quinta-feira, fevereiro 14

A CERTA ALTURA


Michaël Borremans «The Constellation», 2000
(oil on canvas)
- Artist Portfolio -
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A CERTA ALTURA

**** A certa altura deixou de defecar. Tudo o que nele era
excremento era expelido para a *memória, cujas imagens
a breve trecho começaram *a *ir perdendo *consistência,
amolecidas algumas delas *pela *mais variada *espécie de
dejectos e desprendendo-se de todas, mesmo das de quan-
do era criança, um*cheiro de tal modo nauseabundo *que
o levou a recear lembrar-se fosse do que *fosse e a aplicar-
-se no traçado das fronteiras da *memória, para aí *erguer
um muro *que *impedisse o *alastramento do *contágio a
outras zonas igualmente *vulneráveis do seu espírito. Um
dia entrou *numa *livraria e, folheando *ao *acaso um dos
livros em que o olhar primeiro se deteve, leu: «Vem *sem-
pre dar à pele o que *a *memória carregou…» *Fechou-o e
fugiu dali, horrorizado.

(Luís Miguel Nava) *
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in «Poesia Completa 1979-1994», 2002

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domingo, fevereiro 3

CHUVA


Michaël Borremans «Thunder» 2006, oil on canvas


CHUVA


Chove como sempre. E,
como sempre que chove,
as pessoas abrigam-se
(as que não estavam à
espera que chovesse);
ou abrem, simplesmente,
o chapéu-de-chuva – de
preferência com fecho
automático. Porque, quando
chove, todos temos de
fazer alguma coisa: até
nós, que estamos dentro
de casa. Vão, uns, até
à janela, comentando:
‹‹Que Inverno!››; sentam-se,
outros, com um papel
à frente: e escrevem
um poema, como este.

(Nuno Júdice)



in «Poesia Reunida 1967-2000», Dom Quixote, 2000


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