quinta-feira, agosto 9

LUSCO-FUSCO


Nicola de Maria «Anni Lontani», 1996, óleo sobre tela


LUSCO-FUSCO

‹‹Tous les garçons et les filles de mon âge…››
Ouvia esta canção há muitos anos
sob as frondosas árvores de uma infância
perdidamente amada pelos verões
passados em família, rodeado
de primas e de primos quase sempre
mais velhos do que eu e mais afoitos,
rompendo a espuma quando mergulhavam
em águas como esta. Há muitos anos
não havia passado nem futuro
e o mundo era um jogo cujas regras
eu podia inventar na solidão
das praias quando a tarde escurecia
e o olhar fugia de repente
rumo a lugares que sempre me sorriam
nos mapas onde tudo começava
e era mais real do que o real
das viagens iguais umas às outras
ouvindo algum Beethoven, algum Mozart,
a caminho das férias, das areias
onde íamos cumprir a obrigação
de estar ali ao sol durante as horas
que fossem necessárias para o corpo
ganhar a cor que havia de perder
alguns meses depois. A minha pele
ainda é a mesma e já não é a mesma,
agora que essa luz se evaporou
deixando em cada poro a nostalgia
do seu calor demasiado humano,
e a maresia traz o cheiro quente
das bolas-de-Berlim ou dos barquilhos
no Estoril, na Torreira ou no Algarve,
sepultados algures num esconderijo
desta memória azul onde cresceu
o suave mistério desse tempo
nem alegre nem triste – apenas tempo
suspenso de si próprio, a boiar
num oceano cada vez mais íntimo
de imagens que flutuam ao sabor
de um vento pouco a pouco mais agreste
quando chega o crepúsculo e eu volto
às notas irreais dessa canção
que falava de amores adolescentes,
nascidos em boîtes e esplanadas
e mortos em Outubro, sob o frio
das aulas e das mágoas. Eram histórias
de que os adultos riam, sem saber
que assim dilaceravam ainda mais
aqueles corações, a sua carne
demasiado viva e solitária,
porque até os que andavam sempre em grupo
preferiam ficar sós de vez em quando
para saborear o dom das lágrimas,
essa dorzinha cheia de volúpia
que sobretudo plos finais do verão
me corroía a alma como um cancro
benigno, tão benigno, mesmo quando
contemplava a beleza inacessível
de tantas raparigas, os seus corpos
estendidos sobre as dunas, conversando
em doces gargalhadas, sem ligar
ao ciúme infantil dos namorados
ainda mais volúveis e voláteis
que as músicas da moda. Há muitos anos
as vidas eram feitas de um cristal
transparente aos meus olhos iludidos
por fantasmas febris, assombrações
que por encanto e por enquanto ainda
parecem quase intactos no instante
em que este lusco-fusco arrasta as sombras
dos idos de sessenta ou de setenta
pela praia deserta onde murmura
o eco de um país talvez perdido
a confundir-se com a melodia
das ondas moribundas. Vinte anos
atravessam agora o horizonte
deste meu ocidente sem saída
onde se ergue de novo a escuridão
e as palavras mal sabem resistir
ao peso desse tempo que não passa
e crepita em silêncio enquanto as aves
se afastam para o sul, até ao fim
de um mundo que morreu sem ter morrido
e ressuscita num altar secreto
onde venero os vultos vislumbrados
no momento em que Vénus irradia
todo o fulgor de um astro que naufraga
na penumbra do ar ensanguentado
por tantos sonhos hoje sem ninguém.

Que enigma será este? Que verdade
sobrevive aos sonâmbulos compassos
dessa canção aberta como um poço
no fundo do meu mar? Os sentimentos
precisam de descer a um precipício
onde florescem chamas invisíveis
e todo o tempo deixa de ser tempo
na varanda vazia, pouco antes
da varanda vazia, pouco antes
da noite me entregar a sua dádiva:
rostos a arder num céu dentro de mim,
poeira incandescente das estrelas.

(Fernando Pinto do Amaral)

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