sábado, fevereiro 28

TU ESTÁS AQUI


Louise Bourgeois «Cell II», 1991
( assemblage art, mixed media)
- Carnegie Museum of Art, Pittsburgh / Pennsylvania -
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TU ESTÁS AQUI

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um
*******************************[nome e sabem o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as
***********************************************[palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro
***********************************[de casa sou outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de
********************************************** [exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a
****************************************************[fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas
********************************************[paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-las para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram
*****************************[outro nome que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir umas
**********************************[coisas das outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também
*********************************************[outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos
**********************************************[domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas
******************************[palavras como a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma
************************************************[de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre
*********************************************[presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui

(Ruy Belo) *
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in «Toda a Terra», 1976
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Nota:_ Está patente no Hirshhorn Museum em Washington,_ uma exposição de trabalhos realizados pela artista francesa Louise Bourgeois, inspirados em ideias e estilos de diversos movimentos artísticos de vanguarda, oriundos da Europa e da América: surrealismo, primitivismo, psicanálise, conceptualismo e feminismo.
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quinta-feira, março 13

ODEIO ESTE TEMPO DETERGENTE


Pedro Calapez «RAM 08» series, 2001
(acrílico sobre alumínio)
- Colecção Particular -

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ODEIO ESTE TEMPO DETERGENTE

Odeio este tempo detergente
um tempo português que até utilizou
os primeiros acordes da quinta sinfonia de beethoven
como indicativo da voz do ocidente
chamada actualmente a emissão em línguas estrangeiras
um tempo que parou e só mudou
o nome que puseram num mundo que muda
a coisas que afinal permaneceram
um tempo português que alguma vez até em camões vê
o antecessor e criador de coisa como a nato
com a profética visão de quem consegue conceber tal obra
bem pouco literária por sinal e só possível graças à visão
de quem com um só olho vê as coisas quatrocentos anos antes
Odeio este meu tempo detergente
de uma poesia que discreta até se erótica antigamente
hoje se prostitui numa publicidade
devida a algum poeta público que a certo detergente
deu de repente esse teu nome musical de musa
a ti precisamente a ti nesse teu rosto sorridente
onde o poeta público publicitário porventura viu
sobressair teu riso nesse território de alegria
e a brancura mais alva nesses dentes alvejar
E eu que faço eu aqui em todo esse tempo detergente quando
sinto subitamente cem saudades tuas
que posso que não seja odiar mais um meio que jamais
tentaria impedir evitaria um tempo que consente até contente
que faças dentro em pouco um ano mais
um meio onde nem mesmo eu mulher afinal sei
que terei de fazer para deter ao menos um momento essa tua idade
a tua juventude se possível anos antes de haver-te conhecido
por acaso e já tarde na cidade onde nasceste
cidade que unamuno diz viver morrer apenas por amor
amor morto ou mortal mas amor imortal
cidade solidão as ruas muita gente os sons o sol
difusos e confusos corredores de uma faculdade
folhas que se renovam rostos que outros rostos
tão firmes tão presentes permanentes um só ano antes
friamente destroem sem deixar sequer
ao menos uma marca nessa fria impassível pedra
o tempo os sóis dos séculos cingindo os cintos da cidade
dessa cidade aonde o povo morre novo à volta
do mesmo monumento destinado a exaltá-lo
cidade onde afinal a paisagem é pretexto para o homem
cidade portuguesa ó Portugal ó parte da hispania maior
maneira triste de se ser ibéria onde
da terra emerge o homem que depois o rosto nela imerge
ó portugal dos pescadores de espinho
espinho do suicida laranjeira espinho praia
antiga amiga e conhecida de unamuno
a praia dos seus últimos passeios portugueses
angústia atlântica e odor ó dor odor a campo
praia que só existe quando alguém a veste
coisa que foi somente quando tu mulher a viste
Aqui em portugal aqui na vasta praia portuguesa
aqui nasci e ao nascer morri
como morri a morte que por sorte sempre tive
pesadamente do mais alto do meu peso dos meus anos
em cada um dos sítios onde um dia estive
Aqui tive dezasseis anos aos dezasseis anos
aqui só vejo pés há muitos anos já
Aqui o meu chapéu-de-chuva mais ao sul aceita em chapa o sol
chapéu que fecho quando fecha o sol definidor do dia
Tive um passado agora inacessível um passado
tão alto como a torre do relógio da aldeia
que pontual pontua a passagem do tempo
um tempo não ainda detergente um tempo
afinal só visível no sensível alastrar da sombra
ao longo desse pátio só possível ao adolescente
que mais tarde e mais só e de maneira mais sensível
mais só se sentirá no meio da imensa gente
que se sentia ali entre a andorinha e a nespereira
Não o sabia então mas dominava um mundo
esse mundo que espero que me espere um dia ao fundo
lá quando findo o dia sob o chão me afundo e ao final
em terra e em verdade é que me fundo
Mas eu aqui completamente envolto neste tempo detergente
é da segunda-feira e da semana que preciso pois
posso lutar melhor por uma luz melhor
do que esta luz do mar à hora do entardecer
É da cidade é da publicidade é da perversidade
que preciso e não tenho aqui na praia
Não tenho nem o mar nem tão rudimentar
a técnica de olhar alguém as minhas mãos
para me devassar a vã vida privada
É de inverno é domingo estou sozinho aqui na praia
regresso a casa à noite apanho eu próprio a roupa no quintal
e tenho a sensação de quem alguma coisa
faz pela vez primeira e sente bem ou mal
que tarde toma agora o seu banho lustral

(Ruy Belo) *

in «País Possível», 1973

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segunda-feira, outubro 15

NA NOITE DE MADRID

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Giorgio De Chirico «The Nostalgia of the Poet», 1914
(oil and charcoal on canvas)
- Private Collection -
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NA NOITE DE MADRID

Na noite de Madrid eu vi um homem morto
Jazia ali como uma afronta para os vivos
que voltavam dos bares com música nos olhos
com estrelas na testa e festa nos ouvidos
e passavam de táxi a boa velocidade
Há quanto tempo o homem jazeria ali
à superfície escura do asfalto
já meio devolvido à terra nossa mãe?
Não o cobria o manto dos heróis
nenhum clarim tocara em sua honra
Como o confortaria a santa madre igreja?
Tombara apenas imolado ao dia-a-dia
Pagara com a vida a paz da consciência
de toda uma cidade que dormia
E ele crescia alastrava na estrada
e assumia inesperadas proporções
quando há bem pouco ainda se reduzia ao dia
Quem seria? Quem fora?
Que jornal conteria a imensidão do nome
De quem como um insulto ali jazia?
Que pensamentos próximos tivera?
E o que levaria ele nos bolsos?
Donde viria? Sorriria? Onde ia?
Fora criança? Sonharia ser feliz?
Mudaria de vida na manhã seguinte?
Brincara alguma vez naquela mesma rua?
Fora criança ali onde profundamente o vi?
Teria soluções para problemas que tivesse?
Seria porventura um bom chefe de família?
Disporia da consideração da vizinhança?
Era bom funcionário? Homem de futuro?
Mas já naquele momento o rosto lhe cobriam
pois não conseguiria ver nem as estrelas
nem ao menos a luz dos citadinos candeeiros
Havia curiosos e polícia havia uma ambulância inútil
para quem como cama só teria a pedra fria
«Aonde vai?» ― perguntou-me o homem do táxi
«― Eu tenho cinco mil pesetas ― respondi-lhe
Leve-me pelas ruas da cidade até nascer o sol
talvez ele possa dizer-me alguma coisa
daquelas muitas coisas que gostava de saber
(o sol é hoje uma das minhas poucas soluções)
Passe longe do corpo por favor»
Lembrei-me de leituras soterradas
de súbito subiram-me à memória cenas esquecidas
Samaritano eu? Mais um levita
que calmo procurava a promessa do dia
Inquietação ou pena? Sombra de metafísica?
Política? Moral? Lição? Comportamento?
Queria alguma coisa? Não sabia
Posso-vos garantir que não sabia
Só sabia que olhava e nenhum mar havia

(Ruy Belo) *
Póvoa de Varzim, à vista do mar, 10 horas da manhã

do dia 29 de Dezembro de 1971

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segunda-feira, julho 30

PAÍS POSSÍVEL


Georg Baselitz «A Mão de Deus», 1964-65
(óleo sobre tela)
- Private Collection -
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DIÁLOGO COM A FIGURA DO PROFETA JEREMIAS,
PINTADA POR MIGUEL ÂNGELO NO TECTO
DA CAPELA SISTINA


Pensa tens que pensar bastante jeremias
sobre ti pesa o peso de pensar por nós que não pensamos
por nós que temos horas para tudo o que pensar não seja
que temos o emprego as lojas os cinemas o relógio
que com suor pagamos pelo tempo todo nosso
o preço duma vida inteiramente submetida
às botas dos senhores deste mundo
pensa tu jeremias que talvez resolvas tu
problemas até hoje pouco menos que insolúveis
redutíveis talvez a pequenas palavras como pão
ou casa ou roupa simples condição pra conseguir
que o homem possa estar sobreviver
sobre esta terra sólida passível no entanto
de submissão ao sedutor encanto
de fantasmas talvez manipulados longos séculos
Depois procura que não mais o homem
que pouco tempo vive neste único mundo
veja fugir o poder de pensar
pois mais que privilégio é um fardo pensar
Que ao homem se consinta defender a sua vida
de quem mais que matá-lo claramente e duma vez
a vida lhe retira ambiguamente
Que possa ver a pedra a terra a estrela
o animal a arvore a sucessão das estações
o dia a noite o pôr do sol
Que viva muito mais por saber ler
por poder descobrir noutras pegadas anteriores às suas
passado para os passos que lhe cabe dar
na terra e no momento em que tem de viver
Pensa tu Jeremias e não pense o homem
pois pensar faz sofrer e sofrer muito mais
quem pensa pouco menos que por profissão
Eu sei que pensas Jeremias eu vejo essa mão
na exacta posição em que a coloca aquele que pensa
sob o peso que pesa o facto de pensar
e de levar tamanho peso na cabeça
Pensa sem transcendência pensa apenas
deita contas à vida lembra a noite
que desce sobre nós veladamente
Pensa e diz-me depois as conclusões
a que decerto os anos e os séculos
te haverão permitido ter chegado
Aliás sei que pensas jeremias
e que pensas melhor que o pensador
por rodin posto a pensar oficialmente
Vê-se que pensas vê-se não apenas pela cara
mas até pela cor que miguel ângelo
te deu a essas vestes que te fez vestir
deve haver coisa de uns cinco séculos
Pensa pensa serenamente Jeremias
que nem mesmo o rebanho do turista americano
que ruidoso passa uns vinte metros mais abaixo
poderá perturbar essa serenidade
que pões na circunstância de pensar
Pensa que pelo menos eu sei que tu pensas
E o soube ao descobrir-te aí no tecto
esse céu só possível em virtude da imaginação
de um artista humano pela condição
invejável de ser e de cingir-se a esta terra
Vi-te pensar e paro e penso
e aqui sozinho em meio desta gente
definitivamente sei que sempre pensarei
que por muito que pense nunca houve ou haverá alguém
que pense tanto e que pense tão bem

(Ruy Belo)
*

in «País Possível», 1973

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