domingo, maio 17

Folhas Vermelhas


Desiree Dolron, X-teriors VIII, 2004
(c-print)
- Ophelia – Desire, melancholy and the death wish -


Folhas Vermelhas

Andam as estátuas a voar
em redor dos pássaros estáticos
sem que isso perturbe
o bronze da manhã.
Os bancos em frente do rosto da cidade
só aceitam depositantes e não levantamentos.
Uns vagabundos de ar inteligente ainda dormem
sobre um manto invisível de folhas vermelhas.
Deve ser por isso que chegou o Outono.

Ouço um apelo das montanhas
nas asas do granizo
e lá vou eu em busca do Inverno
sem verdadeira coragem de olhar para trás.
Acompanha-me o vento sul e um ocaso
nasce dentro de mim a cem à hora
para acender-me a alma, velho motor
engripado com os versos de Oscar Wilde
e as histórias de Allan Pöe. Neste caso
deve ser algo que tenha a ver com amor.

Estou quase atingindo o clímax, o cimo,
os píncaros da felicidade plena, violeta
e branca, como as flores dos altares das igrejas
que povoaram a catequese da minha infância.

Estou por cima e, daqui, é mais fácil olhar
para baixo, contemplar o sofrimento dos outros
e aplaudir os seus rasgos de alegria. O poeta
tem este destino de eremita. Cultiva laranjas,
maçãs e pêros. Depois colhe romãs e cerejas.

(José António Gonçalves)
*

in «Arte do Voo», 2005

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