Domingo, Maio 31

LIBERDADE


Andrew Wyeth «Christina's World», 1948
(tempera on gessoed panel)
- The Museum of Modern Art, MoMa , NY -

*
LIBERDADE

Contigo,
Rebolo na erva dos prados,
Abraçando o sol ao meio dia.
Não importa a língua que falo,
Ou se a noite já baixou.
Canto árias,
Danço tangos e boleros
Pela terra acabada de lavrar.
Enfio-me nas florestas,
E brinco às escondidas com o lobo mau.

Contigo,
Como amoras silvestres,
E sujo a boca no sumo das laranjas.
Monto cavalos de espuma.
Cubro-me de lama
E banho-me em ribeiros cristalinos.
Ando descalça pelos campos de searas,
E peço à chuva que me molhe,
E às estrelas que mudem de lugar.

Contigo,
Galgo montanhas
E sei de cor o nome das nuvens.
Atravesso tempestades e vendavais
E adormeço numa cama de musgo.
Deito-me nua ao luar,
E gozo o frio das geadas.
Contigo,
Acendo fogueiras no deserto,
E toco uma balada para o vento.

Contigo,
Sou um pássaro com asas a crescer.

(Helena Figueiredo)

in «Ao sabor da pele», 2009

LINHA DE RUMO


Ernesto Ferreira Condeixa
«Figuras junto às rochas a observar o mar», 1903
(óleo sobre tela)
- Colecção Particular -

*
LINHA DE RUMO

Quem não me deu Amor,
não me deu nada.
Encontro-me parado. . .
Olho em redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.
*
Tanto tempo perdido . . .
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campos de flores
E silvas . . .
*
Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.
*
Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede.

(Ruy Cinatti) *
*
in «O Livro do Nómada Meu Amigo», 1958

as novas leis


Fernando Lemos
«Palavras Leva-as o Vento - Roupas Leva-as o Tempo», 1949-52
(fotografia a preto e branco)
*
as novas leis
*
Atrás de qualquer porta
está sempre o mar alto que me espreita
Ou então a capa em que o vento abate
a dúvida ou a suspeita
*
Linhas rectas seguem cidades
quebrando fazendo nós
quando um homem lança mão num estrado
de abelhas completamente sós
*
Criaram-se novas leis
novos modelos de calçado
Fotografias com cores
décors do patriarcado
*
Mas as facas de cortar fruta
que correm a praia de extremo a extremo
dançam em pontas sobre o pequeno
E as mães que já não sabem
fazer as suas contas
deitam-se ao mar pelo que vêem
e julgam-no sereno
*
Saem dos astros pés das ondas mãos
a taparem os rostos os medos
As fardas que andam nuas
sobram armas lugares amenos
*
O mundo não previa tanto
e esgotou-se a lotação
Vão pelos canos correndo pardais cegos
como convém à perseguição
*
Criaram-se novas leis
há pânico pelas nossas varandas
nascem entretanto árvores nuas
tantas
Mas os dentes ainda são de pedra
apesar da nova lei que os não respeita
Embora a máquina de fazer peças para novas peças
seja o mar alto que atrás da porta me espreita.
*
(Fernando Lemos) *
*
in «Teclado Universal», 1963

Domingo, Maio 17

Ética


Cy Twombly «Untitled», 2007 (detail)
(acrylic on wood)
- Private Collection -


Ética

Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.
*
(Luís Quintais) *

in «Lamento», 1999

ESTUDO DE NU


Marlene Dumas «The Kiss», 2003
(oil on canvas)
- Artist portfolio -


ESTUDO DE NU

Essa linha que nasce nos teus ombros,
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se
desprenderam, ansiosos.

Essas duas parábolas que te apertam
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias ciclóides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.

Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho e selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.


(José Saramago) *

in « Os Poemas Possíveis», 1966
**

Nota: Está patente uma exposição das obras de Marlene Dumas no Museu "The Menil Collection" de Houston, Estados Unidos da América.
*

Folhas Vermelhas


Desiree Dolron, X-teriors VIII, 2004
(c-print)


Folhas Vermelhas

Andam as estátuas a voar
em redor dos pássaros estáticos
sem que isso perturbe
o bronze da manhã.
Os bancos em frente do rosto da cidade
só aceitam depositantes e não levantamentos.
Uns vagabundos de ar inteligente ainda dormem
sobre um manto invisível de folhas vermelhas.
Deve ser por isso que chegou o Outono.

Ouço um apelo das montanhas
nas asas do granizo
e lá vou eu em busca do Inverno
sem verdadeira coragem de olhar para trás.
Acompanha-me o vento sul e um ocaso
nasce dentro de mim a cem à hora
para acender-me a alma, velho motor
engripado com os versos de Oscar Wilde
e as histórias de Allan Pöe. Neste caso
deve ser algo que tenha a ver com amor.

Estou quase atingindo o clímax, o cimo,
os píncaros da felicidade plena, violeta
e branca, como as flores dos altares das igrejas
que povoaram a catequese da minha infância.

Estou por cima e, daqui, é mais fácil olhar
para baixo, contemplar o sofrimento dos outros
e aplaudir os seus rasgos de alegria. O poeta
tem este destino de eremita. Cultiva laranjas,
maçãs e pêros. Depois colhe romãs e cerejas.

(José António Gonçalves)
*

in «Arte do Voo», 2005

Sábado, Abril 25

CAMÕES NA ILHA DE MOÇAMBIQUE


Menez «Figuras» 1993
(guache sobre papel)
- Colecção Particular -


CAMÕES NA ILHA DE MOÇAMBIQUE

É pobre e já foi rica. Era mais pobre
quando Camões aqui passou primeiro,
cheia de livros a cabeça e lendas
e muita estúrdia de Lisboa reles.
Quando passados nele os Orientes
e o amargor dos vis sempre tão ricos,
aqui ficou, isto crescera, mas
a fortaleza ainda estava em obras,
as casas eram poucas, e o terreno
passeio descampado ao vento e ao sol
desta alavanca mínima, em coral,
de onde saltavam para Goa as naus,
que dela vinham cheias de pecados
e de bagagens ricas e pimentas podres.
Como nau nos baixios que aos Sepúlvedas
deram no amor corte primeiro à vida,
aqui ficou sem nada senão versos.
Mas antes dele, como depois dele,
aqui passaram todos: almirantes,
ladrões e vice-reis, poetas e cobardes,
os santos e os heróis, mais a canalha
sem nome e sem memória, que serviu
de lastro, marujagem, e de carne
para os canhões e os peixes, como os outros.
Tudo passou aqui ─ Almeidas e Gonzagas,
Bocages e Albuquerques, desde o Gama.
Naqueles tempos se fazia o espanto
desta pequena aldeia citadina
de brancos, negros, indianos e cristãos,
e muçulmanos, brâmanes, e ateus.
Europa e África, o Brasil e as Índias,
cruzou-se tudo aqui neste calor tão branco
como do forte a cal no pátio, e tão cruzado
como a elegância das nervuras simples
da capela pequena do baluarte.
Jazem aqui em lápides perdidas
os nomes todos dessa gente que,
como hoje os negros, se chegava às rochas,
baixava as calças e largava ao mar
a mal-cheirosa escória de estar vivo.
Não é de bronze, louros na cabeça,
nem no escrever parnasos, que te vejo aqui.
Mas num recanto em cócoras marinhas,
soltando às ninfas que lambiam rochas
o quanto a fome e a glória da epopeia
em ti se digeriam. Pendendo para as pedras
teu membro se lembrava e estremecia
de recordar na brisa as cróias mais as damas,
e versos de soneto perpassavam
junto de um cheiro a merda lá na sombra,
de onde n’alma fervia quanto nem pensavas.
Depois, aliviado, tu subias
aos baluartes e fitando as águas
sonhavas de outra Ilha, a Ilha única,
enquanto a mão se te pousava lusa,
em franca distracção, no que te era a pátria
por ser a ponta da semente dela.
E de zarolho não podias ver
distâncias separadas: tudo te era uma
e nada mais: o Paraíso e as Ilhas,
heróis, mulheres, o amor que mais se inventa,
e uma grandeza que não há em nada.
Pousavas n’água o olhar e te sorrias
─ mas não amargamente, só de alívio,
como se te limparas de miséria,
e de desgraça e de injustiça e dor
de ver que eram tão poucos os melhores,
enquanto a caca ia-se na brisa esbelta,
igual ao que se esquece e se lançou de nós.

(Jorge de Sena)

Julho 72

in «Camões Dirige-se aos seus Contemporâneos», 1973

Sábado, Fevereiro 28

TU ESTÁS AQUI


Louise Bourgeois «Cell II», 1991
( assemblage art, mixed media)
- Carnegie Museum of Art, Pittsburgh / Pennsylvania -
*
*
TU ESTÁS AQUI

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um
*******************************[nome e sabem o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as
***********************************************[palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro
***********************************[de casa sou outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de
********************************************** [exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a
****************************************************[fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas
********************************************[paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-las para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram
*****************************[outro nome que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir umas
**********************************[coisas das outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também
*********************************************[outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos
**********************************************[domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas
******************************[palavras como a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma
************************************************[de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre
*********************************************[presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui

(Ruy Belo) *
*
in «Toda a Terra», 1976
*
Nota:_ Está patente no Hirshhorn Museum em Washington,_ uma exposição de trabalhos realizados pela artista francesa Louise Bourgeois, inspirados em ideias e estilos de diversos movimentos artísticos de vanguarda, oriundos da Europa e da América: surrealismo, primitivismo, psicanálise, conceptualismo e feminismo.
*

Agora Mesmo


Albert Ràfols-Casamada «Tensions», 2004
(acrylic paint on canvas)
- Artist Portfolio -
*
*
Agora Mesmo

Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado
Está gente a morrer e nós também
*
Está gente a despedir-se sem saber que para
Sempre
Este som já passou Este gesto também
Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante
Tu próprio te despedes de ti próprio
Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
Já estás diferente neste verso e vais com ele
*
Os amantes agarram-se desesperadamente
Eis como se beijam e mordem e por vezes choram
Mais do que ninguém eles sabem que estão a despedir-se
*
A Terra gira e nós também A Terra morre e nós
Também
Não é possível parar o turbilhão
Há um ciclone invisível em cada instante
Os pássaros voam sobre a própria despedida
As folhas vão-se e nós
Também
Não é vento É movimento fluir do tempo amor e morte
Agora mesmo e para todo o sempre
Amen
*
(Manuel Alegre) *
*
in «Chegar Aqui», 1984

Quarta-feira, Fevereiro 25

Não Fora o Mar!


José Malhoa «Praia das Maçãs (À beira-mar)», 1918
(óleo sobre madeira)
- Museu do Chiado -


Não Fora o Mar!

Não fora o mar,

e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite
a lua, calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.

(Fernanda de Castro) *

(in «Trinta e Nove Poemas», 1941)

Da autora, o poema [África Raiz], numa edição de Dezembro de 1966, considerado «O poema do século!» por José Carlos Ary dos Santos.
*

Domingo, Fevereiro 22

TEMOR DE NÃO HAVER DEUS


Robert Scott Duncanson «At the Foot of the Cross», 1846
(oil on canvas)
- The Jesuit Community at the University of Detroit Mercy -

*
*
TEMOR DE NÃO HAVER DEUS

Temia não ressuscitar de novo:
eram tantas as mortes, que vivera
no decurso da sua vida até agora,
que morria pra não viver já morto

E continuava cego, só e absorto,
pálido entre símbolos de cera,
a caminhar no tempo, sobre a hora,
tal como sobre a água em passo curto

De tudo o que aprendera não constava
nada, que o ensinasse a morrer já
sem perguntar a Deus, se Deus existe

A certeza maior da sua fé
à maior alegria não quadrava,
mas somente à menor, que é quase triste

(António Barahona)

in «Sombra das Minhas Mãos», LG, 1998

Sexta-feira, Fevereiro 20

A LIÇÃO DE POESIA


Maria Lassnig «3 ways of being», 2004
(oil on canvas)
- Artist Portfolio -
*
*
A LIÇÃO DE POESIA
*
Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.


A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.


A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis − naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.

(João Cabral de Melo Neto) *

(in « O Engenheiro», 1945)
*
*
Nota: Mais de 60 obras do trabalho dos últimos dez anos da artista plástica Maria Lassnig, encontram-se expostas no Museum Moderner Kunst, em Viena, numa exposição individual intitulada "The ninth decade", comemorativa do seu nonagésimo aniversário.
*

Domingo, Fevereiro 15

ACONTECIMENTO; ALEGORIA SEGUNDA; POEMA PARA HABITAR


J.M.W.Turner «The Bay of Uri, Lake Lucerne, Switzerland», 1841
(watercolour)
- The Henry Vaughan Bequest / National Gallery of Ireland -
*
*
ACONTECIMENTO

Tu choravas e eu ia apagando
com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas
– riscos na areia mole e quente do teu rosto.
Choravas como quem se procura.
E eu descobria mundos, inventava nomes,
enquanto ia espremendo com as mãos
o meu sangue todo no teu sangue.
*
Não sei se o mundo existia e nós existíamos realmente.
Sei que tudo estava suspenso,
esperando não sei que grave acontecimento,
e que milhares de insectos paravam e zumbiam nos
meus sentidos.
Só a minha boca era uma abelha inquieta
percorrendo e picando o teu corpo de beijos.
*
Depois só dei pela manhã,
a manhã atrevida
entrando devagar, muito devagar e acordando-me.
Desviei os meus olhos para ti :
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca. *

(in «Secura Verde» Porto, 1950)



*
J.M.W. Turner «The Piazetta, Venice», 1835
(watercolour)
- The Henry Vaughan Bequest / National Gallery of Ireland -
*
*
ALEGORIA SEGUNDA
*
De poetas e filósofos tu sabes,
sabes também por ti. Por isso eu digo :
esta pedra é vermelha, esta pedra é sangue.
Toca-lhe : saberás
como em segredo florescem as acácias
ao redor dos muros, como fluem
suas concêntricas artérias. Acaricia-as : tocas
a parte mais sensível de ti mesmo.
*
Dizias ontem que o verão ardia
nesta pedra. Nela
queimavas tuas mãos. Onde
as aqueces hoje? Eu digo :
o verão não morreu, esta pedra é o verão.
*
E tudo permanece. E tudo é teu.
Tu és o sangue, o verão e a pedra.
*
(in «Paralelo ao Vento» Porto, 1979)


*
J.M.W. Turner «A Shipwreck off Hastings, 1825
(watercolour)
- The Henry Vaughan Bequest / National Gallery of Ireland -
*
*
POEMA PARA HABITAR
*
A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
*
Que lhe limpem os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
*
Até que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.
*
(Albano Martins) *
*
(in «Coração de Bússola» Évora, 1967)

lamento para a língua portuguesa

Anselm Kiefer «am Anfang / In the Beginning», 2008
(oil, emulsion and lead on canvas and photopaper)
- Hans Grothe Collection -
*
*

lamento para a língua portuguesa

não és mais do que as outras, mas és nossa,

e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.

(Vasco Graça Moura) *

in «Antologia dos Sessenta Anos», 2002

Quarta-feira, Fevereiro 11

À MINHA MÃE E À MINHA TERRA


José Malhoa «O Remédio», séc. XIX
(óleo sobre madeira)
- Museu Nacional Soares dos Reis -
*
*
À MINHA MÃE E À MINHA TERRA

A Ti, minha Mãe que tens o rosto
Dorido e iluminado duma santa,
Todo embebido em lágrimas de Amor,
É que a minha Alma, de joelhos, canta!
A Ti, e à minha Terra, as duas Mães,

Que me criaram juntas num abraço,
Pois ambas me trouxeram no seu ventre,
Ambas me adormeceram no regaço.

E tu, vento de orgulho, que em mim passas
Rugindo a toda hora,
Une-te ao pó:
E agora
Que de toda a minha Alma fique só
A trêmula inocência dum menino
Para que eu reze uma oração de Graças!
Como és, ó mãe!, irmã desta Paisagem
Tão doce, religiosa e comovida,
Com uma parte viva neste mundo
E outra maior que é para além da Vida!
Já, por amor de mim, desses teus olhos,
Postos num rosto triste e macerado,
Como uma fonte prestes a nascer,
Muita lágrima em fio tens chorado
E muitas inda estão para correr.

Também a Terra sofre das raízes,
Que a penetram na ânsia de sugar;
Das Águas que a retalham pra correr,
Das humildes sementes a acordar;
Sofrem os Rios concebendo a Névoa
As Árvores no esforço de se erguer,
E Árvores, Rios, Névoas, tudo sofre
Quando lhes bate o láteo do Vento
Ou se o Sol as devora, calcinante:
E é todo esse profundo Sofrimento
Para que eu num delírio ria e cante!

O vento, em fúria, passa sobre a Terra:
Talvez tu chores minha Mãe agora,
E quando eu canto, para ser Poeta,
Tu choras minha Mãe e a Terra chora.

A graça do teu rosto é já do Céu
Participa de Deus, de Eternidade,
E não se vê melhor estando ao perto:
Mas no vidente enlevo da Saudade,
Olhos fechados, coração aberto...

Tu ensinaste-me a rezar, ó Mãe!
E a minha Terra...: é só olhá-la bem,
Longe até às encostas,
Vêem-se choupos sempre até além...:
É a Paisagem toda de mãos postas!

Só tu podias ser a minha Mãe,
Só tu e mais ninguém
Trazer-me ao peito
É dar-me um leite em lágrimas banhado;
E que a estes meus olhos fosse dado
Só há no mundo este lugar eleito.

Graças, ó minha Mãe!, te venho dar
E a ti, boa Paisagem, também dou
Por meu divino gosto de cantar,
Pela parte mais santa do que sou!

É por amor das lágrimas ardentes,
Que te cavaram sulcos pelo rosto,
É por amor do céu e do Sol-posto,
Do Mar... de ti, Paisagem, que me abraças,
Que eu sou Poeta e canto e choro e rezo
E que vos dou esta oração de graças.

E assim, ó minha Mãe, minha Paisagem,
Ensinai-me a criar como as mulheres
E como a Terra generosa e ruda:
Que sofras , ó minha Alma, as dores do Parto,
Que dês o sangue aos versos que fizeres
Que o sol te queime e o Vento te sacuda!

Minha Mãe, Minha Mãe, ó Minha Santa,
E vós, sagradas Águas e ramagens,
Bendita sejas tu entre as Mulheres,
Bendita sejas tu entre as Paisagens!
*
(Jaime Cortesão) *
*
in «Glória Humilde», Porto 1914

ARTE PERIPOÉTICA


Michael Raedecker «the freeze», 2005
(acrylic and thread on canvas)
-Private Collection -


ARTE PERIPOÉTICA

Aristóteles, visita
da casa da minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de ser
contra a maneira do tempo
esta maneira de ver
o que o tempo tem por dentro.
Aristóteles diria
entre dois golos de chá
que o melhor ainda seria
deixar o tempo onde está
pô-lo de perto no tema
e de parte na poesia
para manter o poema
dentro da ordem do dia.
Aristóteles, visita
da casa da minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só.
Ele sabia que o poeta
depois de tudo inventado
depois de tudo previsto
de tudo vistoriado
teria de fazer isto
para não continuar
o que já estava acabado
teria de ser presente
não futuro antecipado
não profeta não vidente
mas aço bem temperado
cachorro ferrando o dente
na canela do passado
adaga cravando a ponta
no coração do sentido
palavra osso furando
pele de cão perseguido.
Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de riso
que é a mais original
forma de se ter juízo
e ser poeta actual.
Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
também diria antes só
do que mal acompanhado
antes morto emparedado
em muro de pedra e cal
aonde não entre bicho
que não seja essencial
à evasão da palavra
deste silêncio mortal.

*
(José Carlos Ary dos Santos)
*

in «Adereços, Endereços», 1965

Sexta-feira, Fevereiro 6

a luz de um só tecido a mover-se sob o vestido


Georges Seurat «Au Divan japonais», 1887-88
(conté crayon and gouache on paper)
- Private Collection -
*
*
a luz de um só tecido a mover-se sob o vestido
rapaza raparigo
trav superdot sôfrego belíssimo
mamas sem leite e sangue mas
terrestres soberanas
pénis intenso
ânus sombrio
*
(Herberto Helder) *
*
in «A faca não corta o fogo», 2008

Domingo, Fevereiro 1

FONS VITÆ


Anselm Kiefer «Shebirat Ha Kelim (Shattering of the Vessels)» 1990
(lead, glass, dress and female hair on wood)
- Hans Grothe Collection -

*
FONS VITÆ

Dá o sangue mas está suspenso no ar:
venceu a força da gravidade
e ali prossegue, figura de martírio,
sangrando para a vasca. Personagens
em torno dela ajoelham. Não é
para menos: trata-se do Cristo
Redentor. O sangue faz ajoelhar
os poderosos que há séculos
fazem correr sangue alheio
em nome desse Cristo − prática normal
das religiões. Mistério é o modo como
veio sangrar a esta cidade, nas paredes
da Misericórdia. Mistério a que faltam
referências decerto condutoras ao ouro
brasileiro e a papéis perdidos
de doadores soterrados nos desvãos
anónimos da história, um puzzle
a que sempre faltam peças. Ali está ele,
fonte inesgotável na sua cruz,
fonte de vida segundo o título.
No fundo há uma paisagem, mas o Cristo
volta as costas à flora flamenga:
apenas sangra, não se sabe o que vê
suspenso sobre o mundo que não é o seu.
O rei que olha e medita o significado
daquele sangue (se é que é o rei)
irá erguer-se e finalmente assinar
o decreto da Santa Inquisição. Sairá
daquele quadro cheio de dúvidas, mas
o sangue continuará a correr, agora
fonte de morte − mas benzida
pelo selo real do Venturoso.

(Egito Gonçalves) *

in «Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda um Copo de Crepúsculo», 2006
*
*
Nota: O Museu Es Baluard Museu d'Art Modern i Contemporani de Palma de Mallorca, Espanha, apresenta uma exposição das obras de Anselm Kiefer, pertencentes à colecção de Hans Grothe, grande coleccionador de arte contemporânea alemã.
*

Nazaré


Bonifácio Lázaro Lozano «Gente da Nazaré», s/d
(guache sobre tela)
- Museu de José Malhoa -
*
*
Nazaré

Não a outra, mas essa: a que do Sítio nos aponta o ocidente
E depois outras rotas para todos os quadrantes:
a praia de dentro
o jardim de fora e do fundo da nossa pequena
silhueta
- morte que se negou.

A solidão da praia do Norte
o assombro da luz
que alimenta a penumbra
Tudo o que por alegria calamos num passo estugado e
um pouco temeroso
Não importa, dizias tu,_ além é o mundo e ouve-nos
- pequeno veraneante de roupas coloridas que a alguém entregou
sua voz seu segredo
seu nítido momento.

E agora
não a outra mas tu
a que não entra nessa história sagrada em que Ester
colocou seu cântaro perto do muro caiado
e que em Azarias achou seu derradeiro refrigério
A mão_ a asa perfeitamente modelada
e depois seu abalar para sempre, seu
trespassado e imperfeito corpo até à claridade
- bóias barcos refluir de vagas_ as máquinas
fotográficas ao ritmo do que de longe a serra da Pederneira
conserva e permite.

Não a outra mas tu
a que outrora vi entre céus e uma sombra fugaz
Meu íntimo refúgio igual a mil_ a cem_ a um apenas.
As flores_ os fogareiros para o trabalho do peixe_ a jorna
*******************************************entregue
a quem na memória retém surpresa e saudade

ou simplesmente no cimo da falésia avistou
horizontes_ ruas incólumes_ a escuridão das dunas.
*
(Nicolau Saião) *
*
in «Antologia Canto de Mar» 2005, Colecção Bico da Memória,
Biblioteca Municipal da Nazaré

BULE


John Buck«Fact and Fiction», 1997
(color woodcut)
- Artist Portfolio -
*
*
Bule bule bule bule bule bule bule
a palavra parece a água a borbulhar
bule bule bule bule bule bule bule
a água a ferver.
Bule bule bule___o bule aquece o bule bule
deita-se o chá e o bule bule bule bule
bule bule bule vezes sete deita-se a água
bule bule bule bule a água a ferver
bule bule bule ____ o bule serve o chá.
Beber ____ é matar _____a sede.
Bule bule bule bule bule bule bule
Beber ____ é o acto sagrado_____de matar
a sede. Bule bule bule bule o bule é o receptáculo
escuro _____________________da morte.
Bule bule bule bule ______o bule é o tabernáculo.
O bule não é o copo _______bule bule bule bule
o copo é o receptáculo claro _____________da morte
da sede._Mas o bule é divino_____________e raro.
Escuro ______o bule
bule bule ____ o chá é divino e puro.
Sabedoria. Bule bule bule bule bule
Faço a cerimónia do chá cinco vezes por dia.

O bule está quente.
O bule está morno.
O bule está frio.______Sophia!
As mãos acompanham em concha
o bojudo do bule companheiro… bule bule
bule bule bule __todo o dia.

As tisanas são assunto ____da Ana
Hatherly.
Bule bule bule bule bule bule bule
com asa e bico bule bule bule bule
o bule é a ave do espírito _______santo
em si.
Garça_pato_cisne_cegonha_avestruz
conforme o bule o pescoço varia
e produz bule bule bule bule
uma chávena de Universo
inteiro.
O bule é o sacrário________por isso
Beber chá é beber ___ a noite e o dia
é sorver bule bule ___ o enigma primeiro.
O bule cheio bule ____é o ventre relicário
do chá ____bule ____ meu néctar
verdadeiro bule bule bule bule claro
meu alimento bule bule bule __caro.
Bule bule bule bule bule bule bule.
*
_______________BULE.
*
(Salette Tavares) *

(in «Poesia Gráfica», Lisboa, Casa Fernando Pessoa, 1995)

Nota: Shark's Ink: The Legend of Bud Shark and His Indelible Ink.

Sábado, Janeiro 24

PRESENÇA AFRICANA


Man Ray «Noire et Blanche», 1926
(gelatin silver photograph)
- Man Ray Trust Collection -
*
*
PRESENÇA AFRICANA

E apesar de tudo,
Ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!

Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...

A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
Nascendo dos braços das palmeiras...

A do sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
Salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!... Rua 11!...)
pelos meninos

de barriga inchada e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu
e corpo musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...

E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela
Longa história inconsequente...

Minha terra...
Minha, eternamente...

Terra das acácias, dos dongos,
dos cólios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.

Ainda sou a que num canto novo
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu povo!
*
(Alda Lara) *

Benguela, 1953
*
in «Poemas», Sá da Bandeira, 1966

ODE AO TEJO E À MEMÓRIA DE ÁLVARO DE CAMPOS


Aureliano de Beruete «El Tajo (Toledo)», ca. 1904
(oil on canvas)
- Meadows Museum Collection, Dallas -

*
*
ODE AO TEJO E À MEMÓRIA DE ÁLVARO DE CAMPOS

E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa -
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"

Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!

Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que
****************************Fernando Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.
Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!

O meu mal é não ser dos que trazem beleza metida na algibeira
e não precisam de olhar as coisas para as terem.
Quando não está diante dos meus olhos, está sempre longe.
Não te reduzi a uma idéia para trazer dentro da cabeça,
e quando estás ausente, estás mesmo ausente dentro de mim.
Não tenho nada, porque só amo o que é vivo,
mas a minha pobreza é um grande abraço em que tudo é sempre
*************************************************virgem,
porque quando o tenho, é concreto nos braços fechados sobre a
**************************************************posse.

Não tenho lugar para nenhum cemitério dentro de mim...
E por isso é que fiquei a pensar como era grave ter passado
**********************************sem te olhar, ó Tejo.
Mau sinal, mau sinal, Tejo
Má hora, Tejo, aquela em que passei sem olhar para onde estavas.
Preciso dum grande dia a sós comigo, Tejo,
levado nos teus braços,
debruçado sobre a cor profunda das tuas águas,
embriagado do teu vento que varre como um hino de vitória
as doenças da cidade triste e dos homens acabrunhados...
Preciso dum grande dia a sós contigo, Tejo,
para me lavar do que deve andar de impuro dentro de mim,
para os meus olhos beberem a tua força de fluxo indomável,
para me lavar do contágio que deve andar a envenenar-me
dos homens que não sabem olhar para ti e sorrir à vida,
para que nunca mais, Tejo, os meus olhos possam voltar-se para
***********************************************outro lado
quando tiverem diante de si a tua grandeza, Tejo,
mais bela que qualquer sonho,
porque é real, concreta, e única!
*
(Adolfo Casais Monteiro) *

in «Noite Aberta aos Quatro Ventos», 1943

Terça-feira, Janeiro 20

Camões e a tença


José Malhoa «Desalento», ca. 1933
(pastel sobre papel)
- Museu de José Malhoa -
*
*
Camões e a tença

Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu
nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.

Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)
*

in «Grades», 1970

Sexta-feira, Janeiro 16

Metafísica


Lucio Fontana «Concetto Spaziale» The Venezia series, 1961
(oil on canvas)
- Private Collection -
*
*
Metafísica

Foi em Taipé.
Se bem me lembro, a 3 de Outubro.
Nas árvores o sol crescia devagar.

Entrámos num dos templos da cidade
e era quando os crentes fazem as suas oferendas.
Uma monja revestida de amarelo oficiava
e o fumo dos pivetes enlaçava-se
na música dos sinos e dos címbalos.

Nunca vi em parte nenhuma uma monja tão bela
e os seus gestos oficiando eram belos como ela.
Na música transportava-me não ao céu
mas aos braços da monja erguidos
maduros e redondos para o amor.

Sobre um estrado recebendo as bênçãos
vi comidas que só os chinas sabem oferecer a deuses
e que pelos deuses abençoadas eles retomam, e comem.
Mas sobretudo vi um cacho de bananas
cor de ouro, enormes, sardentas.

Quando saí não pude deixar de comprar bananas,
que logo amorosamente devorei.
E por isso ainda hoje penso na monja de amarelo,
nos gestos que fazia oficiando.

Nunca mais voltarei a Taipé
nem comerei bananas como aquelas.
Que a vida é assim, amigos:
recordar, por exemplo, a beleza de uma monja
e um cacho de bananas
e contentarmo-nos depois com o que temos
onde não temos nada disso.

(Pedro da Silveira)
*

in «Corografias», 1985

Segunda-feira, Janeiro 5

Daniel na Cova dos Leões


Bill Jacobson «Untitled», 2000
(chromogenic print mounted on museum board on Sintra)
- Miami Art Museum -



Regando lentamente as flores do riso,
vou já de neve em neve e lume em lume,
contornando a nordeste o paraíso
em terrenos de pedras ou de estrume,
com pequenas palavras na algibeira
das calças que mantenho ainda frias
da presença dos lares à minha beira.

E meto mãos e dentes nas vazias
flanelas limpas para o flanar antigo,
marcho directo e escasso, colocando
os pés azadamente.
Não persigo
ventos ou cores: sou pedro, zé, femando,
nomes comuns, impróprios, que desdigo
baixinho e surdo, curto, enquanto ando.

(Pedro Tamen) *

in «Daniel na Cova dos Leões», 1970

Quinta-feira, Janeiro 1

Do ciclo das intempéries


Egon Schiele «Portrait of the Artist's Wife», 1918
(oil on canvas)
- Private Collection -
*
*
A sombra da figueira não me lembra a sombra.
Muitas vezes sou o ramo que se quebra
Sem tempestades.
*
A sombra que tenho na memória é semelhante à tristeza no sangue
E o sangue não me lembra o figo quando escorre
O mel. A mulher estéril vê o homem deitar-se com a escrava
*
A figueira lança a sua sombra sobre a parede da casa
Branca
A mulher fecha os olhos para ouvir no escuro das folhas
A mulher quase nunca se assemelha ao céu
Sem nuvens
*
O sangue não ocupa mais o coração do que um filho que nasce
Amulher não queria ser um tronco cheio de ramos
*
A mulher imagina uma colmeia cheia de favos
Debruça-se à janela como a inclinação dos telhados
*
Como se os ninhos (como se os filhos ao pescoço) a vergassem
*
(Daniel Faria) *

(in «Do que sangro / Poesia» edição 2006)
*

Nota: Egon Schiele está representado na exposição XXth Century a decorrer no Gemeentemuseum na cidade The Haag, na Holanda, assim como outros grandes vultos da pintura do século XX, em que pontuam os mais diversificados estilos e correntes artísticas da arte moderna e contemporânea, a serem analisados à luz dos grandes acontecimentos políticos que marcaram a história do século passado.
*

LAMENTAÇÕES


Rudolf Hausner «gelber Narrenhut / yellow fool's hat», 1955
(tempera and oil on hardboard)
- Wien Museum Collection -
*
*
LAMENTAÇÕES

Que solitária está a cidade
Enviuvou a mais povoada
Das nações.
Está de luto a que foi mãe
E em trabalhos forçados

Passa a noite a dobar a sua noite
À luz do pequeno brilho da lembrança
Não há a consolá-la nenhum dos seus amantes
Cresce o silêncio nos degraus da entrada
E encontra inimigos quando estende a mão

Foi levada para fora das muralhas
Foi levada para terra estéril. Foi humilhada
E posta ao serviço das escravas.
Dorme ao relento e sem repouso
Tomada de aflição.
Perseguida até ao fim
Das suas forças
Mesmo no sono é cercada

Está mais perdida do que numa encruzilhada
E venda os olhos porque qualquer luz
Ou a mínima palavra (ou a noite)
Lhe ferem os olhos rompidos de saudade

E nem os mendigos nas estradas
Têm um coração tão só

(Daniel Faria)
*

in «Poesia», 2003 - Prémio Teixeira de Pascoaes 2004

Terça-feira, Dezembro 23

DEMASIADO HUMANO

*
Angelo Morbelli «Twilight», 1894-96
(oil on canvas)
- Civica Galleria d'Arte Moderna, Verona -


DEMASIADO HUMANO

______________________ao Adolfo Casais Monteiro


Escancarei, por minhas mãos raivosas,
As chagas que em meu peito floresciam.
Versos a escorrer sangue eis escorriam
Dessas chagas abertas como rosas…

Assim vos disse angústias pavorosas
Em versos que gritavam… ou sorriam.
Disse-as com tal ardor, que todos criam
Esse rol de misérias fabulosas!

Chegou a hora de cansar…, cansei!
Sabei que as chagas todas que aureolei
São rosas de papel como as das feiras.

Que eu vivo a expor minh’alma nas estradas,
Com chagas inventadas retocadas…
Para esconder bem fundo as verdadeiras.

(José Régio) *

in «Poemas de Deus e do Diabo», 1925

NATAL DE 1971


Kirsten Everberg «Falling Rocket», 2006
(oil and enamel on panel)
- Artist's Collection -
*
*
NATAL DE 1971

Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?
*
(Jorge de Sena)

Novembro 71


in «Exorcismos», 1972

Sexta-feira, Dezembro 19

Ilha dourada


Ana Pimentel «Há Lugares que nunca se Esquecem», 2008
(mixed media on canvas)
- Colecção Particular da Artista -
*

Ilha dourada

A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio
As gentes calam na
voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da "Amizade"
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento

(Rui Knopfli)

(in «a Ilha de Próspero», 1972)

Nota: «Flowers and Champagne» é o nome da exposição individual da artista plástica Ana Pimentel , apresentada no espaço de arte contemporânea em Coimbra, Galeria Sete.

Terça-feira, Dezembro 16

O INQUILINO


Edvard Munch «Szene aus Ibsens (Ghosts), 1906
(oil on canvas)
- Private Collection -


O INQUILINO

****Ainda me lembro dessa noite. Fevereiro de mil novecentos e cinquenta e quatro. Sentado à mesa de trabalho, sem fazer um gesto, recortado na luz intensa do candeeiro que o apanhava de perfil, o inquilino ia perguntando aos espectadores imaginários como se o tolhesse a lentidão dum sonho ou o tapete no fio se pusesse de repente a falar:

________________Aceito a ordem
________________das coisas, a geometria
________________imposta do quarto?
________________Os objectos no
________________seu lugar de sempre,
________________a distância exacta
________________da cadeira à mesa,
________________do meiple à janela?
________________O sono do tapete?
________________O universo diário
________________do quarto alugado,
________________as molduras que
________________cercam, resguardam
________________naturezas mortas,
________________paisagens imóveis?
________________Aceito a minha vida?
________________Ou mexo no candeeiro,
________________desvio-o alguns centímetros
________________na mesa, altero
________________as relações das coisas,
________________afinal tão frágeis
________________que o simples desvio
________________dum objecto pode
________________romper o equilíbrio?
________________Pego no telefone
________________e grito ao primeiro
________________desconhecido: ouves-me?
________________Ou deixo tudo
________________tal como está,
________________medido, quieto
________________no rigor do quarto,
________________e eu hesitante
________________entre o soalho e o tecto?
________________Desloco o cinzeiro
________________sabendo que posso
________________matar mandarins,
________________provocar cataclismos,
________________fracturas, amores,
________________eclipses, sonhos,
________________com a ponta dum dedo?
________________Ou apago a lâmpada
________________eléctrica e entro
________________no mesmo torpor
________________que as flores do tapete,
________________a fruta dos quadros,
________________o frio, o bolor,
________________no chão, nas paredes,
________________o poema na mesa,
________________a mesa no espaço
________________do quarto comprado
________________mês a mês? Confundo
________________o aluguer e o tempo,
________________deixo-me ser
________________em cada milímetro,
________________em cada segundo,
________________do quarto, da vida,
________________o outro objecto
________________chamado inquilino?
________________Ou desencadeio
________________a insurreição
________________mudando de sítio
________________o meiple, a cadeira,
________________mudando-me a mim?

________________(Carlos de Oliveira) *
*
______________________1966
*
*
Nota: Esta tela de Edvard Munch integra a exposição «Interior/Exterior», a decorrer no Kunstmuseum em Wolfsburg, na Alemanha, cujo tema está relacionado com a pintura de interior desde o período romântico até ao design de interiores do futuro.
*

Domingo, Dezembro 14

NO MEIO DO CAMINHO; ESGRIMA; DEUTSCHE GRAMMOPHON

*
Paul Klee «It got him», 1939
(pencil, coloured paste and oil on paper on cardboard)
- Zentrum Paul Klee, Bern -

*
*
NO MEIO DO CAMINHO

[decalque de Carlos Drummond de Andrade]

No meio do caminho havia uma pedra,
uma pedra no caminho, havia um coração
de pedra, um nome na pedra, Pedro
sobre esta pedra, pedra por dentro.

No meio do caminho sempre essa memória
de pedra, a pedra no meio do caminho,
essa pedra no meio e quase fim do caminho.




Paul Klee «Male head, youthful with blue eyes», 1910
(pen and watercolour on paper on cardboard)
- Zentrum Paul Klee, Bern -

*
*
ESGRIMA

O que era essa nossa amizade? Um jogo de esgrima,
se mais sofisticados fôssemos, florete
para a minha inexistente elegância, uma perna tensa,
um braço atrás das costas, vestidos de branco, máscara,
e, segundo as regras, tocando muito ao de leve
o corpo pouco olímpico um do outro.




Paul Klee «Appropriate music» 1933
(watercolour and chalk on paper on cardboard)
- Zentrum Paul Klee, Bern -

*
DEUTSCHE GRAMMOPHON

Nada é tão perfeito como a solidão:
não tem avesso nem motivo,
tem apenas a luz constante
das fotografias desfocadas.

A noite é a noite.
Domingo é domingo.
Ouve-se o corpo
e a Deutsche Grammophon.

(Pedro Mexia) *

(in «Senhor Fantasma», 2007)


Nota: Através de uma colecção particular de 27 obras do pintor suíço Paul Klee, inserido na corrente alemã Bauhaus do princípio do séc. XX, o «Zentrum Paul Klee» em Berna, na Suíça expõe ao público uma colecção de mais de 4000 das suas obras, entre telas, aguarelas e desenhos, algumas doadas e outras cedidas a título de empréstimo.
*

Sexta-feira, Dezembro 12

tauromaquia

*
John Singer Sargent «Head of a Spanish Musician», 1880
(oil on unstretched canvas)
- Private Collection -
*
*
tauromaquia

o duro touro* o puro miserere
engendrado talvez a papel químico
levado até ao curro mais irónico:
um bode expiatório e ambidextro

o boicotado* o sem habeas corpus
um bicho apenas puramente o bicho
definido nos olhos* sem demora
definitivamente: apenas isto

******* luto* de ferro curtido
******* fundido em curto-circuito
******* enxuto* surdo* centrípeto
******* e muito mais do que muito

enquanto a mão* artificio
lhe pirotecnisa as feridas
na funda esgrima dos círios
de domésticas tentativas
de investimento da morte em outro ventre
porque o touro entre nós é como gente:
tenta matar sem compromisso
por puro vício

assim* na mesma praça* a mesma casa
e menos do que sol: espanholada
o touro o* um homem reincide;
apenas isto: uma maré em riste

(Vasco Graça Moura) *

in «Semana Inglesa», 1965

Domingo, Dezembro 7

mil poemas sobre Brasília


Eduardo Souto de Moura e Ângelo de Sousa
- 11ª Exposição Internacional de Arquitectura
Pavilhão Português
La Biennale di Venezia 2008 -


mil poemas sobre Brasília

escrevo desta forma mil poemas

sobre brasília. o eixo largo antologia
meus sentimentos e eu sigo
baixo, só levantado por dentro
na alvura de Niemeyer que
revelou o lugar para o meu
irmão nascer

escrevo desta forma mil poemas
sobre Brasília. pássaro buscando
o povo, voando por toda a
beleza que sai à rua e eu sigo
baixo, só levantado pela
candura do meu irmão que
me traz identidade

ao monumento, que um
monumento é de fato o tamanho
verdadeiro do coração

e eu falo alto, tenho avenida
inteira um ataque tão
genuíno de paixão

(Valter Hugo Mãe) *
*
in «mil e setenta e um poemas», 2008 (Thesaurus Editora, Brasil)
*

Quinta-feira, Dezembro 4

UM HOMEM SENTADO NO SEU TEMPO


Gao Xingjian «La fin du monde», 2006
(ink on canvas)
- Gao Xingjian Collection -

*
UM HOMEM SENTADO
***NO SEU TEMPO

Está um homem sentado no seu tempo
cismando na mudança e em tantos
outros lógicos inexoráveis topos.
A pele o reveste com estrema cordura
como se manto, resguardando os vincos
de quebranto esparsos pelo corpo dentro.
Tem a mão combatente espalmada
sobre o rosto recoberto de incertezas ―
ou é uma pragmática, anfíbia barbatana
tacteando o interior, seu elemento?

Eis uma máquina de produzir sistemas,
que belo organismo em movimento.
Um engenho que, incessantemente,
como um fio de baba vai debitando angústia.
Ah, mas já a porção se completou,
já ele toma a tesoura dos seus dedos
e recolhe uma ideia arredondada
e a acondiciona entre outras mil,
todas densas, agudas, de morrer.
O corpo do homem ― exígua embalagem.

Mas a máquina não pára, o fio finamente
tecido das mais ínvias confissões
já forma outra ideia, de configuração
idêntica às restantes, e tão diversa,
tão matematicamente original.
Está um homem sentado no seu tempo,
recebe do século as mais embravecidas
aflições ― e prossegue segregando,
tão perfeita engrenagem de sofrer,
sua atlética fronte tão suada.
*
(A.M. Pires Cabral) *
*
(in «Trirreme», 1978 )
*
*
Nota: As obras deste artista plástico chinês radicado em França, Gao Xingjian, encontram-se
em exposição no Museo Würth, La Rioja, Espanha.
*

Domingo, Novembro 30

A Cobra


Charles Avery «Untitled - The Grass is Alive»
triptych (detail), 2005
(pencil and gouache on paper)
*
A COBRA

E então o Senhor disse à serpente:

Serás maldita e deslizarás.
Todos os animais domésticos e ferozes te
odiarão. Rastejarás, serás
motivo de escândalo para as outras criaturas.
Terra comerás quotidiana.
Alimentar-te-ás das presas que tomares
por tua manha. Abrirás
desmedidamente a boca para comer ―
pois o fruto defeso hás revelado.

Habitarás da terra os lugares quentes,
contra a neve e o gelo não prevalecerás,
pois te arrefeço o sangue;
o inverno te será adverso e assim
todos os rigores da mulher e sua descendência
que, com pavor dos teus dentes astutos,
procurará esmagar-te a cabeça
e fracturar-te a espinha com o calcanhar
e assim a teus filhos e aos filhos
de teus filhos. E ―
pois inventaste a nudez ―
a pele despirás pela vida fora.

Meus desígnios goraste e o pecado
inauguraste ― pelo que
tuas próprias escamas te serão prisão,
o parto te será redondo e desconforme,
te secará um pulmão,
crescerás em peçonha e em vergonha

e assim seja até à
consumação dos séculos.

(A.M. Pires Cabral)
*

(in «Algures a Nordeste», 1974) *
*
**
Nota: Charles Avery em exposição na Scottish National Gallery of Modern Art, em Edimburgo, na Escócia, UK.
*

Quinta-feira, Novembro 27

FALA DO DELEGADO DO MINISTÉRIO PÚBLICO


Max Weber «Rabbi Reading», 1941
(oil on board)
-The Weber Estate -


FALA DO DELEGADO DO MINISTÉRIO PÚBLICO

(Homenagem a Kafka)


… Mas, meus senhores, nenhum de nós tal pensa.
Conquanto a enormidade seja imensa
deste acto imundo que nos é imposto
a juízo justo, e que, no vosso rosto,
é sombra, ansiedade, horror do mal
que faz tremer o juiz imparcial,
equânime, que existe em cada cidadão
de honesta vida e puro coração,
esse impoluto julgador que somos,
nenhum de nós, senhores, se apoia em tomos
de ponderosa ciência do Direito
para julgar o mal que assim foi feito.
Falando francamente, não sabemos
como aplicar ao caso nós devemos
as regras e os castigos: a extensão
do crime escapa-nos. E a multidão
de provas, testemunhos, e de indícios,
à custa de tão grandes sacrifícios
aqui trazida, em nada nos adianta
ao conhecer exacto, porque tanta
minúcia probatória nos afasta
do nó, da essência. E a memória casta
com que nós recorramos à experiência
de cada um, tão limitada, vence-a
a própria mansidão da nossa vida
em tão calmas tarefas repartida.
Não que eu proponha a absolvição do réu,
nem que, sem forças pra rasgar o véu
que nos oculta a realidade crua,
nos proponhamos nós a que à verdade nua
se oponha em juízo a improcedência. Não.
É dever nosso não largar da mão
tão importante causa. Suspendamos
a nossa decisão. E resguardamos,
se a tal prudência nos levar o voto
que em vossos olhos eu direi que noto,
ao mesmo tempo o tribunal e o povo
contra os efeitos do elemento novo
que, em nosso seio, seja introduzido
pela malícia de um qualquer partido.
Nós somos, meus senhores, alguém que está
acima dessas lutas. E não há,
neste areópago de velhos sábios,
apesar do sorriso em vossos lábios
em que piedade e força se consomem,
ninguém que queira liquidar um homem
que a muitos títulos nos é nefasto.
Não é por ele que eu palavras gasto
e a vossa paciência. Mas por nós.
Nem liberdade, nem prisão. Uma voz
nunca foi coisa de temer. Atentai
nesta verdade, meus senhores: que nada
pode escapar-nos, coisa alguma, nada.
E num bem claro gesto de que a estima
pelo bem-estar social é o que me anima,
requeiro que nessa acta fique escrito
que não falei. É tudo. Tenho dito.

10/6/1961

(Jorge de Sena) *

(in «Peregrinatio ad Loca Infecta», 1969)

*
*
Nota: Cerca de 40 das obras do espólio pessoal de Max Weber, dos anos 1930, 40 e 50, estão actualmente em exposição na Gerald Peters Gallery, em Nova Iorque.
**

Sábado, Novembro 22

LIMITAÇÕES; CRIADOR E CRIAÇÃO; MEDITAÇÃO SOBRE A MORTE (I)


April Gornik «Field and Flames» 2007
(oil on linen)
- Private Collection -


LIMITAÇÕES

O Homem é homem por viver no mundo
e encontra o ser ao confrontar o mundo.
Quando descobre que não criou nada
o Homem encontra Deus.


vislumbra as suas limitações e potencialidades.

Ao Homem tudo é possível!
Excepto ultrapassar os limites da sua natureza.
Apenas o faz incompletamente,
por ser matéria e espírito.

Um é legado universal.
O outro é condição humana.




April Gornik «Red Desert» 2008
(oil on linen)
- Private Collection -

*
CRIADOR E CRIAÇÃO

Deus é
mas não como dizem ser:

Deus encontra-se
na verdade que se pretende por trás
das alegorias,
histórias
e interferências do homem

A verdade não são dogmas
porque os dogmas escondem a verdade.

E o que é Deus?

Deus é princípio e fim.
É um caminho a seguir
numa busca incessante.

É um ideal e evolução,
o dever ser
que nunca devemos atingir.

Para homens continuarmos a ser.
Para nunca deixarmos de sonhar
***************************** e de tentar.



*
April Gornik «Storm Sea» 2008
(oil on linen)
- Private Collection -


MEDITAÇÃO SOBRE A MORTE (I)

O início e o fim são iguais!

A Morte é o resgate do mundo sensorial
que torna a condição humana universal.

Pela decomposição corporal,
pelo ascender do Ser.

Morrer?
O fim é igual.
Eis onde a igualdade é plena!

(Vicente Ferreira da Silva)
*
in «METAFÍSICA [POÉTICA]», 2007
*

Sexta-feira, Novembro 21

«QUANDO O POETA...»


Antoni Tàpies «LLençol» 1988
(mixed technique on cardboard)
- Joan Melia Collection -
*
*
«QUANDO O POETA…»

Quando o poeta se dizia perdido no meio do caminho
desta vida, não sabia como era passados os cinquenta anos
dela − e morreu sem ter chegado aos sessenta.
É tal o tão perigoso e tormentório cabo
de que se morre da traição do corpo
e da traição de todos os amigos. Nós
depois dos cinquenta anos, no dobrar do cabo,
estamos sujeitos às preces mesmo dos melhores amigos:
também eles, como os inimigos, nos desejam mortos,
e querem-se ver livres de quanto nos devam
em lealdade, franqueza, honestidade, puro afecto,
tudo coisas demasiado pesadas na hora de sobreviver
pagando o preço à canalha que se acoita
mesmo no coração do mais virtuoso.
Os indiferentes também rezam pela nossa morte,
porque não anseiam dizer em lágrimas de entusiasmo
como afinal haviam sido amigos íntimos.
Por seu lado, o nosso corpo e o nosso espírito,
cansados de si próprios, fartos de
até prazer e luta e desafio e espera,
anseiam por morrer, se desfazer enfim.
De dentro e fora nos assalta tudo e a morte
horrenda pinta-se das cores da adolescência,
quando sonhávamos que o amor seria
como dormir nos braços maternais. Não é.
Há que resistir porém e sem porquê. Se resistimos,
se dobramos triunfais o Cabo Tormentório,
viveremos longamente ainda umas só décadas
sem dentes nem cabelo mas com vida
que até os inimigos hão-de acabar por sentir
pela carne acima como ardente vara.
Por esse tempo, os nossos amigos já morreram todos.

(Jorge de Sena) *

Londres, 5/2/1973

(in « Conheço o Sal… e Outros Poemas», 1974)
*
*
Nota: "Silensis" é o nome da exposição a decorrer na Abadia de Santo Domingo de Silos, em Burgos (Espanha), organizada pelo Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, onde 24 artistas espanhóis expõem os seus trabalhos ligados à espiritualidade e ao misticismo do local.
*

Terça-feira, Novembro 18

ARTE POÉTICA


Elizabeth Peyton «Michelle and Sasha Obama Listening to
Barak Obama at the DNC August 2008», oil on board
- Gavin Brown's enterprise Collection -



ARTE POÉTICA

A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.

A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as
**************************************************cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou
*****************************************************rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
― e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.

A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.

(Mário Dionísio)
*

(in «Poemas», 1941)


Nota: "Live Forever" é o nome da exposição da obra de Elizabeth Peyton nos Estados- Unidos, a decorrer no New Museum, em Nova Iorque.
*

Quarta-feira, Novembro 12

entrevista


Victor Grippo «Analogia IV», 1972
(wooden table with potatoes, porcelain plate, forks, knives,
acrylic and tablecloths)
- Private Collection -


entrevista

bom, o meu nome* não vale* a pena
dizê-lo. não,* não**se* trata*de que
rer* ficar* incógnito, *de*ter* medo
de citar o*nome,*medo porquê? não
tenciono dizer nada* que*me* comp
rometa. note-se*que*não* é* por* t
er medo que*não* quero* dizer nada
que me*comprometa. eu*já declarei
que não se trata* de* ter* medo, mas
de uma* questão* de**princípio,* se
assim se quiser. trata-se de*uma* qu
estão*de* honestidade, apenas,*não
se trata de não*querer, de* não* que
rer* expor-se, mas* sim**de* querer
ficar fiel aos*princípios, de*querer*fi
car igual a si mesmo, ou* de*não* se
trair,* que* é* o* mesmo. não* é*por
tanto por ter medo*que* eu* não* di
go o meu*nome,*mas, como* disse, e
desejaria* que* isto * ficasse* bem* c
laro, por uma* questão*de*princípio.

o*motivo por* que* escolhi a**minha
profissão? bom,*primeiramente,* que
ro*deixar* dito* que* a* minha* profi
ssão é* uma* profissão**como* outra
qualquer,* salvo* as* diferenças* que
lhe são* inerentes. Para* mim* foi**ó
bvio desde*o*princípio**escolher, ou
até* poderia* dizer** seguir, seguir* e
sta*profissão,*esta* carreira, uma* ca
rreira* por assim* dizer* de** família.

mas não, claro que não há*alcoolismo
na minha*família. já manias, por* assi
m dizer,*isso* enfim, como* em* toda
a parte. tenho* uma* tia,* por* exemp
lo, que sempre* que há* desastres* de
avião ou* de*comboio**incorpora-se
nas brigadas de* salvamento*e* passa
noites* e dias recolhendo*corpos e*pe
daços de*corpos, ajudando* a*reconh
ecê-los,*a**catalogá-los. o**meu*avô
materno** é**um**dos** maiores* co
leccionadores**de* impressões** digi
tais, tem* uma* das* maiores* colecçõ
es do mundo,* e péla-se* por* usar* ca
pacete de motorista* mesmo*dentro d
e casa.* mas manias, quem as não tem?

durante* a* minha* gravidez, quer* di
zer, *a* gravidez*de*que* eu* nasci, a
minha mãe não*sofreu* nenhuma* esp
écie* de* traumatismos,* não. o*parto
foi* laborioso,* sim,*mas* durante* to
da*a* infância* não* sofri*de**convul
sões,* claro,** nem** isso* seria* diga
mos coisa normal. sim,*costumava* ur
inar** durante** os**castigos* corpor
ais,* mas* isso* é* normal,*não* é*ver
dade? é* uma**reacção**normal,*que
eu* próprio* tenho**observado* igual
mente* nos* meus* filhos,* em**todos.

sim, sou casado.*por* que* é* que* sou
casado? não*compreendo* bem* a* per
gunta. não,*não* compreendo* onde* é
que*a* pergunta* quer* chegar.* como,
perdão?*por* que**é** que** tenho* fi
lhos?*a* pergunta* é**também** absur
da, é** completamente** absurda,* não
faz sentido.*os meus* filhos* são*todos
sadios,* é**evidente. não* * deforma
ções,*não.* um**morreu,* sim.* como?

decerto* que* tenho**de**prestar* con
tas dos* meus* actos.* mas* quem* não
tem? até* o* presidente* tem**de* pres
tar* contas* dos* seus* actos. a* quem?
ao povo. como? é* claro.* o* presidente
presta* contas* ao* povo.* quando? qua
ndo* presta* contas.*quando* diz:** eu
presto* contas**ao**povo.** é** assim.

decerto* que* sou**católico.** porquê?
não* entendo* a* pergunta.** por** que
é* que* não**havia** de**ser* católico?
não* tenho* motivo**algum* para**cor
tar* com* as* tradições* da*minha** fa
mília.* de* resto,*note-se* que* eu,* eu
não* sou* contra**a**evolução,* longe
disso,**pelo** contrário,** mas* primei
ro* é* preciso** saber** os**resultados,
saber* aonde* é* que*a** evolução*nos
leva,* se* não… *ai* do** nosso**futuro.


sim,* confesso*que* * houve quem me
dissesse* isso,* mas* eu* não* dei** imp
ortância.** não.* a* certas* coisas** não
se* deve** dar*importância.* a** quais?
às* coisas* que* a* não* têm,* é**óbvio.


sim,* é* claro* que**estou* convencido
que* para* triunfar* na* vida* nem* em
todas**as* circunstâncias** é** conven
iente*mostrar-se** de** uma**honestid
ade*exagerada,*porque* * casos** es
peciais,*como*em**tudo.**sim,*é claro
que* quero* que** os*meus** filhos* tri
unfem* na* vida.* certamente* que* lhe
s* digo* que* sejam** honestos,**é* nor
mal* um* pai** dizer**aos* filhos** que
sejam*honestos,*não**é**verdade?* tu
do* o* resto** é* especulação,**anarqui
a** e** fonte** de**muitos **desgostos.


aceito* a* crítica,* e* com* muito** pra
zer,* desde* que** não* seja** destrutiv
a.* quer**dizer,* aceito** a* crítica** fe
ita* por* bem,* ou* pelo* menos*não*é
feita* por* mal.* porque**a** outra*cri
tica,* essa* é* insuportável,*sim,* é*ins
uportável* e* não* tem* razão** de*ser.


rir-me* nas* costas* dos** outros?**
em*** circunstâncias**** excepcionais.
por* exemplo,*se*alguém* tem* modos
muito** extravagantes,***ou** aparece
vestido* de* modo* estranho.**de** res
to* não.* rirem-se**nas** minhas** cos
tas?* bom,* é* possível*que* haja*quem
se* ria* nas*minhas*costas.**não**têm
a* coragem* de* se* rir*na**minha* fre
nte.* bom,*na**minha* frente* também
não* seria** possível.* e* rir**de** quê?
não** motivo.* eu* não vejo*motivo.
e* eu* também* não* me* rio,*a*não ser
em* casos* especiais,**de**resto* * a
educação,** os** princípios,** não***é?


denunciar**um** camarada?* depende.
mas* eu* não**diria** denunciar,* diria
comunicar**superiormente** uma** fal
ta.* é* que** a* rivalidade** infantil,
saudável,*de*resto,**e**depois*os**pr
ofessores* apreciam,* vêem* que* a*cri
ança* é* de**boa**família,** que** tem
boa* educação.* os* meus**professores
davam* todos* apreço.* e* os*dos meus
filhos* também,* sim,* todos,*sem exce
pção.* e* está* bem* assim,*pois não*é?


o* problema* da* virgindade* da** virg
em* é* por* assim* dizer* um* problem
a* delicado.*não,**a**ciência*** não
tem* nada* a* dizer.* não* pode. não po
de,* porque*se* trata* de* um* milagre,
e* os* milagres* não* são* da* competê
ncia* da* ciência,* são* da**competênc
ia* da* igreja,* cada* coisa* tem* o*seu
lugar* e* não**se*pode**misturar* tud
o.* não,* neste* caso* não* se* pode*fal
ar*de**impossível,**para**deus** nada
é* impossível,* para* o*homem* é*uma
questão* de* fé.* impossíveis* não** há.


não,* nunca* defequei**de** chapéu* na
cabeça,* nem* entendo* a* pergunta.*pa
ra* dizer**a**verdade,**acho-a*até**de
muito** educação.* de* chapéu? não.

mudo* todos* os* dias* de* roupa** inte
rior.* sim,* claro* que* tenho*orgulho ni
sso.* porquê?* porque* é* higiénico.* qu
e* é* que** quer* dizer** higiénico?* lim
po,* limpo,* mas* a* pergunta* é*absurd
a,* totalmente* absurda,* não**tem**res
posta.* é* totalmente** absurda.** lamen
to* ter* de* dizê-lo,* mas**estas** pergu
ntas*** todas** são** muito** estranhas.

qual* é* a* minha* opinião** acerca** d
este* livro?* não* sei,* não* o* li.* se* g
ostaria* de* o* ler?* não** sei,** precisa
ria* de* lê-lo** primeiro,** para** respo
nder* a* essa* questão,* mas* acho**tud
o* isto* muito* duvidoso,** estas** ques
tões,* estes* temas,* tudo* isto,** não* s
ei,* não**me**está* a** agradar** nada,
de* resto* são* horas**de** me** retirar.

uma* última* declaração?* com* todo* o
gosto:* não* tenho** dúvidas** de** que
nada* nos**impede** de** continuarmos
como* até* aqui,* e* é* isso* que* me*
confiança* no* futuro,* pois** o** futuro
* é* possível* se* não**deixarmos**de
ser* o*que**sempre*fomos*no*passado.

(Alberto Pimenta)

in «Obra Quase Completa», 1978

Do Tempo ao Coração I e II, Equinócio


Boris Anisfeld (1879-1973)
«The Golden Tribute» 1908
(oil on canvas)
- Private Collection -


DO TEMPO AO CORAÇÃO

Do cântico de amor gerado na Suméria
ao grande strip-tease a que se entrega Europa
Da nuca de Afrodite aos artelhos de Artémis
Da lascívia da cabra à lascívia da cobra

Do sabor a limão que há também no remorso
ao riso da romã que vem no solstício
sobrevoando à noite o século dezoito
interrogando a cor de cada suicídio

De perto de Heidelberga ao porto de Antuérpia
Da sagração de Sade à sonoterapia
De uma rosa a uma cruz. De uma cruz a uma ténia
Do secreto Neptuno à caça submarina

Das rugas de um pescoço em redor dos quarenta
ao braço que tão liso aparenta catorze
De uma igreja barroca a um remo * uma rena
Da âncora ao farol no alto de uma torre

Da mais velha invenção à mais nova tortura
Do tempo ao coração * Do Boeing à quadriga
De não te pedir muito * apenas que não fujas
a sentir-te de mais no céu da minha vida

De um jardim de Munique onde nada se passa
como o Nymphenburg onde tudo é possível
à brisa que segrega uma espécie de Arcádia
à onda que traslada um verso de Virgílio

De milhões e milhões que rebentam com fome
ao dom do caviar para abrir o apetite
Do canto gregoriano à música electrónica
Dos berros da oração ao silêncio de um grito

De tanto a muito mais * De tudo a quase nada
Só não sei que tecido oscila entre os extremos
Se apenas o amor * Se o vulto da amada
Se trevas * Se uma luz * Se o tempo em que vivemos



*
Grigory Gluckmann (1898-1973)
«Reclining Nude» ca. 1920-30
(oil on panel)
- Private Collection -
*
*
EQUINÓCIO
*
Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro * o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gim enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto * Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela * Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão * Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe
*
*


Nikolai Kalmakov (1873-1955)
«Leda and the Swan» 1917
(watercolour, bodycolour, pen and ink on paper)
- Private Collection -
*
*
DO TEMPO AO CORAÇÃO

E volto a murmurar * Do cântico de amor
gerado na Suméria * às novas europutas
Do muito que me dás ao muito que não dou
mas que sempre conservo entre as coisas mais puras

De uma genebra a mais num bar de Amesterdão
a não perder o pé numa praia da Grécia
De tantas * tantas mãos * que nos passam pelas mãos
a tão poucas que são as que nunca se esquecem

De ter visto o começo e o fim da Via Ápia
De ter atravessado o muro de Berlim
De outros muros que não aparecem no mapa
De outros muros que só aparecem aqui

ao barro deste céu que te modela os ombros
ao sopro deste céu que te solta o cabelo
ao riso deste céu que vem ao nosso encontro
quando sabe que nós não precisamos dele

Da pertinaz presença * E da longevidade
do corvo * do chacal * do louco * do eunuco
ao rouxinol que morre em plena madrugada
à rosa que adormece em caules de um minuto

Do que foi noutro tempo a saúde no campo
à lepra que nos rói a paisagem bucólica
Do tempo * ao coração minado pelo cancro
Dos rins * ao infinito incubado na cólera

Do tempo ao coração * mas com pausa na pele
como Roma by night entre dois aviões
como passar o Verão numa vogal aberta
como dizer que não * que já não somos dois

Dos rins ao infinito * A este * que não outro
Ao que rola dos rins * Ao que vai rebentar-te
na câmara blindada e nocturna do útero
E nos transfere o fim para um pouco mais tarde

Da curva de entretanto * à entrada do poço
De soletrar em mim * a ler * nas tuas mãos
como é rápido * e lento * e recto * e sinuoso
o percurso que vai do tempo ao coração.

(David Mourão-Ferreira) *
*
(in «Do Tempo ao Coração», 1966)
*
*
Nota: As telas aqui representadas fazem parte de um conjunto de obras de pintores russos dos séculos XIX e XX, a serem leiloadas nos próximos dias 25 a 27 de Novembro, em Londres, pela casa MacDougall's.
*

Sexta-feira, Novembro 7

His master's voice


Juan Muñoz «Many Times», 1999
(polyester and resin)
- Private Collection -
*
*
His master’s voice

todo o cidadão que* re ****** todo o*cidadão*que*se
clama do estado uma p ****** refere*à*ordem*estabe
restação de*contas* do ****** lecida como*se*se* tra
s actos*por* este* prat ****** tasse de uma ordem*su
icados mostra dessa*m ****** bstituível* mostra*que
aneira a* sua* falta* de ****** não*está* nela* integra
confiança no estado, m ****** do,*motivo*esse*sufici
otivo* esse**suficiente ****** ente para que* o* estad
para que o*estado*por ****** o proceda* à*sua* integ
sua vez*o* faça** prest ****** ração usando dos meios
ar contas*de* tal* acto ****** conferidos pela* ordem


todo o cidadão*que* af ****** todo o cidadão que*mo
irma desconhecer o mo ****** stra medo dos* serviço
tivo por* que* foi* pres ****** s* de*segurança do est
o* dá assim a* entender ****** ado revela desse*modo
que*em*sua opinião*os ****** a sua insegurança* den
cidadãos*podem ser*pr ****** tro*do estado,*motivo
esos sem* motivo, opini ****** esse** suficiente* para
ão essa*que* por* si* co ****** que*seja*efectivament
nstitui**motivo** sufici ****** e* vigiado*e* controla
ente* para*se*encontra ****** do*pelos* serviços* de
r*efectivamente**preso ****** segurança* do* estado

(Alberto Pimenta) *

(in «His master's voice», 1971)

Nota: Juan Muñoz em retrospectiva no Museu Serralves no Porto.

Terça-feira, Novembro 4

[SOLENEMENTE]; À EMISSORA NACIONAL; FADO DA CENSURA


René Magritte «Le Vertige», huile sur toile
La période vache - 1948
(Collection privée)


[SOLENEMENTE]


Solenemente
Carneiríssimamente
Foi aprovado
Por toda a gente
Que é, um a um, animal,
Na assembleia nacional
Em projecto do José Cabral.

Está claro
Que isso tudo
É desse pulha austero e raro
Que, em virtude de muito estudo,
E de outras feias coisas mais
É hoje presidente do concelho,
Chefe de internormas¹ animais,
E astro de um estado novo muito velho.

Que quadra
Isso com qualquer espécie de graça?
Nada.
A Igreja Católica ladra
E a Maçonaria passa.

E eles todos a pensar
Na vitória que os uniu
Neste nada que se viu,
Dizem, lá se conseguiu,
Para onde agora avançar?
Olhem, vão p’ra o Salazar
Que é a p… que os pariu.

1935

¹ Na edição crítica da IN-CM, «infernanças».




*
René Magritte «L'Ellipse», huile sur toile
La période vache - 1948
(Musées Royaux des Beaux-Arts de Belgique, Bruxelles)
*
*
*
À EMISSORA NACIONAL
*
*
Para a gente se entreter
E não haver mais chatice
Queiram dar-nos o prazer
De umas vezes nos dizer
O que Salazar não disse.

Transmitem a toda a hora,
Nas entrelinhas das danças,
«Salazar disse» (Emissora)
E aí vem essa senhora
A Estada Nova com tranças.

Sim, talvez seja o melhor,
Porque estes homens do estado
Quando falam, é o pior,
E então quando são do teor
Do Salazar já citado!

1935
*
*

*
René Magritte «La Famine», huile sur toile
La période vache - 1948
(Collection Privée)

*
*
FADO DA CENSURA


Neste campo da Política
Onde a Guarda nos mantém,
Falo, responde a Censura;
Olho, mas não vejo bem.

Há um campo lamacento
Onde se dá bem o gado;
Mas, no ar mais elevado,
Na altura do pensamento,
Paira um certo pó cinzento,
Um pó que se chama Crítica.
A Ideia fica raquítica
Só de sempre o respirar.
Por isso é tão mau o ar
Neste campo da Política.

Às vezes nesta planura,
Se o vento sopra do Norte,
O pó torna-se mais forte,
E chama-se então Censura.
É um pó de mais grossura,
Sente-se já muito bem,
E a Ideia, batida, tem
Uma impressão de pancada,
Como a que dão numa esquadra
Onde a Guarda nos mantém.

O pó parece que chove,
Paira em todos os sentidos,
Enche bocas e ouvidos,
Já ninguém fala nem ouve.
Se a minha boca se move,
Logo à primeira abertura
A enche esta areia escura.
Só trago e me oiço tragar.
É uma conversa a calar.
Falo, responde a Censura.

Vem então qualquer vizinho,
Dos que podem abrir boca;
No braço, irado, me toca,
E diz, «Não vê o caminho?
O seu dever comezinho
De patriota aí tem.
Vê o caminho e não vem?!»
Para isso, bolas aos molhos!
Se este pó me entrou prós olhos,
Olho, mas não vejo bem.

1935

(Fernando Pessoa) *

(in «Contra Salazar», selecção de António Apolinário Lourenço,
Angelus-Novus Editora, 2008)
*
*
Nota: As obras de René Magritte referentes à fase "La période vache" encontram-se expostas no museu Schirn Kunsthalle em Frankfurt.

Sábado, Novembro 1

obesidade


Ron Mueck «Big Man» 2000, escultura
(pigmented polyester resin on fiberglass)
- Hirshhorn Museum and Sculpture Garden Collection, Washington, D.C. -
*
*
obesidade

a gordura submerge os ossos – e o poema.
a anorexia (a que alguns chamam
“elegância” ou “concisão”)
impede os movimentos de um corpo
que precisa de músculos para subir até à boca
do vento ou do inferno – lugares
sem espaço nem semáforos
na circulação da alma.
*
é preciso que as glândulas funcionem
apenas o necessário. o excesso e o defeito
perturbam o equilíbrio do organismo –

*
+
o trânsito, nos intestinos, rejeita
uma vida sedentária. fibras
bífidus e muita águas
em aromas, da nascente, auxiliam a digestão
de um mundo com pés mergulhados
em óleo de fritura, comendo carne
e tubérculos sem qualquer capacidade
de dissolução na corrente que alimenta
os vasos sanguíneos.
*
submersos os ossos, entupidas as veias – o colesterol
do poema impede a circulação do
sangue nas palavras (água salgada
a irrigar as estruturas do cérebro) –
+
*
+
pode bater o coração. pode bater.
sem a agilidade e o dinamismo das estruturas
e do pensamento, nada nem ninguém
conseguirá contudo evitar a síncope
das válvulas do sentido.
*
ou, pelo menos, o inchaço
dos membros inferiores
à espera da amputação
pela gangrena.

(Ruy Ventura)


- Auto-antologia in Estrada do Alicerce -

Nota: Video da escultura em exposição no Hirshhorn Museum.

Terça-feira, Outubro 28

Canção; Nove D'Abril; Brasão; Anoitece devagar


Cy Twombly «Poems to the Sea», 1959
(oil, crayon, pastel and coloured pencil on paper)
- Collection Dia Art Foundation, New York -
*
*
CANÇÃO

Pelos que andaram no amor
Amarrados ao desejo
De conquistar a verdade
Nos movimentos de um beijo;
Pelos que arderam na chama
Da ilusão de vencer
E ficaram nas ruínas
Do seu falhado heroísmo
Tentando ainda viver!,
Pela ambição que perturba
E arrasta os homens à Guerra
De resultados fatais!,
Pelas lágrimas serenas
Dos que não podem sorrir
E resignados, suicidam
Seus humaníssimos ais!
Pelo mistério subtil,
Imponderável, divino,
De um silêncio, de uma flor!,
Pela beleza que eu amo
E o meu olhar adivinha,
Por tudo que a vida encerra
E a morte sabe guardar,
― Bendito seja o destino
Que Deus tem para nos dar!


(in «Canções e Outros Poemas – Piquenas Canções de Cabaret», Edições Quasi, 2008)



Cy Twombly «Ferragosto V», 1961
(oil paint, wax crayon, lead pencil on canvas)
- Thomas Ammann Fine Art, Zürich -


NOVE D’ABRIL

Louvar a guerra? ― Loucura
Que é necessário arrancar
De quem a quiser sentir!
― A humanidade não deve
Atraiçoar a razão
Fundamental de existir.

Punhais, espadas, metralha,
Tudo isso para quê,
Se a vida pode ser bela?
― O homem à luz do amor
Chegaria ao infinito
Para tocar uma estrela!

Viver na lama sinistra
De uma trincheira atascada
De mortos e podridão,
É perder a consciência
Do que vale para a vida
Ter no peito um coração…

Morrem cem mil? Não importa?
Em nome da Pátria quantas
Infames negociações!
Soluços! Caem por terra
Nas lágrimas dos vencidos
As mais altas ilusões.

Conquistar novas bandeiras,
Chegar além!..., Mais além!...,
Matar, impor, destruir,
É tombar, ingloriamente,
Na maravilha fatal
Do eterno Alcácer-Kibir!

(in «Canções e Outros Poemas – Baionetas da Morte», Edições Quasi, 2008)


*
Cy Twombly «Min-Oe», 1951
(paint on canvas)
- Robert Rauschenberg Foundation Collection -


BRASÃO

Muita gente supõe que o nosso Império
Existe em fantasia ―
Recortado no mapa e nada mais;
Que as riquezas que dormem
No silêncio da terra
À sombra das florestas de ramalhar profundo
São anedotas hirtas
Que se espalham apenas
Para entreter o riso universal do mundo.
Que a fé que revolveu as taras do gentio
Não passa de loucura pretensiosa e audaz;
E mais, e mais ainda:
― Que a raça portuguesa de nada foi capaz!

Ruins espectadores ―
Que vêem só ortigas onde rebentam flores!

Deixá-los arrastar no pântano sinistro
Das suas condições
A megalomania de que a sorrir derrubam
Os factos e as lições!

Deixá-los progredir ao sopro da vileza
Que amortece e dilui todo o esforço vital;

― Há uma palavra linda que brilha nos espaços,
Diz-se com oito letras, é esta: ― Portugal.

Ó África formosa mordida pelos sóis!
Saudade negra e vasta surgindo além do mar!
― Pelos meus olhos passa o vulto de Mouzinho,
Trigueiro e varonil no gesto de mandar!

Raízes florescei num turbilhão de cores!
Areias e animais, aragens e neblinas,
Lamentos de batuque, ― ó cânticos guerreiros!,
Ó pedrarias, frutos, plumagens, ― heroísmos!,
Formai este Brasão formoso entre os primeiros!

Ó África de sonho, Império de gigantes
Que tombaram no ardor de uma cruzada santa,
Sois a base e o troféu da Pátria Portuguesa
Que na minha alma vibra e nestes versos canta!

(in «Canções e Outros Poemas - Intervalo», Edições Quasi, 2008)



Cy Twombly «Apollo and the Artist», 1975
(oil paint, wax crayon, pencil and collage on paper)
- Private Collection -

*
Anoitece devagar.

No terreiro,
Vão-se os pares
Ajustando para a dança.

― Quem é que baila comigo?

Bailarei eu!,
Grita uma linda Maria
De rosto largo e trigueiro.

E o harmónio
Murmurando,
Dá início ao movimento
Que é todo ligeiro e brando.

Agora ―
Apertam-se mais
Os corpos
Nas voltas lentas e bruscas
Da toada musical.

Vá de roda, quem mais ama?
Quem mais quer ao seu benzinho?
Quem mais ama mais padece;
Eu hei-de amar poucacinho.

Ao redor do bailarico
Já se vai juntando gente
Que andava um pouco dispersa;
E a minha linda cachopa,
Balanceada,
Contente,
Parece dada a um sonho…
― Nem eu sei o que ela sente!

Paro. Mas o meu braço descansa
Nas espáduas do meu par.

A noite cobriu
De sombras a natureza.

Ah!, se eu pudesse cantar
― E dar luz aos corações!

Fico a pensar e a olhar…

― Já se acenderam balões!

Foi aquele moço! Aquele
Que traz um cravo na boca
― Escarlate
Como a cinta
Com que ele envolve os quadris.

E a olhá-lo me ponho
Na graça quente e flexível
Dos seus aspectos viris.

Ai, a vida!,
É tão enganosa e fria,
Tão outra da que nós temos,
Que é bem melhor desejá-la
Como coisa que flutua
Para lá da que nós vemos…

Vamos descansar ali…
Deixemos…
― Digo ao par que me acompanha.

E ouvindo a voz do harmónio,
E contemplando
Esvaído
Os pares em desalinho,
Sinto a mesma sensação
De ter bebido algum vinho.

(António Botto) *

(in «Canções e Outros Poemas - Dandismo», Edições Quasi, 2008)
*
Nota: Cy Twombly em exibição no museu Guggenheim Bilbao.
*

Sexta-feira, Outubro 24

Não sei o que há entre Dvisnsk e Nova Iorque...


Mark Rothko «No. 207» 1961, oil on canvas
(Berkeley Art Museum Collection, University of California, USA)
*
*
MARK ROTHKO: NUMBER 207- RED OVER DARK
BLUE ON DARK GRAY, (1961)

Não sei o que há entre Dvisnsk
e Nova Iorque,

e mesmo que soubesse
proporia que tudo fosse silenciado,

que nada se dissesse,

e só o avassalador silêncio
pudesse dizer quem fui e o que fiz.

As palavras enredam-nos em armadilhas
mortais
e nada há mais mortal
que a vida,

por isso,
as minhas telas
são o silêncio que são,

onde as cores se demoram
para que a exaltação do silêncio
permaneça e se guarde

e só quem as contemple reconheça
o que lá está:

a dor,
o sofrimento,
a vida em estado puro.

Se alguma coisa tenho para dizer,
direi, apenas, que há emoções
desconhecidas no que faço,

e que é pela claridade que confronto
o público
com as telas

que, com elas,
deve gritar e chorar,

porque foi exactamente aos gritos e a chorar
que as pintei,

rangendo os dentes
e insuflando-lhes vida.

Vejam:

alio este vermelho a este azul,

as cores conjugam-se,
mesmo repelindo-se,

e, olhando bem,
não é o só o vermelho e o azul o que se vê,
aqui, em frente à tela,
mas tudo o que nos toca o coração,

e se encontra latente na memória

e, pelo confronto,
chega.

O azul, por exemplo:

sente-se que oscila,

sente-se que nos leva para trás,
sente-se que nos arrasta pela nuca

e nos coloca
perante obsessões
que nos envenenam.

E, levando-nos para trás,
os nossos olhos fecham-se,

e entramos num quarto muito escuro,
e, no escuro, reconhecemos
o azul do brilho de uma lâmina,

e os nossos dedos,
azuis,
tocam a lâmina,
e a lâmina,
azul néon e mate,
impele-nos a confrontar a morte,

até que não podemos mais
e, a correr, saímos.

E o vermelho

– é, tão-só, vermelho,

ou atrai-nos para um poço?

O poço é escarlate,

e escarlate sendo, o que se vê?

Uma mulher deitada numa cama,
com um roupão vermelho,

e as unhas pintadas de vermelho,

e a boca vermelha,

e a cabeça caída sobre uma almofada,
também vermelha,

de um vermelho vivo,
tão brilhante,

que sabemos
que há um crime oculto no vermelho
que nós observámos na infância.

Vejamos o conjunto:

o azul está por baixo e, por cima,
o vermelho primário a transformar-se
em lábios,
corais,
crepúsculos,

e um sortilégio avassalador
que nos leva a um monte com um túnel.

Atravessando o túnel
vemos as cidades,
e, por cima das cidades,
o demónio,

e o demónio blasfema,

e lembra-nos a indiferença
com que os nossos pais nos abandonaram,

e é medonha a noite,
e é medonha a sensação de termos sido
abandonados.

No fim, há só silêncio.

Mas o milagre já aconteceu,

já cada um de nós foi confrontado
com o que não queria ver
pela selvajaria da serenidade

e pode, depois disso,
voltar para casa.

De novo vem a nós
o silêncio:

estamos em casa
e as cores, de tão amenas,
são já frenéticas,

e os nossos dedos rasgam-nos
a carne,
e supliciamos o corpo,

e percebemos que há pouco sentido
na vida que levamos.

Tem cor a nossa vida?

E a resposta chega-nos,
certeira e inequívoca,
enquanto nos lembramos
dos gritos e do choro
que, em frente ao quadro,
produzimos,

e da força que há na nossa natureza,

e dos milagres possíveis
que em cada coisa há.

Coube-nos viver num tempo de assassinos,
mas é a claridade que almejamos,

não a que veio ao quadro convocar-nos,
mas a que, pelo poder da pintura,
se instala em nós,
a modular a noite
e a apaziguar-nos.

É essa claridade que procuro,
– e o silêncio.

O silêncio das cores e o seu apelo
irrevogável,

de que nada há a temer,
mesmo que atemorize.

A vida é isso mesmo:

o medo à nossa frente,
imóvel como a esfinge,

e nós sempre a enfrentá-lo,

transparentes,
aflitos,
condenados,

mas prontos para ver

as cores do infinito.
*
(Amadeu Baptista)
*
- poema inserido na obra inédita «Doze Cantos do Mundo», cedido por cortesia do autor -
*
Nota: O autor acaba de ser galardoado com o Prémio Literário Oliva Guerra / Sintra 2008, com base na obra inédita «Doze Cantos do Mundo». PAUL GAUGUIN: O CRISTO AMARELO (1889) é outro dos poemas da referida obra, encontrando-se disponível para leitura aqui.

Quarta-feira, Outubro 22

Modvs


Raha Raissnia «Viridian Ode» 2005, oil on canvas
*
*
XII. Modvs

então
as cinzas
resgatarão
os antigos ossos

e estes
herdarão
o seu espírito

já compacto
na identidade
aparente
de invólucro
sem forma alguma

onde reverbera
uma aura
perfurante

como gota d’água
em duna

dócil

qual luz

nocturna

(Paulo Teixeira Pinto)

in «LXXXI (Poema Teorema)», 2008

Sexta-feira, Outubro 17

O Funcionário Cansado


José Manuel Broto «The Echoes XI» 1996, acrylic on canvas


O Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em

*************************************************frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só


(António Ramos Rosa)

in «Viagem através de uma Nebulosa», 1960

Sexta-feira, Outubro 10

O afilhado


Beatriz Milhazes «Bala de Leite», 2005
(colagem sobre papel)
- Colecção Particular -
*
*
O afilhado

O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
Veio verme.
Verme não é. E, se fosse, isso que tinha?
Os anelídeos têm os seus anéis elásticos,
Num começo de élan superior, bem soldado,
A blocos de control e direcção,
Enquanto que ele a perde em centros altamente sinápticos
E fica pobre e triste entre os apáticos.

O meu afilhado epiléptico
Veio ver-me,
Veio verme,
Veio ecléctico,
Entre os que sim e os que não,
Quase empastado e céptico
Num sorriso de vã resignação.
Fosse ele verme, o pobrinho, e até crustáceo!
Teria o sistema nervoso ao longo da barriga,
Táctico nas antenas de precisão, como a formiga.
Mas tem espinha dorsal e cabos de nervo de alto diâmetro,
Que deviam ser rápidos e senhoris na opção,
Mas às vezes não são…
O meu pobre afilhado epiléptico,
Eterno aprendiz de sapateiro,
Aplicando serol a fibras de cairo para botas
E fazendo virolas
De meias solas
Rotas.

− E ganhas?... − lhe pergunto.
− Vinte paus, meu Padrinho.
«E não posso beber vinho:
«Nem um copinho,
«Meu Padrinho!»

O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
E pensei no Pessanha:
«Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme…»
Vinte paus é o que ganha
O meu afilhado epiléptico,
Com os dedos no unto.

Patético, hein?
Mas − mudemos de assunto.

(Vitorino Nemésio) *

in «Limite de Idade», Colecção Auditorium Lisboa, 1972

Domingo, Outubro 5

SMOKING ROOMS


Pedro Calapez «Parede-a» 2006, pastel de óleo sobre cartão

*
SMOKING ROOMS

Atravessas a noite − é a mais longa
noite da tua vida.
Atravessas o mundo, sobrevoas
o maior continente
− ilhas verdes e outros paraísos −,
as muitas horas pesam-te no corpo,
mas os ponteiros não se movem.

A escala será breve: uma cidade
onde o céu desagua noutro céu
absoluto **** negro.

Os passageiros saem − vais com eles,
autómato perdido na corrente
dos outros seres humanos, teus irmãos
siameses,
e é este o aeroporto de Bangkok:
cafés e restaurantes e free-shops
e de súbito aqui ou além
minúsculos cubículos,
stalags ou gulags de vidro transparente
onde algumas pessoas como tu
fumam e continuam a fumar.

Agora a dez mil metros de altitude
sobre a Ásia Central **** sobre a eterna
noite,
imaginas que o dia já nasceu
no aeroporto de Bangkok
e contemplas num morno pesadelo
aqueles pequenos cárceres de névoa,
o castigo cumprido em silêncio,
a cinza dos seus rostos.

(Fernando Pinto do Amaral)

in «A Luz da Madrugada», 2007

Quinta-feira, Setembro 18

DA MINHA TORRE DE NARCISO


Jeff Koons «Michael Jackson and Bubbles» 1988
(porcelain ceramic blend)
- em exposição no Château de Versailles, França -


DA MINHA TORRE DE NARCISO

Ao sol, ao vento, à música, levanto
Esta voz que não tenho. A Deus imponho
A obrigação de me escutar o canto
E entender o que digo e o que sonho.

A mim me desafio. Aos outros ponho
A condição de me odiarem tanto
Que não descubram nunca o que suponho
O meu secreto e decisivo encanto.

Contra o que sou me guardo e quando oiço
Falar do que pareço, posso então
Encher o peito de desprezo e riso.

Pois só eu me conheço e só eu posso
Subir até àquela solidão
Onde me incenso, amo e realizo.

(José Carlos Ary dos Santos)

in «A Liturgia do Sangue», 1963
*

Domingo, Setembro 14

Eu sei, não te conheço, mas existes


Emilio Longoni «Alone!» 1900, oil on canvas
- Private Collection -

*
Eu sei, não te conheço, mas existes

Eu sei, não te conheço, mas existes.
Por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.

Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.

Eu sei, não digas nada, deixa-me inventar-te.
Não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos sobre a tua
*************************************************nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto.

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
Tenho feito amor de muitas maneiras
docemente,
lentamente,
desesperadamente,
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim, que é em mim que devo
******************************************procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti
que eu amo.

(Joaquim Pessoa)

in «Os Olhos de Isa», 125 Poemas (Antologia Poética), 1989

Domingo, Agosto 24

DEITADO NA AREIA


Eric Beaudelaire, Imagined States series «Tide» 2005
(c-print, diasec, oak)
*
*
DEITADO NA AREIA
*
Horas e horas deitado na areia caído
Na praia
Ou por algum braço arremasado. Pouco a pouco
Deixei de sentir os grãos finíssimos
Colarem-se-me à pele. Deixei de ver
O céu que meus olhos olhavam.
As primeiras ondas que me tocaram os pés
Ainda as senti − bocas minúsculas
Bebendo meu sangue silencioso.
Mas as segundas já não eram frias nem quentes já não
Eram
Suaves nem ríspidas já não possuíam
Lábios nem dentes. E nada sei
Das seguintes como nada já sabia
Da areia nem do sal nem dos bichos que passavam
Por cima do meu corpo depois de terem passado
Pelo corpo da areia.
Durante algum tempo durante a rigorosa eternidade
De um momento
Foi como se eu fosse também areia mar e sol
E talvez eu tenha sido
Areia sol e mar. O resto
É vento.

(Casimiro de Brito)

poema lido no VI Congresso Mundial de Poesia,
Ilhas Canárias, 1982
*

Sexta-feira, Agosto 15

Resposta à carta da árvore triste de Al Berto


Francis Picabia «L'élégante» 1942-43, huile sur carton


Resposta à carta da árvore triste de Al Berto

Não.
Quando partires não quero que me deixes cartas
nem rastos ou lembranças de palavras
nem sequer uma fotografia branca transparente
esquecida no fundo da gaveta que não temos cá em casa
ou no meio das páginas do livro que julgas que eu não li
e que tu sabes que leste mas nem sequer folheaste.
A verdade é que estas palavras também não são uma carta
nem a resposta possível ou impossível a uma carta
nem sequer verdadeiras palavras musicalmente silabadas
na medida em que constituem apenas queiras ou não
o desencontro do absurdo num espaço de brincadeira
a incoerência lúcida de alguém que pergunta e responde sozinho.
Quando partires – e sei que já partiste – não formules
acusações prosaicas lamentos poéticos insolúveis desculpas
não deixes visualizados horas dias noites movimentos
esperas de vivências sonhadas desarrumadas e nunca ditas
encarceradas no quarto ou na casa na cave ou no sótão
mantidas vivas pelos finíssimos fios de luz que as atravessam
fios do que podia ter sido ou havido e afinal não houve nem foi.
Não.
Enganas-te.
Não sou a mulher que abandonaste ou vais abandonar
para voltar a reencontrar quintuplicada com o mesmo corpo
com os mesmos gestos inventados, com o mesmo olhar
na próxima hora da próxima rua da próxima cidade
exactamente milimetricamente igual a esta em que vivemos
se é que mesmo esta realmente factualmente existe.
Repito que te enganas.
Não sou a mulher que abandona a tua tão lúcida loucura
para abrir a janela do jornal opaco logo pela manhã
e ler com avidez a notícia de que o tal
papagaio valioso com 32 anos
capaz de falar três idiomas
foi morto por um jovem drácula de nome punk.
Não.
*
Quando partires não me deixes cartas nem palavras
nem sequer o silêncio espectante do telefone mágico a iluminar
a possibilidade côncava do corpo erecto das paredes lisas.
Não me ofereças a escrita em curva suave do gesto gasto
que já não sabe ser cúmplice das cores sempre mutáveis
da estátua imóvel e incolor que pareço ser mas nunca fui.
Quando partires – e sei que já partiste – não me deixes
a memória escrita de todo o desejo fundo reaberto em sangue
reescrito em gritos que não saem da fenda profunda da ausência
nem brotam das palavras quentes violentas molhadas de sexo
nem sequer escorrem diluídos pela lembrança do entorpecimento
das pernas e dos braços do peso atroz e lento da nuca transpirada.
Não deixes promessas nem conselhos para minha redenção
pois hei-de continuar sempre a abrir teimosa e quotidianamente
a janela opaca do tal jornal que papagueia vozes a cinco

***************************************dimensões
e não me ensina a mágica sabedoria de cozinhar água salgada
misturada com destroços de plantas a sangrar quanto baste
pois essa divina sabedoria é minha desde o início do tempo
e só leio o jornal para fingir persistentemente que aprendo o

**********************************************mundo.
Deixa-me antes o ombro amigo de uma qualquer parede nua
contra a qual possa ficar abandonado um pensamento lento
a esquecer as aves diurnas dos meus gestos de bom ou mau

**********************************************agouro
postos ao teu quotidiano serviço durante séculos e séculos de sol.
Deixa-me o pano de linho branco no qual sempre bordei,
também a branco, os transparentes desenhos ancestrais
da frágil paciente e cabalística hipótese de felicidade que sobrou
desde tempos incertos do prazer dos luminosos fantasmas da vida.
Não.
Quando partires não quero que me deixes cartas
nem mesmo rastos ou lembranças de palavras
nem sequer uma fotografia branca transparente
daquelas que gritam coisas que se não podem já compreender
encontradas no meio de páginas de livros que julgamos ler
mas que apenas sustentam o vazio da leitura violenta dos corpos.
*
Quando partires – e sei que já partiste – não formules
acusações prosaicas lamentos poéticos insolúveis desculpas
não deixes visualizado o gesto o suor o quarto a rua ou a cidade
e muito menos o prosaico café da primeira esquina quotidiana
que serve de templo às orações mentais dos sonhos inconfessáveis
dos sonhos que deveriam ser fantasmas inevitavelmente

****************************************partilhados
e que afinal podiam ao calor de duas vozes ter sido mesmo ditos
em voz de fios muito finos de luz que atravessam as almas.
Não.
Não.
Mudei de ideias.
Afinal não te enganas.
Sou a mulher que não abandonaste nem vais abandonar
porque me reencontras quintuplicada com o mesmo corpo
noutros gestos inventados ou por inventar, com o mesmo olhar
milimetricamente igual a este com que especularmente

***************************************te escrevo.
Repito.
Não te enganas.
Quebrou-se o silêncio do telefone mágico que ilumina de curvas
o rasto erecto do desejo inscrito nas paredes que já não são lisas,
Mas se partires se por acaso partires – e eu sei que já partiste –
deixa-me o corpo reaberto em gemido molhado e doloroso
a escorrer diluído pelo entorpecimento dos braços cansados
como fotografia branca e tansparente
feita da seda das raízes de ti.
Sim.
Nesse caso.
Se por acaso.
Deixa-me uma memória sem palavras reais
uma lembrança no corpo do sexo e no corpo da alma.

(Ana Margarida Falcão)

poema inédito

Terça-feira, Agosto 12

CARTA DA ÁRVORE TRISTE


Friedel Dzubas «Elmslight» 1971, acrylic, emulsion on canvas


CARTA DA ÁRVORE TRISTE
(a minha mulher)

quando te levantares e abrires as janelas
a luz espalhar-se-á por toda a casa
cobrirá suavemente os objectos e o mobiliário
devolvendo-lhes os seus pesos formas e volumes
acordá-los-á para as quotidianas utilizações
e as petúnias em plástico na jarra da sala agitar-se-ão
à tua passagem em direcção à cozinha
a cidade entrará repentinamente pela casa adentro
um grito nas traseiras sacode-te para o interior baço da manhã
buzinas sirenes
o telefone do vizinho atravessando as paredes
gritos de crianças derrapagens estridentes
outro telefone
uma porta que se fecha com estrondo
passas o olhar pelo jornal de ontem em cima da mesa
lês: um papagaio valioso com 32 anos
capaz de falar em 3 idiomas
foi morto por um jovem drácula de nome punk
Carlinhos Monóxido
o papagaio foi encontrado morto e de olhos saídos das órbitas
suspeita-se que...
o telefone parou de tocar
atiras o jornal ao para o caixote do lixo
reparas então que tudo o que permanecera na penumbra do sono
surge subitamente nítido e coberto de luz
como se tivesses encontrado uma fotografia esquecida
no fundo dalguma gaveta forrada a papel-manteiga
o dia instalar-se-á igual aos outros milhares de dias
com a banal crueldade dos acontecimentos
ouves rádio enquanto o café aquece
deixas queimar um pouco as torradas
passas os dedos pelos cabelos atados numa fitinha de chita
ajeitas o roupão para cobrires o peito desarrumado
depois
com a chávena de café na mão mexendo o açúcar
arrastando os chinelos de borracha virás até aqui
onde encontrarás esta carta
*
serão talvez nove horas
a rádio cospe anúncios de sabonetes e detergentes
o irritante pi do sinal horário
suspiras ao pegar no envelope
e apenas o teu suspiro te parecerá deslocado
de resto há muito que os teus dias são o decalque uns dos outros
'
escrevo-te enquanto não amanhece
a morte desperta em mim uma planta carnívora
o mundo parece despedaçar-se pelos desertos do delírio
pântano de lodo entre a pele da noite e a manhã
espaço de penumbras e de incertezas
onde podemos perder tudo e nada desejarmos ainda
por isso aproveito o pouco tempo que me sobeja da noite
este vácuo lento este visco dos espelhos
espessa escuridão agarrada à memória debaixo da pele
começa a asfixia o perigo de ter amado
no mais profundo segredo das noites devorávamo-nos
e um barco tremeluzia pelas cortina do quarto
como um presságio
nos objectos e a roupa atirada para cima das cadeiras
revelam-me a pouco e pouco a desolação em que tenho vivido
*
é-me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos
tu brincavas com o sangue
a noite cola-se-me aos gestos
enquanto balbucio com dificuldade esta carta
onde gostaria de deixar explicadas coisas
não consigo
o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem
eu sei
comemos a lucidez do asfalto
mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade
mas nada disto chegou para nos entendermos
o tempo transformou-se num relógio de argila
tudo esqueci dessas derivas
e pelo corpo de nossos desencontros diluíram-se os sonhos
a verdade é que nunca teria conseguido escrever-te
sob o peso da luz do dia
a excessiva claridade amputar-me-ia todo o desejo
cegar-me-ia tentaria cicatrizar as feridas reabertas pela noite
sou frágil planta nocturna e triste
o sol ter-me-ia sido fatal
conduzir-me-ia ao entorpecimento da memória
e eu quero lembrar-me do teu rosto enquanto puder
o pior é que me falta tempo
sinto a manhã cada segundo mais próxima
ameaçadora e cruel
a luz arrastar-me-á para uma espécie de inércia inexplicável
o silêncio será definitivo
o sangue adormece nas veias e o desejo de permanecer
arremessar-me-ia para o esquecimento sem regresso
poderia até projectar um eventual regresso antes de partir
tenho a certeza de que parto para sempre
não haverá regresso nenhum
creio que se tornaria mais fácil escrever-te de longe
na deambulação por algum país cujo nome ainda não me ocorre
num país com sabor a tamarindos rodeados de mar
onde flores mirrassem ao entardecer e devagar
a paixão nascesse durante o sono
um país um pouco maior que este quarto
fingiria escrever-te para te enviar a minha nova morada
poderia assim queimar os dias no desejo de receber noticias
inventaria mesmo desculpas plausíveis
greves dos correios inexistentes terríveis epidemias
catástrofes
e na espera duma carta acabaria por me embebedar
beber muito e esperar
esperar
digo tudo isto mas já não te amo
*
não te amo
olho em redor pela última vez demoradamente
sinto-me como uma ilha cuja base se desprendeu do fundo do mar
naufraga algures com todo o seu peso diáfano de praias
uma sensação de limos frios desce às mãos
nunca fizeste caso da minha loucura
nunca vieste visitar-me quando estive internado nunca
o enfermeiro azul-sabonete chegava às cinco em ponto
injectava-me e sorria
atava-me debaixo de fortíssimas lâmpadas e sorria
esperei continuamente a tua visita
nunca vieste
ficava estendido inerte a gritar para dentro do corpo
as unhas abrindo sulcos nos lençóis sujos de mijo
e sabia que lá fora as avenidas esvaziavam-se
enquanto a morte se passeava no rosto despreocupado duma mulher
a carne rasgava-se-me ao simples contacto com os dedos
a dor invadia-me os órgãos do corpo que eu nunca vi
esperava-te
por cima da cama voava um corpo translúcido filiforme
passava rente ao peito agredia-me
quando eu tentava gritar afastava-me embatia
contra as paredes fazia frio e tu não vinhas
era inverno dentro e fora de mim
já não me lembrava de nenhum número de telefone
nenhum nome amigo
as pernas e as mãos eram de geleia fendiam-se
ao contacto de línguas de vidro invisível
nem sequer telefonaste
tentava caminhar e tudo o que conseguia era bater
com a cabeça no lavatório tentava lembrar-me do meu nome
e só um rápido movimento de barbatanas sujas me aflorou a boca
esperei que viesses ao entardecer
abrisses os braços para mim
esperava que surgisses como um osso de luz reconhecível
mesmo durante a noite esperei
que me prendesses de novo para que não se enchesse o quarto
de peixes de enxofre devoradores de paredes
e tu nunca vieste
mais nada me poderia acontecer
teu rosto chegava-me à memória como mancha de fumo
longínqua nódoa de água e sangue
nos pulsos
uma mancha e tu não chegaste
*
desculpa
o que te queria dizer talvez não fosse isto
a solidão turva-se-me de lágrimas
e nas pálpebras tremem visões do meu delírio
olho as fotografias de antigos desertos
corpos coerentes que fomos
bocas de papel amarelecido
onde a sede nunca encontrou a sua água
e às vezes ainda tenho sede de ti
mas na vertigem da viagem o coração galopa desordenadamente
no écran da memória acende-se a imagem da mulher que amei
quase nítida vejo-te sentada
à porta da rua bordando um pano de linho branco
só esta imagem transportarei comigo
embora nunca tenha conseguido saber o que bordavas
uma colcha? uma toalha? um sudário?
também nunca to perguntei
tinha tempo de sobra para o descobrir
vivíamos longe da cidade espreitavas a nesga de mar
como uma risca de azul cerúleo ao fim da rua
*
agora tens as traseiras enlameadas dos prédios para olhar o lixo
cães magros ganindo fogem
às vassouradas de porteiras húmidas de gordura e rolos na cabeça
tens carros estacionados
e todas as merdas que atiram fora pelas janelas
furtivamente durante a noite ou de madrugada
de tempos a tempos o som quase limpo da flauta do amola-tesouras
pergunto-me se a memória não será um espaço arquitectado
para abrigar os mais terríveis remorsos e o futuro
*
a noite corrói
balbucio algarismos nomeio peixes e flores de todos os mares
de todos os continentes os ventos os naufrágios por vir
o estrume humano a seiva viva das plantas os astros
uma a uma as aves
as cidades onde me perco e me reencontro
a esperança e a dúvida
o medo das antárcticas cidades do sonho
ah como me recordo ainda de ti!
a noite é uma teia de sirenes que te acordam
e me esfrangalham os nervos
derrapas na insónia engoles comprimidos coloridos
para escapares ilesa à inquietante desolação do sexo
amávamo-nos
e para que não nos devorasse o silêncio
tartamudeava nomes de barcos: Delfim dos Trópicos Lírio dos Mares Ave do Tirreno Virgem das Maresias Furacão de Delfos Limo de Zanzibar Quilha das Índias
*
não
não estou a enlouquecer
amávamo-nos mesmo quando bordavas e te ferias com a agulha
o sangue alastrava pelo pano
apressadamente bordavas algumas flores para o esconderes
compreendo hoje como era doloroso o nosso amor
onde terás esquecido o pano bordado?
tudo se perdeu
e na confusão do pouco tempo que me resta duvido
que nos tenhamos amado alguma vez
*
os dias tornaram-se vertiginosos quando mudámos para a cidade
assim que andavas de metro punhas-te a delirar com viagens
contavas-me aventuras de transiberiano
afinal sou eu que parto
e não irei do Campo Pequeno aos Anjos
por onde andará a paragem do meu transiberiano?
quem sabe se numa praia em que leões cansados de selva
vêm espreguiçar-se no crepúsculo do areal
quem sabe se o sonho ou a morte me conduzirá a algum porto
onde possa embarcar para não sei que outro porto
*
víamo-mos cada vez menos até que nos perdemos definitivamente
foi quando me assolaram as primeira visões
as nossas noites eram sempre mais longínquas uma da outra
a tua vida encheu-se afazeres mesquinhos
televisão cabeleireiros tricots intermináveis
conversas idiotas ao telefone concursos de rádio
furtivas saídas ao cinema do bairro e à leitaria da esquina
como se eu ligasse alguma coisa ao que fazias
eu já andava atravessando as noites
onde uma navalha oculta talhava um sexo branco no vento
abria nas pedras fulvas da praia um lugar para esconder
o corpo exausto
a febre esmagava-me
recolhia aos quartos de pensão
com as mãos e o peito cheios de pássaros de haxixe e de vinho
tinha medo
medo que certos hálitos fortes me fizessem estremecer
apesar de tudo avançava fascinado
trémulo noite dentro avançava sempre para me afastar
de ti e de mim o mais que pudesse
*
experimentei breves paixões tristes carícias
cantei com as lágrimas molhando as palavras sussurradas
no escuro do quarto cantava
a cidade de olhos entumecidos a fome entorpecia os gestos
atirando o corpo para o mais terrível abandono
internaram-me e tu nunca vieste visitar-me
não tenho vontade de voltar a falar sobre isto
vou partir sem saudades e sem dinheiro
vou partir sem levar um só objecto que me lembre teu corpo
levo apenas uma espécie de fogo no fundo de mim
uma ânsia que não sei explicar
lembro-me de quando enlaçava os braços em tuas pernas
uma nuvem se aves vinha pousar nos ossos
tua boca deixava na minha um travo de asas estelares
o sexo húmido perfumado
não não julgues que estou de novo a enlouquecer
para lá de meus olhos fechados com força o mundo acorda
cheio de ecos e de venenos
moves-te nesse mundo que eu recuso
aqui donde te escrevo apenas uma parte de mim ainda não partiu
era isto que te queria dizer
poderás começar a preparar a espera
pouco me importa que continues a polir móveis
e a mudares a água das jarras
ou a encerares o soalho dos corredores
podes varrer os quartos
varrer a cozinha vagarosamente
eu nunca mais entrarei em casa com os sapatos enlameados
e tu
gritando coisas que eu já não podia compreender
encontrarás provavelmente um ou uma amante que te ajude
a suportar o vazio e o tédio desta casa
e um dia acabarás por trocar novamente esse amor
pela limpeza maníaca dos móveis
pela máquina de lavar e o seu funcionamento
os electrodomésticos sempre foram mais importantes do que eu
mas não terás que te preocupar mais com as tuas pedradas
nem com as bebedeiras nem com a música em altos berros
talvez consigas arranjar boas razões
para de quando em quando insultares o frigorífico
ou então mete-o de caras na cama
poderás partir um prato do serviço com violência
ou atirares com os cinzeiros à parede
estou-me nas tintas sempre me estive borrifando
para as tuas fúrias electrodomésticas
e agora sozinha nada disto terá sentido
resta-te o tricot o infindável tricot da chatice e do silêncio
os dias quase sem ninguém
arrastar-se-ão contigo colada às vidraças olhando
olhando a chuva ensopar os papéis que se estampam
contra o asfalto imundo do estacionamento das traseiras
e o vento arrastará na primavera o cio
dos animais fechados nos quintais
então lembrar-te-ás de mim
os dias incendiar-se-ão no susto da interminável espera
mas hoje ao acordares
sentirás que te povoo ainda o corpo e a memória
*
não te deixo o número de telefone de meu amigo
não quero que com ele alguma vez venhas a falar
e tentes saber onde estou
vou partir sem rumo
por isso será inútil perguntar em que direcção fui
por outro lado penso que o meu amigo
não estaria disposto a dividir segredos contigo
achas que deveria explicar esta amizade?
não posso não tenho coragem
ou talvez seja unicamente por pudor
*
a manhã começou a furar a noite
chega-me pelas frinchas das persianas
cheira a cimento molhado e a bolor
parto dentro de breves instantes
apenas levo a roupa que trago vestida e algum dinheiro
muito pouco
daquele que normalmente se destina às despesas da casa
espero que encontres neste acto um pretexto para me odiares
não levo recordações
a não ser daquelas que por mero acaso mencionei nesta carta
quase nada
poderás deitar fora a minha roupa
e todos os meus objectos pessoais
para onde vou não preciso deles
as fotografias queimei-as ontem à noite enquanto saíste
se telefonarem do emprego diz
que fui ver se ainda existem Índias por descobrir
ou que morri ou que me transformei
diz o que te der mais jeito
pensei deixar-te duas cartas para meteres no correio
mas no último instante eu mesmo as ponho no marco da esquina
*
quando te levantares e abrires as janelas
a luz espalhar-se-á por toda a casa
sem mim a casa amanhecerá doutra maneira
a ausência que já sou estando ainda aqui e a culpa
impregnar-se-ão em tudo quanto existiu entre nós
tornar-se-á insuportável continuares a viver sozinha
eu estarei longe
nas costas dalguma Etiópia
onde quantidades de lumes se avistam
longe
no cimo lúcido de meu próprio corpo contemplando
o fulgurante sangue dos astros
muito longe
no segredo desse lugar único
em que a escuridão da noite parece eterna claridade

(Al Berto)

in «Três Cartas da Memória das Índias», 1985

Sábado, Agosto 9

Poeta


Giorgio De Chirico «The Sailor's Barracks» 1914, oil on canvas

*

Poeta

Poeta: uma criança em frente do papel.
Poema: os jogos inocentes,
Invenções do menino aborrecido e só.
A pena joga com palavras ocas,
Atira-as ao ar a ver se ganha ao jogo.
Os dados caem: são o poema. Ganhou.

(Adolfo Casais Monteiro)

in «Poesias Completas» 1993

Domingo, Agosto 3

Um país? que importa?

*
Mario Sironi «Neoclassico» 1922-23, mixed media on canvas
*
*
Um país? que importa?

Podia ter um país, desses que se apontam
no mapa com fulgente dedo de cristal.
Ou um cão, sabemos, companheiro fidelíssimo
nos melancólicos parques do Outono, sábados à tarde,
quando a vida é um tédio inevitável
e uma boa caminhada faz amortecer
dentro de nós a falta do mar, a raiva aos cobradores
de impostos, ao cabotinismo dos que nos olham de soslaio
porque usamos ainda palavras como «amor» e «integridade.»
Os caninos, é certo, têm a pureza
do que é leve e respirável, e uma nobreza
tão humilde que até os deuses,
na sua redoma de glória passageira,
neles vêem retratada a sua ulterioridade.
Sobretudo os de hoje, pouco castos,
muito mediáticos nos seus fatos políticos
de homens civilizados até às unhas
dos pés.
Os assassinos da poesia
têm camisas rendadas
e um aperto de mão perfumado.
Por isso os países são irrelevantes.
O meu, disseram-me há muitos anos,
era uma traição à História.
Morria comigo e com os meus amigos.
Hoje não me faz falta.
A minha saudade
está rodeada de mar.
É uma paisagem entre eucaliptos,
uma estrela de orvalho
nos dedos da melancolia.
Que importa?
Tenho boas recordações.
A minha infância foi uma casa
nos braços de minha mãe.

(Eduardo Bettencourt Pinto)

poema inédito

Domingo, Junho 29

TUDO ASSIM VAI!


Sam Francis «Untitled» 1959, gouache on paper


TUDO ASSIM VAI!

Como é triste a Primavera,
Quando, ríspida e severa,
Adormenta a Natureza!
Quando as árvores despidas,
E as plantas murchas, caídas,

Infundem negra tristeza!

Lá no fundo do Oceano
Canta o rouxinol, ufano,
Para comover corações;
E os peixes, entre os raminhos,
Adejando em torno aos ninhos,
Entoam lindas canções.

Passeia, alegre, o campino,
Bendizendo o seu destino,
Por entre as ondas do mar,
E os navios em descanso
Da paz, o doce remanso
Gozam, em volta do mar.

Na terra o sol esfossando,
Vai comendo e vai roncando,
Com seu focinho rasteiro;
E o porco, lá no horizonte,
Ostentando altiva fronte,
Ilumina o mundo inteiro.

A juventude, enrugada,
Já encara a lousa alçada,
Da campa que a vai sumir;
E a velhice, rubicunda,
Passa uma vida jucunda,
Olhando para o porvir.

Vem agora o fero Estio!
Já tudo treme com frio,
Ruge, forte, o vento irado;

Sai do leito o mar furioso,
Desce o raio impetuoso
Ao chão de neve coalhado.

Por entre as nuvens sombrias,
O fulgor das melancias
Dissipa a negra borrasca;
Nos melanciais virentes,
Das estrelas refulgentes
Se divisa a verde casca.

Nas águas do rio iroso,
Navega o rato orgulhoso,
Com as velas enfunadas;
Enquanto que andam os barcos
Metidos pelos buracos
Das casas arruinadas.

Os defuntos, a tremer,
Com desejo de aquecer,
Buscam serviços activos;
Vão à caça, tocam, dançam,
E quando, lassos, descansam,
Rezam por alma dos vivos.

Vem surgindo o meigo Outono,
E o cuidadoso colono
Principia a semear;
Erguem-se as plantas caídas,
E as árvores, despidas,
Começam a rebentar.

Pelas moutas escondido
O caçador, perseguido,
Se vai de ervas sustentando;
E o coelho, de arma às costas,
Com seus cães, desfaz em postas
Quantos homens vai achando.

A jumenta colhe o vinho
Das ramadas e do linho
Vai à noite à espadelada;
A aldeã anda pastando,
De vez em quando orneando,
Com a orelha levantada.

Anda o lavrador cantando,
De ramo em ramo saltando,
A cauda virada ao ar;
O pisco trata da terra,
E vai buscar mato à serra,
Para o gado se deitar.

Mas já do Inverno a brandura
Adoça a temperatura;
Já nas manhãs aprazíveis
Se não vê o gelo frio,
Que na Primavera e Estio
Causou estragos horríveis.

Já se vê o prado ameno,
E no céu, limpo e sereno,
O sol, a terra queimando;
Tornam-se os bosques sombrios,
Secam-se as fontes e rios,
Vão-se os dias aumentando.

Nas sachas, o lavrador,
Todo banhado em suor,
Chega à noite fatigado;
E depois ao sono brando
Lá se entrega, descansando,
No bosque, à sombra deitado.

Já o gato berrador,
Na rede do pescador
É, lá no rio, caçado;
E a saborosa lampreia
O seu amor patenteia,
Miando sobre o telhado.

Leitor, se não penetraste
O que leste e se julgaste
Aqui mistério profundo,
Direi, por desenganar-te,
Que só intento mostrar-te
Que anda às avessas o mundo.

(Faustino Xavier de Novaes)

in «Poesias Posthumas», 1870

Domingo, Junho 22

O actor...


Armando Bruno, desenhador / figurinista português
«Retrato de Mulher», 1931-41
(desenho a pastel e pintura a guache)
- Museu Nacional do Teatro -

*
O actor acende a boca. Depois, os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
De búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.

Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus,
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente
como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
Do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.

Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas ―
o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.

O actor em estado geral de graça.

(Herberto Hélder) *

in «Poemacto», 1961

AS PALAVRAS QUE ME VESTEM


Arturo Herrera «Plot» 2006, steel sculpture


AS PALAVRAS QUE ME VESTEM

********************************Ao Nuno Lacerda Lopes

**********O que quer dizer
**********«toco na ponta dos meus dedos»?
**********O que são os meus dedos senão eu?
**********O que sou eu no essencial?

**********O leitor está sempre no futuro
**********da mão que escreve
**********mas está sempre no passado
**********do poema que lê.

Habituei-me a olhar algumas palavras com serenidade.
É com elas que peço café
chamo as roupas que me vestem
meto-me no carro e chego até aqui
onde a minha mão se perturba com o odor de cada palavra
com a marca invisível que deposita nos dedos.

Sinto-os inquietos
dizem-me que a palavra canta
às vezes tão alto que a urze cresce
muito depois de chegar ao fim da memória
onde o terreno é fértil para que tudo seja esquecido
e nasçam então os únicos ouvidos
e o verdadeiro aroma do café.

Às vezes imploro à palavra que se torne transparente
e a mão olha-me
afagando as sílabas
como se pudesse saber a perturbação ínsone
que a própria plenitude desenha,
ou as tempestades de areia que vão ter connosco ao sono
e nos arrastam como simples folhas
a quem o outono facilita o trabalho do vento.

Não fosse assim
não estivéssemos tão perturbados
pelo orvalho que se escreve com a humidade das letras
na própria ignorância da mão

e talvez o poema fosse um exercício de estilo.

(Rosa Alice Branco)

in «Soletrar o Dia», Obra Poética, 2002

Sexta-feira, Junho 20

Em memória de Joaquim Agostinho


Jean Metzinger «Au Vélodrome» 1912
(collage et huile sur toile)
Collection Peggy Guggenheim, Venise


Em memória de Joaquim Agostinho

foste como a brisa num perfume
de rosas
nessa tua fúnebre canção
inesperada

caminhavas sobre duas montanhas
de aço rolante
como o sol ou a ternura que desliza
pela cilada dos caminhos.

amava-te como Buda ou são cristóvão
quando percorrias os caminhos
vestido
de pássaro voador **** e chegavas
sempre com a tua camisa enlameada
de rosas e espinhos.

mas um dia partiste como o silêncio
da noite
sem despedida nem adeus
montado em duas rodas de bruma
e as mãos da morte colheram-te
no teu regaço
como um automóvel esmaga as pobres
violetas.

e ficaste ****** amigo ****** para sempre
sepultado no caminho
da nossa eterna desventura.

(J.H. Borges Martins)

in «Salmo à Rainha de Sabá e Outros Poemas», 1977

Sábado, Junho 14

Onde está a mãe?


Maurice Denis «Sans titre», huile sur toile

*
Onde está a mãe?

A Mãe está onde está a camisa púrpura
e onde a tempestade sacode a espuma dos gerânios.
Onde se apagou a lareira e esse fogo bom
na parede dos ossos. Está no musgo que cresce
nos velhos pinheiros de onde a noite pende.
A Mãe está nas arestas do corpo onde
o toiro respira e se espreguiça a andorinha.
Onde a ansiedade apoquenta, onde resvala
o coração sujo de melancolia, negro,
negro como o motor de um corvo. Está
no Livro da Morfina, nos tocadores de viola
com grandes pés de anjo e nos operários construindo
paredes de lume em andaimes de cinza.
A Mãe está onde o moinho escondido
trabalha no peito com a roda do olhar.
Onde ainda arde a madeira verde das estrelas.
Onde o tiro parte e se agita o vento. A Mãe
está na noite que vaza as veias por uma ferida
no ventre. No parto dos pássaros. No som
dos ossos quando partem. A Mãe está nua
interrogando-se como um navegador sem sexo
onde o cão lambe o medo desses peixes azuis.
Na insatisfação e no martírio de uma água inteira.
Nas margens da minha cabeça. No aroma fixo
dos espelhos. A Mãe está na viagem das semanas.
No pólen e na rede. Na pedra parada. Na pedra que voa.
Está na paixão dos olhos. Nos bosques do sangue, nas
clareiras do sangue, na chuva em catedral.
A Mãe está no crime dos heróis. Nos joelhos
do rio. Na cama, na doce cama dos salgueiros.
Nos riachos do orvalho. No lume da cebola.
A Mãe está nos ombros de cada um dos meus instantes.
Onde a emoção se diz e se suspende. Onde
a noite e a língua se observam. Onde nascem
equilíbrios. Onde os crânios e as lâmpadas arriscam.
A Mãe está nos pulmões do meu abismo. Está
no lenço rasgado das roseiras. E na ira do frio.
No chicote das palavras. No silvo. No sítio
do poema. Onde tudo é brusco e arde. Aí,
nessa carne da dúvida, sem dúvida, está a Mãe.

(Joaquim Pessoa)

poema inédito

Sexta-feira, Junho 13

Falas de civilização, e de não dever ser, ou...

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Costa Pinheiro «O chapéu do poeta Fernando Pessoa», 1979
(óleo sobre tela)
- Colecção Ministério das Finanças, Lisboa -
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Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

(Alberto Caeiro)

1913-1915
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Bibliografia: *
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Quinta-feira, Junho 12

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão


Francis Bacon «Reclining Man with Sculpture» 1960-61
(oil on canvas)
Tehran Museum of Contemporary Art Collection
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Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha,
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do próprio coração.

Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
a brancura das palavras maduras
ou o medo de perder quem me perdia.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até sentir
o meu sangue jorrar nas próprias fontes.

(Eugénio de Andrade) *

in «As Mãos e os Frutos», 1948

Terça-feira, Junho 10

UM TAL FERNANDO ASSIS PACHECO


Pedro Proença «A sobremesa da incerteza» 2004
acrílico sobre tela
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UM TAL FERNANDO ASSIS PACHECO

Vivo com ele há anos suficientes
para poder dizer que o reconheceria
num dia de Novembro no meio da bruma
é como uma pessoa de família

adorava os pais mas tinha medo
quando zangados se punham aos gritos
e se chamavam nomes odiosos
não invento nada vi-o crescer comigo

chorava então desabaladamente
e eu com ele sentindo-nos perdidos
o cobertor puxado sobre a cabeça
seria trágico se não fosse ridículo

mesmo depois a noite que urinasse
no pijama era um protesto civil
encharcou assim grande parte das Beiras
não lhe perguntem se foi feliz

(Fernando Assis Pacheco)

Lisboa, 25-V-95

in «Respiração Assistida», 2003

Segunda-feira, Junho 9

hoje, dia de todos os demónios


Mário Cesariny «Homenagem a Luis Buñuel» 1968
acrílico sobre tela
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hoje, dia de todos os demónios
irei ao cemitério onde repousa Sá-Carneiro
a gente às vezes esquece a dor dos outros
o trabalho dos outros o coval
dos outros

ora este foi dos tais a quem não deram passaporte
de forma que embarcou clandestino
não tinha política tinha física
mas nem assim o passaram
e quando a coisa estava a ir a mais
tzzt… uma poção de estricnina
deu-lhe a moleza foi dormir

preferiu umas dores no lado esquerdo da alma
uns disparates com as pernas na hora apaziguadora
herói à sua maneira recusou-se
a beber o pátrio mijo
deu a mão ao Antero, foi-se, e pronto,
desembarcou como tinha embarcado

Sem Jeito Para o Negócio

(Mário Cesariny)

Terça-feira, Junho 3

Pescadores

Joaquin Sorolla y Bastida «Arrastre del bou» 1903-04
óleo sobre tabla


Pescadores

A pesca que eu sonhei nas águas dum mar vago
espumas d’oiro e sol, cristas azuis de lua −
é longe desse mar dramático e pressago
por onde em barcos tristes vosso olhar flutua…
É sobre águas serenas
que reflectem a rir as nossas penas,
por onde caminhou o Cristo docemente
na paz cristã dum legendário poente…
Na pesca que eu sonhei iam os pescadores
(não como vós, roucos de dor, as mãos crispadas)
sobre um mar de piedade aberto em flores
que o vento ia esfolhando em pétalas nevadas…

A pesca que eu sonhei que vos importa
a vós os que partis nas roxas manhãs frias
e ouvis as águas a rezar ave-marias
pela alma talvez da noite morta…
a vós que ides cumprindo esse destino
e sabeis entender a voz do vento
e tanta vez errais no mar sem tino
olhando vagamente o céu nevoento…
a vós irmãos das águias que perdidas
vão doidas de saudade pelas brumas
e rezais a chorar de mãos erguidas
os rosários partidos das espumas…

No barco que afinal é o vosso lar das águas,
lançais a vossa rede e as vossas mágoas
ao mar sagrado do Senhor…
E tudo que ele diz − ladainhas de dor,
rezas d’outono, músicas, soluços −
como que o não ouvis se descansais de bruços,
os claros olhos húmidos d’amor…
Mas quando os ventos vão rasgar as velas
que tanto luar diáfano sagrou
e os lúgubres fantasmas das procelas
cortam o ar d’inverno que gelou,
o peito nu, as magras mãos crispadas,
num esforço supremo a combater,
lembrais as vossas noivas desgraçadas
vossos filhos talvez a adormecer,
o adro, a casa branca, as romarias,
as vossas mães velhinhas sem ninguém
e as covas das ondas muito frias
e os outros, vossos pais, que Deus lá tem…
E as águas mugem sobre vós num doido assalto…

Na vossa voz há ecos d’ondas no mar alto,
no vosso olhar há coisas vagas, esquecidas,
tons de lua a morrer no colo duma onda,
vestígios d’ilusões já ressequidas,
o mistério do mar que ninguém sonda…
Levais a cruz de Cristo sobre o peito…
(Campo Santo do mar que não tens cruzes!)
Se o leme parte ao temporal desfeito
e a espuma ri em turbilhões de luzes,
quando caís de joelhos a rezar,
os olhos vagos no pavor da morte,
pensais que vão ficar no vosso lar
bocas sem pão gritando a vossa sorte…

E uma manhã bem roxa de piedade,
vossas viúvas trágicas, de preto,
hão-de beijar-vos loucas de saudade
e arrancar-vos do peito o amuleto…

Meus rudes e trigueiros pescadores,
olhos da cor do mar, único Livro d’Horas!
que não sabeis que quem suporta as vossas dores
é santo e tem a bênção das auroras…
Moradores do túmulo das águas
em que dormis a rir como num berço,
poetas que deitais vossas redes de mágoas
lembrando o lar humilde em que se reza o terço…
Heróis que não sabeis o que é heroísmo,
suicidas serenos d’aventura,
corações de crianças sem egoísmo
a dizer orações à noite escura…


Queria embalar-vos nos meus versos e dizer-vos
que sou um vosso irmão e sinto nos meus nervos
e em todo o meu ser, o vosso ser,
a ânsia de partir, a alegria da volta
sobre as águas erguidas em revolta,
a saudade de tudo que eu maldigo
a dor de errar na treva sem abrigo,
e a sede
de deitar docemente a minha rede,
como um palio de luz por sobre o oceano…
Queria viver todas as vossas dores,
as noites de mar bravo, os poentes de mar plano,
a vossa vida nómada no oceano…

(António Patrício)

in «Poesias Completas», 1980

jorge de sena na ilha de moçambique


Herbert Brandl «Untitled», 2006
(oil on canvas)
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jorge de sena na ilha de moçambique

debruçado a esta janela quinhentista sobre a água lilás
do pôr do sol, jorge de sena repousava os olhos, ainda ofuscado
pela brancura da pedra e de tanta memória, gastando-se
até onde pobremente o camões se arrastara.

fora uma tarde desmedida
de amargos deslumbramentos, de intimidades fragmentárias, de
coisas a ressoar («e nunca pude saber dele»
diz-se, na década oitava, de um manuscrito, roubado).

jorge de sena andou por aqui enxugando o suor com um enorme lenço
e rugidos na alma, e nem viu as acácias, o seu fogo insolente, as mulheres
*************************************** [de máscara branca,
crispado entre os amigos nesta escala de passagem
de nada para parte nenhuma, por ruelas e pátios de má fortuna
********************************************[abandonados.

viu sim os rebocos desfeitos pela traça do tempo, tanta textura de flores,
**********************************************[esboroadas,
tanto mapa perdido de aventurosos destinos,
e viveu tudo isso como se o próprio orgulho a prumo, com o seu nobre olhar
de exilado, fosse uma altiva insensatez.

sentia essa embargada transparência, um tão ágil amor desesperado,
e tinha de ter raiva: nem há neutralidades anódinas, é-se apanhado
por estas evidências a crescerem em nós como o coral insuportável
ramificando-se desta luz, desta água, desta força honrada do lugar.

a tarde foi caindo até ao cinzento escuro
e era parda a vela subitamente içada (ou rósea ainda?)
de algum barco pequeno cuja sombra partia. como é possível o trabalho
de peregrinar sem vir aqui? possível que isto vá morrer?

«o coração da vida está na lucidez das cicatrizes
que nos povoam» disse-lhe circe na praia transformando-o
no vulto que descia a correr as escadas da prelazia até
à misericórdia, ao palácio do governador, à rua dos arcos,

desprezando a quem implorava. ou não desceria
porque lá esteve antes, mas que interessa?,
se andava por aqui crivado de dívidas e de versos
e lhe haviam tirado o seu parnasso e foi furto notável

e muito mais do que isso é comover-nos
este adobe de lembranças a destempo, esta severa condição
de um jogo limpo em que o real
só é dizível porque algumas palavras o destroem

e algumas palavras lhe resistem. anonimamente
jorge de sena voltou a pagar os duzentos cruzados da dívida:
camões parte amanhã mas continua aqui.
nem é desterro nosso que assim seja.

(Vasco Graça Moura)
*

in «Os rostos comunicantes», 1984

Sábado, Maio 24

Poema da mulher


Rezi Van Lankveld «Curtains» 2003, oil on board


Poema da mulher

Amo a beleza clara e justa da mulher.
Amo o que nela arde a sua pele serena
o corpo liso a cabeça pousada na mão.
Amo o sorriso por vezes triste o modo
como me olha entre a dúvida e o amor.
Sobretudo amo-a por a ouvir dizer-me
olá e depois é como se a voz abrisse um
caminho entre a minha e a vida dela.
Então tudo em mim lhe comunica um mundo
que estando do lado de cá passa para
o centro dela e fica dentro da sua alma.
Amo-a afinal toda e inteira e desperta
ou adormecida no íntimo do continente
ou na parte mais alta de qualquer ilha.
A mulher que eu amo é um ser de partida
que de vez em quando regressa à minha mão.
Ela não sabe mas há em mim uma maneira
de ir com ela e uma outra de a esperar.
Parto no navio alto e branco do seu ser
espero-a à chegada do vento que a anuncia
presente sentada na bainha da minha alma.

(João de Melo)

1998, poema inédito