domingo, outubro 5

SMOKING ROOMS


Pedro Calapez «Parede-a» 2006, pastel de óleo sobre cartão

*
SMOKING ROOMS

Atravessas a noite − é a mais longa
noite da tua vida.
Atravessas o mundo, sobrevoas
o maior continente
− ilhas verdes e outros paraísos −,
as muitas horas pesam-te no corpo,
mas os ponteiros não se movem.

A escala será breve: uma cidade
onde o céu desagua noutro céu
absoluto **** negro.

Os passageiros saem − vais com eles,
autómato perdido na corrente
dos outros seres humanos, teus irmãos
siameses,
e é este o aeroporto de Bangkok:
cafés e restaurantes e free-shops
e de súbito aqui ou além
minúsculos cubículos,
stalags ou gulags de vidro transparente
onde algumas pessoas como tu
fumam e continuam a fumar.

Agora a dez mil metros de altitude
sobre a Ásia Central **** sobre a eterna
noite,
imaginas que o dia já nasceu
no aeroporto de Bangkok
e contemplas num morno pesadelo
aqueles pequenos cárceres de névoa,
o castigo cumprido em silêncio,
a cinza dos seus rostos.

(Fernando Pinto do Amaral)

in «A Luz da Madrugada», 2007

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quinta-feira, fevereiro 7

A OUTRA FACE


Peter Doig «Purple Jesus (Black Rainbow) 2006, oil on canvas


A OUTRA FACE

Hás-de voltar aqui, hás-de sentir
a estupidez do mundo como um pêndulo
batendo a horas certas
ao ritmo dos dias, das semanas,
dos meses ou dos anos que, sem dares por isso,
hão-de passar velozes até dissolverem
o céu e o inferno e os teus últimos
rastilhos do orgulho. Hás-de aprender
a amar os que te odeiam
e a afogar a tua bílis negra
no caudal desse rio a que chamas
perdão ou esquecimento.

Hás-de voltar aqui, hás-de envergar
essa coroa de espinhos que te assenta
tão bem, hás-de mentir
de novo a essa gente, obedecer
com um sorriso inócuo ao seu tráfico
de pequenos conluios burocráticos,
às rasteiras da inveja, aos mais iníquos
crimes humanos – tudo isso
a que mais tarde alguém há-de chamar
simplesmente injustiça
Hás-de voltar aqui, hás-de saber
dar-lhes a outra face.

(Fernando Pinto do Amaral)


in «A Luz da Madrugada», Dom Quixote, 2007

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terça-feira, novembro 6

ANATOMIA


Miquel Barceló «Verdades y Aspirinas», 1984, oleo sobre tela

*
ANATOMIA

Como todos sabemos demasiado bem,
às vezes o que importa não é a literatura
e em qualquer encontro de escritores
podemos aprender alguma coisa
de anatomia humana
pelo menos da parte em que se estuda
a forma e o tamanho dos umbigos:

Maiores ou mais pequenos, feios ou mais belos,
situam-se no centro do universo
- pequenos planetas que de súbito
se transformam em estrelas
e mostram uma tendência irresistível
para absorver o espaço à sua volta.

De formato redondo, podem ser
ligeiramente elípticos
e ostentam em casos muito raros
quase uma curvatura parabólica
que em certas ocasiões os abre ao mundo.

Uma investigação mais aturada
a essas crateras tão humanas
descobre que se ocultam no seu côncavo
cidades invisíveis, rostos de outro tempo,
segredos de futuros que não houve,
invejas e desejos e remorsos
que ninguém saberia confessar
e sobretudo o medo,
a solidão mais fria e esse orgulho
que serve de disfarce ao desespero.

Sempre que se lhes toca, é necessário
fazer as coisas com sentido clínico
e alguma subtileza: alguns retraem-se
até desaparecerem, refugiados
num pudor infantil, fora de moda,
mas com o tempo quase todos
aprendem a viciar-se nesse gesto
e crescem devagar, sob a pressão dos dedos,
com um prazer quase erótico,
numa erecção intensa, até chegarem
a ocupar então o corpo todo
e a devorar-lhe a alma.

Muitos desses umbigos, finalmente,
reflectem a luz em certas circunstâncias:
os mais clássicos preferem
a superfície líquida de um lago;
outros só se contentam com o mar;
mas para a grande maioria basta
um luminoso par de olhos humanos
disposto a conceder-lhes a pequena graça
de alguns minutos de atenção.

(Fernando Pinto do Amaral)

in «A Luz da Madrugada», Dom Quixote, 2007

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quinta-feira, agosto 9

LUSCO-FUSCO


Nicola de Maria «Anni Lontani», 1996, óleo sobre tela


LUSCO-FUSCO

‹‹Tous les garçons et les filles de mon âge…››
Ouvia esta canção há muitos anos
sob as frondosas árvores de uma infância
perdidamente amada pelos verões
passados em família, rodeado
de primas e de primos quase sempre
mais velhos do que eu e mais afoitos,
rompendo a espuma quando mergulhavam
em águas como esta. Há muitos anos
não havia passado nem futuro
e o mundo era um jogo cujas regras
eu podia inventar na solidão
das praias quando a tarde escurecia
e o olhar fugia de repente
rumo a lugares que sempre me sorriam
nos mapas onde tudo começava
e era mais real do que o real
das viagens iguais umas às outras
ouvindo algum Beethoven, algum Mozart,
a caminho das férias, das areias
onde íamos cumprir a obrigação
de estar ali ao sol durante as horas
que fossem necessárias para o corpo
ganhar a cor que havia de perder
alguns meses depois. A minha pele
ainda é a mesma e já não é a mesma,
agora que essa luz se evaporou
deixando em cada poro a nostalgia
do seu calor demasiado humano,
e a maresia traz o cheiro quente
das bolas-de-Berlim ou dos barquilhos
no Estoril, na Torreira ou no Algarve,
sepultados algures num esconderijo
desta memória azul onde cresceu
o suave mistério desse tempo
nem alegre nem triste – apenas tempo
suspenso de si próprio, a boiar
num oceano cada vez mais íntimo
de imagens que flutuam ao sabor
de um vento pouco a pouco mais agreste
quando chega o crepúsculo e eu volto
às notas irreais dessa canção
que falava de amores adolescentes,
nascidos em boîtes e esplanadas
e mortos em Outubro, sob o frio
das aulas e das mágoas. Eram histórias
de que os adultos riam, sem saber
que assim dilaceravam ainda mais
aqueles corações, a sua carne
demasiado viva e solitária,
porque até os que andavam sempre em grupo
preferiam ficar sós de vez em quando
para saborear o dom das lágrimas,
essa dorzinha cheia de volúpia
que sobretudo plos finais do verão
me corroía a alma como um cancro
benigno, tão benigno, mesmo quando
contemplava a beleza inacessível
de tantas raparigas, os seus corpos
estendidos sobre as dunas, conversando
em doces gargalhadas, sem ligar
ao ciúme infantil dos namorados
ainda mais volúveis e voláteis
que as músicas da moda. Há muitos anos
as vidas eram feitas de um cristal
transparente aos meus olhos iludidos
por fantasmas febris, assombrações
que por encanto e por enquanto ainda
parecem quase intactos no instante
em que este lusco-fusco arrasta as sombras
dos idos de sessenta ou de setenta
pela praia deserta onde murmura
o eco de um país talvez perdido
a confundir-se com a melodia
das ondas moribundas. Vinte anos
atravessam agora o horizonte
deste meu ocidente sem saída
onde se ergue de novo a escuridão
e as palavras mal sabem resistir
ao peso desse tempo que não passa
e crepita em silêncio enquanto as aves
se afastam para o sul, até ao fim
de um mundo que morreu sem ter morrido
e ressuscita num altar secreto
onde venero os vultos vislumbrados
no momento em que Vénus irradia
todo o fulgor de um astro que naufraga
na penumbra do ar ensanguentado
por tantos sonhos hoje sem ninguém.

Que enigma será este? Que verdade
sobrevive aos sonâmbulos compassos
dessa canção aberta como um poço
no fundo do meu mar? Os sentimentos
precisam de descer a um precipício
onde florescem chamas invisíveis
e todo o tempo deixa de ser tempo
na varanda vazia, pouco antes
da varanda vazia, pouco antes
da noite me entregar a sua dádiva:
rostos a arder num céu dentro de mim,
poeira incandescente das estrelas.

(Fernando Pinto do Amaral)

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