Foot of the Cross», 1846
(oil on canvas)
- The Jesuit Community at the University of Detroit Mercy -

*
*
TEMOR DE NÃO HAVER DEUS

Temia não ressuscitar de novo:
eram tantas as mortes, que vivera
no decurso da sua vida até agora,
que morria pra não viver já morto

E continuava cego, só e absorto,
pálido entre símbolos de cera,
a caminhar no tempo, sobre a hora,
tal como sobre a água em passo curto

De tudo o que aprendera não constava
nada, que o ensinasse a morrer já
sem perguntar a Deus, se Deus existe

A certeza maior da sua fé
à maior alegria não quadrava,
mas somente à menor, que é quase triste

(António Barahona) *

in «Sombra das Minhas Mãos», LG, 1998

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sexta-feira, fevereiro 20

A LIÇÃO DE POESIA


Maria Lassnig «3 ways of being», 2004
(oil on canvas)
- Artist Portfolio -
*
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A LIÇÃO DE POESIA
*
Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.


A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.


A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis − naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.

(João Cabral de Melo Neto) *

(in « O Engenheiro», 1945)
*
*
Nota: Mais de 60 obras do trabalho dos últimos dez anos da artista plástica Maria Lassnig, encontram-se expostas no Museum Moderner Kunst, em Viena, numa exposição individual intitulada "The ninth decade", comemorativa do seu nonagésimo aniversário.
*

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domingo, fevereiro 15

ACONTECIMENTO; ALEGORIA SEGUNDA; POEMA PARA HABITAR


J.M.W.Turner «The Bay of Uri, Lake Lucerne, Switzerland», 1841
(watercolour)
- The Henry Vaughan Bequest / National Gallery of Ireland -
*
*
ACONTECIMENTO

Tu choravas e eu ia apagando
com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas
– riscos na areia mole e quente do teu rosto.
Choravas como quem se procura.
E eu descobria mundos, inventava nomes,
enquanto ia espremendo com as mãos
o meu sangue todo no teu sangue.
*
Não sei se o mundo existia e nós existíamos realmente.
Sei que tudo estava suspenso,
esperando não sei que grave acontecimento,
e que milhares de insectos paravam e zumbiam nos
meus sentidos.
Só a minha boca era uma abelha inquieta
percorrendo e picando o teu corpo de beijos.
*
Depois só dei pela manhã,
a manhã atrevida
entrando devagar, muito devagar e acordando-me.
Desviei os meus olhos para ti :
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca. *

(in «Secura Verde» Porto, 1950)



*
J.M.W. Turner «The Piazetta, Venice», 1835
(watercolour)
- The Henry Vaughan Bequest / National Gallery of Ireland -
*
*
ALEGORIA SEGUNDA
*
De poetas e filósofos tu sabes,
sabes também por ti. Por isso eu digo :
esta pedra é vermelha, esta pedra é sangue.
Toca-lhe : saberás
como em segredo florescem as acácias
ao redor dos muros, como fluem
suas concêntricas artérias. Acaricia-as : tocas
a parte mais sensível de ti mesmo.
*
Dizias ontem que o verão ardia
nesta pedra. Nela
queimavas tuas mãos. Onde
as aqueces hoje? Eu digo :
o verão não morreu, esta pedra é o verão.
*
E tudo permanece. E tudo é teu.
Tu és o sangue, o verão e a pedra.
*
(in «Paralelo ao Vento» Porto, 1979)


*
J.M.W. Turner «A Shipwreck off Hastings, 1825
(watercolour)
- The Henry Vaughan Bequest / National Gallery of Ireland -
*
*
POEMA PARA HABITAR
*
A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
*
Que lhe limpem os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
*
Até que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.
*
(Albano Martins) *
*
(in «Coração de Bússola» Évora, 1967)

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lamento para a língua portuguesa

Anselm Kiefer «am Anfang / In the Beginning», 2008
(oil, emulsion and lead on canvas and photopaper)
- Hans Grothe Collection -
*
*

lamento para a língua portuguesa

não és mais do que as outras, mas és nossa,

e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.

(Vasco Graça Moura) *

in «Antologia dos Sessenta Anos», 2002

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quarta-feira, fevereiro 11

À MINHA MÃE E À MINHA TERRA


José Malhoa «O Remédio», séc. XIX
(óleo sobre madeira)
- Museu Nacional Soares dos Reis -
*
*
À MINHA MÃE E À MINHA TERRA

A Ti, minha Mãe que tens o rosto
Dorido e iluminado duma santa,
Todo embebido em lágrimas de Amor,
É que a minha Alma, de joelhos, canta!
A Ti, e à minha Terra, as duas Mães,

Que me criaram juntas num abraço,
Pois ambas me trouxeram no seu ventre,
Ambas me adormeceram no regaço.

E tu, vento de orgulho, que em mim passas
Rugindo a toda hora,
Une-te ao pó:
E agora
Que de toda a minha Alma fique só
A trêmula inocência dum menino
Para que eu reze uma oração de Graças!
Como és, ó mãe!, irmã desta Paisagem
Tão doce, religiosa e comovida,
Com uma parte viva neste mundo
E outra maior que é para além da Vida!
Já, por amor de mim, desses teus olhos,
Postos num rosto triste e macerado,
Como uma fonte prestes a nascer,
Muita lágrima em fio tens chorado
E muitas inda estão para correr.

Também a Terra sofre das raízes,
Que a penetram na ânsia de sugar;
Das Águas que a retalham pra correr,
Das humildes sementes a acordar;
Sofrem os Rios concebendo a Névoa
As Árvores no esforço de se erguer,
E Árvores, Rios, Névoas, tudo sofre
Quando lhes bate o láteo do Vento
Ou se o Sol as devora, calcinante:
E é todo esse profundo Sofrimento
Para que eu num delírio ria e cante!

O vento, em fúria, passa sobre a Terra:
Talvez tu chores minha Mãe agora,
E quando eu canto, para ser Poeta,
Tu choras minha Mãe e a Terra chora.

A graça do teu rosto é já do Céu
Participa de Deus, de Eternidade,
E não se vê melhor estando ao perto:
Mas no vidente enlevo da Saudade,
Olhos fechados, coração aberto...

Tu ensinaste-me a rezar, ó Mãe!
E a minha Terra...: é só olhá-la bem,
Longe até às encostas,
Vêem-se choupos sempre até além...:
É a Paisagem toda de mãos postas!

Só tu podias ser a minha Mãe,
Só tu e mais ninguém
Trazer-me ao peito
É dar-me um leite em lágrimas banhado;
E que a estes meus olhos fosse dado
Só há no mundo este lugar eleito.

Graças, ó minha Mãe!, te venho dar
E a ti, boa Paisagem, também dou
Por meu divino gosto de cantar,
Pela parte mais santa do que sou!

É por amor das lágrimas ardentes,
Que te cavaram sulcos pelo rosto,
É por amor do céu e do Sol-posto,
Do Mar... de ti, Paisagem, que me abraças,
Que eu sou Poeta e canto e choro e rezo
E que vos dou esta oração de graças.

E assim, ó minha Mãe, minha Paisagem,
Ensinai-me a criar como as mulheres
E como a Terra generosa e ruda:
Que sofras , ó minha Alma, as dores do Parto,
Que dês o sangue aos versos que fizeres
Que o sol te queime e o Vento te sacuda!

Minha Mãe, Minha Mãe, ó Minha Santa,
E vós, sagradas Águas e ramagens,
Bendita sejas tu entre as Mulheres,
Bendita sejas tu entre as Paisagens!
*
(Jaime Cortesão) *
*
in «Glória Humilde», Porto 1914

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ARTE PERIPOÉTICA


Michael Raedecker «the freeze», 2005
(acrylic and thread on canvas)
-Private Collection -


ARTE PERIPOÉTICA

Aristóteles, visita
da casa da minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de ser
contra a maneira do tempo
esta maneira de ver
o que o tempo tem por dentro.
Aristóteles diria
entre dois golos de chá
que o melhor ainda seria
deixar o tempo onde está
pô-lo de perto no tema
e de parte na poesia
para manter o poema
dentro da ordem do dia.
Aristóteles, visita
da casa da minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só.
Ele sabia que o poeta
depois de tudo inventado
depois de tudo previsto
de tudo vistoriado
teria de fazer isto
para não continuar
o que já estava acabado
teria de ser presente
não futuro antecipado
não profeta não vidente
mas aço bem temperado
cachorro ferrando o dente
na canela do passado
adaga cravando a ponta
no coração do sentido
palavra osso furando
pele de cão perseguido.
Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de riso
que é a mais original
forma de se ter juízo
e ser poeta actual.
Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
também diria antes só
do que mal acompanhado
antes morto emparedado
em muro de pedra e cal
aonde não entre bicho
que não seja essencial
à evasão da palavra
deste silêncio mortal.

*
(José Carlos Ary dos Santos)
*

in «Adereços, Endereços», 1965

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sexta-feira, fevereiro 6

a luz de um só tecido a mover-se sob o vestido


Georges Seurat «Au Divan japonais», 1887-88
(conté crayon and gouache on paper)
- Private Collection -
*
*
a luz de um só tecido a mover-se sob o vestido
rapaza raparigo
trav superdot sôfrego belíssimo
mamas sem leite e sangue mas
terrestres soberanas
pénis intenso
ânus sombrio
*
(Herberto Helder) *
*
in «A faca não corta o fogo», 2008

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domingo, fevereiro 1

FONS VITÆ


Anselm Kiefer «Shebirat Ha Kelim (Shattering of the Vessels)» 1990
(lead, glass, dress and female hair on wood)
- Hans Grothe Collection -

*
FONS VITÆ

Dá o sangue mas está suspenso no ar:
venceu a força da gravidade
e ali prossegue, figura de martírio,
sangrando para a vasca. Personagens
em torno dela ajoelham. Não é
para menos: trata-se do Cristo
Redentor. O sangue faz ajoelhar
os poderosos que há séculos
fazem correr sangue alheio
em nome desse Cristo − prática normal
das religiões. Mistério é o modo como
veio sangrar a esta cidade, nas paredes
da Misericórdia. Mistério a que faltam
referências decerto condutoras ao ouro
brasileiro e a papéis perdidos
de doadores soterrados nos desvãos
anónimos da história, um puzzle
a que sempre faltam peças. Ali está ele,
fonte inesgotável na sua cruz,
fonte de vida segundo o título.
No fundo há uma paisagem, mas o Cristo
volta as costas à flora flamenga:
apenas sangra, não se sabe o que vê
suspenso sobre o mundo que não é o seu.
O rei que olha e medita o significado
daquele sangue (se é que é o rei)
irá erguer-se e finalmente assinar
o decreto da Santa Inquisição. Sairá
daquele quadro cheio de dúvidas, mas
o sangue continuará a correr, agora
fonte de morte − mas benzida
pelo selo real do Venturoso.

(Egito Gonçalves) *

in «Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda um Copo de Crepúsculo», 2006
*
*
Nota: O Museu Es Baluard Museu d'Art Modern i Contemporani de Palma de Mallorca, Espanha, apresenta uma exposição das obras de Anselm Kiefer, pertencentes à colecção de Hans Grothe, grande coleccionador de arte contemporânea alemã.
*

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Nazaré


Bonifácio Lázaro Lozano «Gente da Nazaré», s/d
(guache sobre tela)
- Museu de José Malhoa -
*
*
Nazaré

Não a outra, mas essa: a que do Sítio nos aponta o ocidente
E depois outras rotas para todos os quadrantes:
a praia de dentro
o jardim de fora e do fundo da nossa pequena
silhueta
- morte que se negou.

A solidão da praia do Norte
o assombro da luz
que alimenta a penumbra
Tudo o que por alegria calamos num passo estugado e
um pouco temeroso
Não importa, dizias tu,_ além é o mundo e ouve-nos
- pequeno veraneante de roupas coloridas que a alguém entregou
sua voz seu segredo
seu nítido momento.

E agora
não a outra mas tu
a que não entra nessa história sagrada em que Ester
colocou seu cântaro perto do muro caiado
e que em Azarias achou seu derradeiro refrigério
A mão_ a asa perfeitamente modelada
e depois seu abalar para sempre, seu
trespassado e imperfeito corpo até à claridade
- bóias barcos refluir de vagas_ as máquinas
fotográficas ao ritmo do que de longe a serra da Pederneira
conserva e permite.

Não a outra mas tu
a que outrora vi entre céus e uma sombra fugaz
Meu íntimo refúgio igual a mil_ a cem_ a um apenas.
As flores_ os fogareiros para o trabalho do peixe_ a jorna
*******************************************entregue
a quem na memória retém surpresa e saudade

ou simplesmente no cimo da falésia avistou
horizontes_ ruas incólumes_ a escuridão das dunas.
*
(Nicolau Saião) *
*
in «Antologia Canto de Mar» 2005, Colecção Bico da Memória,
Biblioteca Municipal da Nazaré

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BULE


John Buck«Fact and Fiction», 1997
(color woodcut)
- Artist Portfolio -
*
*
Bule bule bule bule bule bule bule
a palavra parece a água a borbulhar
bule bule bule bule bule bule bule
a água a ferver.
Bule bule bule___o bule aquece o bule bule
deita-se o chá e o bule bule bule bule
bule bule bule vezes sete deita-se a água
bule bule bule bule a água a ferver
bule bule bule ____ o bule serve o chá.
Beber ____ é matar _____a sede.
Bule bule bule bule bule bule bule
Beber ____ é o acto sagrado_____de matar
a sede. Bule bule bule bule o bule é o receptáculo
escuro _____________________da morte.
Bule bule bule bule ______o bule é o tabernáculo.
O bule não é o copo _______bule bule bule bule
o copo é o receptáculo claro _____________da morte
da sede._Mas o bule é divino_____________e raro.
Escuro ______o bule
bule bule ____ o chá é divino e puro.
Sabedoria. Bule bule bule bule bule
Faço a cerimónia do chá cinco vezes por dia.

O bule está quente.
O bule está morno.
O bule está frio.______Sophia!
As mãos acompanham em concha
o bojudo do bule companheiro… bule bule
bule bule bule __todo o dia.

As tisanas são assunto ____da Ana
Hatherly.
Bule bule bule bule bule bule bule
com asa e bico bule bule bule bule
o bule é a ave do espírito _______santo
em si.
Garça_pato_cisne_cegonha_avestruz
conforme o bule o pescoço varia
e produz bule bule bule bule
uma chávena de Universo
inteiro.
O bule é o sacrário________por isso
Beber chá é beber ___ a noite e o dia
é sorver bule bule ___ o enigma primeiro.
O bule cheio bule ____é o ventre relicário
do chá ____bule ____ meu néctar
verdadeiro bule bule bule bule claro
meu alimento bule bule bule __caro.
Bule bule bule bule bule bule bule.
*
_______________BULE.
*
(Salette Tavares) *

(in «Poesia Gráfica», Lisboa, Casa Fernando Pessoa, 1995)

Nota: Shark's Ink: The Legend of Bud Shark and His Indelible Ink.

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sábado, janeiro 24

PRESENÇA AFRICANA


Man Ray «Noire et Blanche», 1926
(gelatin silver photograph)
- Man Ray Trust Collection -
*
*
PRESENÇA AFRICANA

E apesar de tudo,
Ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!

Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...

A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
Nascendo dos braços das palmeiras...

A do sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
Salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!... Rua 11!...)
pelos meninos

de barriga inchada e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu
e corpo musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...

E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela
Longa história inconsequente...

Minha terra...
Minha, eternamente...

Terra das acácias, dos dongos,
dos cólios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.

Ainda sou a que num canto novo
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu povo!
*
(Alda Lara) *

Benguela, 1953
*
in «Poemas», Sá da Bandeira, 1966

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ODE AO TEJO E À MEMÓRIA DE ÁLVARO DE CAMPOS


Aureliano de Beruete «El Tajo (Toledo)», ca. 1904
(oil on canvas)
- Meadows Museum Collection, Dallas -

*
*
ODE AO TEJO E À MEMÓRIA DE ÁLVARO DE CAMPOS

E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa -
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"

Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!

Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que
****************************Fernando Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.
Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!

O meu mal é não ser dos que trazem beleza metida na algibeira
e não precisam de olhar as coisas para as terem.
Quando não está diante dos meus olhos, está sempre longe.
Não te reduzi a uma idéia para trazer dentro da cabeça,
e quando estás ausente, estás mesmo ausente dentro de mim.
Não tenho nada, porque só amo o que é vivo,
mas a minha pobreza é um grande abraço em que tudo é sempre
*************************************************virgem,
porque quando o tenho, é concreto nos braços fechados sobre a
**************************************************posse.

Não tenho lugar para nenhum cemitério dentro de mim...
E por isso é que fiquei a pensar como era grave ter passado
**********************************sem te olhar, ó Tejo.
Mau sinal, mau sinal, Tejo
Má hora, Tejo, aquela em que passei sem olhar para onde estavas.
Preciso dum grande dia a sós comigo, Tejo,
levado nos teus braços,
debruçado sobre a cor profunda das tuas águas,
embriagado do teu vento que varre como um hino de vitória
as doenças da cidade triste e dos homens acabrunhados...
Preciso dum grande dia a sós contigo, Tejo,
para me lavar do que deve andar de impuro dentro de mim,
para os meus olhos beberem a tua força de fluxo indomável,
para me lavar do contágio que deve andar a envenenar-me
dos homens que não sabem olhar para ti e sorrir à vida,
para que nunca mais, Tejo, os meus olhos possam voltar-se para
***********************************************outro lado
quando tiverem diante de si a tua grandeza, Tejo,
mais bela que qualquer sonho,
porque é real, concreta, e única!
*
(Adolfo Casais Monteiro) *

in «Noite Aberta aos Quatro Ventos», 1943

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terça-feira, janeiro 20

Camões e a tença


José Malhoa «Desalento», ca. 1933
(pastel sobre papel)
- Museu de José Malhoa -
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Camões e a tença

Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu
nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.

Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)
*

in «Grades», 1970

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sexta-feira, janeiro 16

Metafísica


Lucio Fontana «Concetto Spaziale» The Venezia series, 1961
(oil on canvas)
- Private Collection -
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Metafísica

Foi em Taipé.
Se bem me lembro, a 3 de Outubro.
Nas árvores o sol crescia devagar.

Entrámos num dos templos da cidade
e era quando os crentes fazem as suas oferendas.
Uma monja revestida de amarelo oficiava
e o fumo dos pivetes enlaçava-se
na música dos sinos e dos címbalos.

Nunca vi em parte nenhuma uma monja tão bela
e os seus gestos oficiando eram belos como ela.
Na música transportava-me não ao céu
mas aos braços da monja erguidos
maduros e redondos para o amor.

Sobre um estrado recebendo as bênçãos
vi comidas que só os chinas sabem oferecer a deuses
e que pelos deuses abençoadas eles retomam, e comem.
Mas sobretudo vi um cacho de bananas
cor de ouro, enormes, sardentas.

Quando saí não pude deixar de comprar bananas,
que logo amorosamente devorei.
E por isso ainda hoje penso na monja de amarelo,
nos gestos que fazia oficiando.

Nunca mais voltarei a Taipé
nem comerei bananas como aquelas.
Que a vida é assim, amigos:
recordar, por exemplo, a beleza de uma monja
e um cacho de bananas
e contentarmo-nos depois com o que temos
onde não temos nada disso.

(Pedro da Silveira)
*

in «Corografias», 1985

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