sexta-feira, outubro 10

O afilhado


Beatriz Milhazes «Bala de Leite», 2005
(colagem sobre papel)
- Colecção Particular -
*
*
O afilhado

O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
Veio verme.
Verme não é. E, se fosse, isso que tinha?
Os anelídeos têm os seus anéis elásticos,
Num começo de élan superior, bem soldado,
A blocos de control e direcção,
Enquanto que ele a perde em centros altamente sinápticos
E fica pobre e triste entre os apáticos.

O meu afilhado epiléptico
Veio ver-me,
Veio verme,
Veio ecléctico,
Entre os que sim e os que não,
Quase empastado e céptico
Num sorriso de vã resignação.
Fosse ele verme, o pobrinho, e até crustáceo!
Teria o sistema nervoso ao longo da barriga,
Táctico nas antenas de precisão, como a formiga.
Mas tem espinha dorsal e cabos de nervo de alto diâmetro,
Que deviam ser rápidos e senhoris na opção,
Mas às vezes não são…
O meu pobre afilhado epiléptico,
Eterno aprendiz de sapateiro,
Aplicando serol a fibras de cairo para botas
E fazendo virolas
De meias solas
Rotas.

− E ganhas?... − lhe pergunto.
− Vinte paus, meu Padrinho.
«E não posso beber vinho:
«Nem um copinho,
«Meu Padrinho!»

O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
E pensei no Pessanha:
«Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme…»
Vinte paus é o que ganha
O meu afilhado epiléptico,
Com os dedos no unto.

Patético, hein?
Mas − mudemos de assunto.

(Vitorino Nemésio) *

in «Limite de Idade», Colecção Auditorium Lisboa, 1972

Etiquetas: ,

sábado, maio 24

MADEMOISELLE HYPOTHÈSE


Michael Raedecker «kismet» 1999
(acrylic and thread on canvas)
- Artist Portfolio -
*
*
MADEMOISELLE HYPOTHÈSE

Mademoiselle n’était
Qu’une hypothèse, peut-être,
Dont les cheveux ruisselaient
Des origines de l’Être.

Au visage inaperçu,
Les algues chargeaient ses mains,
De sa bouche large et tue
Le vide faisait essaim.

C’était pourquoi Mademoiselle
N’occupait que le contour
Que la lune renouvelle
Sur les absences de tours.

Tout en n’étant que cela,
Mademoiselle, du moins,
Quelque bonheur apporta
Aux routes qui mènent loin.

Car ces routes, étirées
Sur la peau de leur poussière,
Étaient les pas effacés
Des courses qu’on fit naguère.

Et les plus ensevelis
Sont beaucoup plus résistants
S’ils ont le corps que la pluie
Aux traces des pieds consent.

Et la pluie, qu’on ne conçoit
Hors des gouttes qu’elle déverse,
Si elle trouve des pas
Est tout de même diverse.

Alors le vide, le rien
Qui parfait Mademoiselle,
De l’autre vide gagnant
Une existence réelle,

Put se placer dans l’espace
Oû se fait la conception
De ces vers, qui la dépassent
En clarté et précision.

Mademoiselle Hypothèse,
Cœur de la nuit pas logique,
Pourquoi donc le malaise
Qui vous produit l’authentique ?

(Vitorino Nemésio)
*
in «La voyelle promise», 1935
*

Etiquetas: ,

terça-feira, dezembro 18

DISPOSIÇÕES DE ÚLTIMA VONTADE


Isaac Levitan «Landscape» ca. 1980-90
(oil on canvas)
- Private Collection -

*
DISPOSIÇÕES DE ÚLTIMA VONTADE

Não me proíbam que seja o imaginário amoroso,
Nem me venham prender
À sua própria cama
Esta vaga mulher que se insinuou na minha alma
E acha o ninho gostoso.
Não me amesquinhem nem reduzam
Só ao que sou por fora e é negado por dentro;
Mas também não me lastimem como quem diz de uma casa:
«Que lindo jogo de varandas!
É pena
Que tenha o forro roto e cheio de ratos.»
Deixem-me dormir,
Dormir maciçamente e com todas as distensões
Semelhantes, no cómodo, à posição dos extintos,
E sem tirar as polainas cor de café com leite
Que usam os rapazes distintos.
Dormir! Estar pràqui quieto e atravessado
Pelos fogos que perderam a direcção dos chamuscos,
Pelos rastos dos cometas que deixaram o lume no céu
E o atilho no mar ― papagaios enormes!
O meu cinzeiro de fumador cá está crescendo; Cá estou fazendo os
*********************[versos que hão-de dar «honra às letras».
Que mais querem?
Não é este o célebre Dever e a obrigação de cada um?
Cumprida a qual — desistam
De me pedir a volta ao costumado equilíbrio,
À pacatez forçosa.
Sofro com olhos naturais
E sem sombra de arranjo
O que uma força remota tem necessidade de que eu sofra
E embebe em mim até aos copos da lúcida espada do Anjo.
E, se tenho chagas curáveis,
Cá sei porque é saboroso ir sugando o seu podre!
*
Peço além disso que a terra
Onde nasci ― seja ainda e sempre conservada
A uma boa distância de mim:
Para que quem lá mora tenha o tempo por si para
*****************************[esquecer-me —
Ou então para se lembrar cada vez mais de mim
Enquanto me torno impossível:
Mas lembrar com uma lembrança aguda e intolerável,
Que pense como o mar e seja salgada e repetida
Como cada onda que bate
No rochedo ― até lá por outras ondas seguida:
Onda que não me salva,
Porque estou longe e será para todo o sempre perdida.
*
E assim ficarei quieto,
Além de ficar restituído
Ao original silêncio;
E, enfim, me irei perdendo…
Porque era realmente disparate,
Como quem acha um cigarro ainda com lume, ter achado
Certo fogo que não pode de modo algum ficar ardendo.
*
Abram as janelas para sair o resto do fumo
E fechem a porta. Não deixem entrar ninguém
E, muito menos, poetas.
Agora sinto-me bem;
Os mortos, na verdade, são umas pessoas completas.

(Vitorino Nemésio) *

1938
*
Bibliografia: *
*

Etiquetas: ,

quinta-feira, setembro 13

FIVE O'CLOCK TEA


Candido Portinari «Favela com Músicos», 1959
(óleo sobre tela)
- Colecção Particular -
*
*
FIVE O'CLOCK TEA

Eu canto o chá das cinco que minha Mulher ofereceu,
Às seis da tarde, ao longo da barra azul da sala,
Àquela senhora inglesa que o Outono nos adiantou,
Tão distinta, discreta, boa e doce.
Naquela cadeira exposta ali na sala aos destinos
Das pessoas que vão entrando;
Aquela senhora de modos tão finos
E de dentes brancos onde já um ramo de tempo deita
*************************************** sombra;
Aquela senhora, ali, inglesa, no seu vestido de miosótis,
De que não me atrevo a pedir ramo algum
Enquanto bebo o meu chá, ao lado dela, pensando
Em tanto miosótis que tenho visto e me tenho acanhado
****************************************de pedir ―
Ou por não ser tempo de miosótis e ficar feio andar augado,
Ou por não haver outra coisa nos jardins senão miosótis
********************e não me apetecer, francamente…
E assim, imobilizado o meu pálido yes
E falando francês àquela senhora inglesa,
Eu canto o chá dourado que minha Mulher lhe oferece ―
Minha Mulher, que não é inglesa mas gosta de pessoas
*********************************** de Inglaterra,
E pôs a barra azul na sala, por poesia,
E escureceu os móveis numa tarde toda dourada
Em que mais triste se sentia.
A senhora inglesa,
Que uma amiga nossa que já esteve em Inglaterra nos
*****************************trouxe para este dia;
A senhora inglesa dos olhos claros;
A senhora inglesa que só disse palavras correctas, coisas
*****************************************correctas,
E insinuou, na tarde, uma sinuosidade e uma harmonia
Só com o seu sim ou o seu não,
O seu braço longo, desistido, inapetente, mas belo
Precisamente porque é já o braço para o neto esfregar
*************************************as gengivas
E roer e rir, e rir e roer, meses depois de nascer,
Como um belo guizo de oiro que só mesmo feito em
***********************************Inglaterra!
O braço que não ocupa lugar e mede pela asa da chávena
(À distância a que a senhora inglesa a põe nos seus
*****************************dedos como asas)
O abismo que vai da senhora inglesa a um lugar
*****************************da Inglaterra,
E desta hora do chá a uma outra hora lá dela,
Íntima, doce, única, rara, ampla, esquecida,
Que não existiu talvez senão para ser lembrada
Em minha casa, esta tarde, e a comer short-bread
Que é assim a vida…

(Vitorino Nemésio) *
*
Bibliografia: *
*

Etiquetas: , ,

domingo, julho 1

Poème Dramatique

*
Sigmar Polke - Bienal de Veneza 2007 -

*
POÈME DRAMATIQUE

Au Soldat Portugais inconnu mort à la guerre

À la mémoire de Nuno Cruz, sous-lieutenant d’artillerie en Flandres,Croix de Guerre, ‹‹valente como as armas›› et le plus gai des amis,mort en exil aux approches de Noël 1934, ce poème est dédié.

I

Poilus au port de Brest encore une fois,
Bruns, menus, sentant la laine des moutons.
‹‹Les Portugais !›› ― s’écrient les gens à ces soldats
Que font sonner leurs gamelles sons 30 k de poids.
‹‹Un, deux, trois, quatre… onze, douze, treize…
Les Portugais ! dit-on. Qu’est-ce que ce sera ?
Je connais bien la boîte aux sardines portugaises :
Peut-être des poissons… Je ne sais pas.››
Et devant les troupes débarquées,
Blême troupeau de visages
Que l’on n’a point fait raser,
Car ils ont eu, vraiment, drôle et vilain voyage,
Mangeant du biscuit corné
Que leurs aïeux n’ont pas complètement croqué dans
[la croisière des Indes, de l’Océanie, du Brésil,
[du Groenland, de la Terre-Neuve, du Japon…
Que sais-je !
La foule veut voir les moutons ;
Il neige.

Lentement, avec leurs monocles pince-nez, ―
Lunes, peut-être, qu’ils apportent
De leur pays par trop lunaire et lunatique, ―
Débarquent les officiers.
‹‹Tiens ! Les braves garçons, qu’ils regardent les portes
Et Jeannette à la porte ; qu’ils sont chics !››
Les soldats un peu badauds
Traînent leurs caisses :
Et celui-ci, voyant que la sienne se casse,
Pleure comme un enfant rigolo,
Arrive très tard au mess,
Car il ramasse un chapelet, une chemise, ramasse…

‹‹Monsieur, encore ce portrait qui vous ressemble tellement
Qu’on dirait Madame votre mère››,
Lui dit Germaine Durand.
Et Zé, que personne ne traita jamais de ‹‹monsieur››, ―
469 de la ‹‹première››
Étant son nom de preux, ―
Voyant les yeux de Germaine,
Puis les yeux de sa mère,
Quoique en carton et à la lumière malsaine
À LA MINUTE
(Pas celle qui baignait la peau de Zé rougie comme
[une reinette
De tant avoir sucé le gros lait de son cœur),
Zé regarda la fillette,
Rougit,
Aima, eut peur,
Bégaya ‹‹pas compris››
Et courut, courut, traînant sa bayonnette
*
II

D’ailleurs la Division peu à peu s’écartait.
L’État-Major passa, tout en aiguilles d’or,
Sur des chevaux qui n’étaient point du tout harnachés,
Mais dont les croupes rêvaient
Des amazones démontées
Et des pots au lait de la paix,
Qui doucement les arrosaient
Là, où maintenant les éperonne le cri meurtrier du cor

Les canons, ces fleurs d’un tout autre climat à la rouile,
Sur les roues étoilées s’embourbant aux routes de France,
Passèrent.
Fracas. Mulets redressant l’oreille que les fouets épiques
[chatouillent ;
Trompettes criardes (3e Réserve de Vaillance) ;
Journée traînante, infinie, vers le front largement troué
[de fosses.
Puis, halte ! Gamelle aux chambrées sur la terre aussi
[grasse et amère.
Que cette ripopée qui fait les soldats féroces.

Zé, ayant de son torce renforcé
Les rangs, les rangs, serpent de la Victoire,
S’adressa au sergent, dit ‹‹Permettez,
J’ai soif›› (Le Christ aussi eut soif) ;
Et, penché sur un margouillis très frais, se mit à boire
À larges traits,
Que sa pomme d’Adam, comme une culasse, réglait.

Les chevaux à la bouche douloureuse,
Où des soucis des champs ne faisaient plus le pansage,
Buvaient aussi, les têtes basses et pieuses,
Les yeux hauts, les cils clignant sur la plaine sans un
[seul brin de pâturage.
Et la Division, lézard gris venu d’au-delà de l’Espagne
[compacte et neutre,
Déguisant les lauriers sur son casque en aluminium
Fleuri d’un peu de feutre,
Remplit les trous du front de dix mille hommes.

III

À quoi bon faire tonner l’artillerie, les mitrailleuses,
À coups de syllabes ennemies,
Sur cette pauvre foule à la petite taille,
Cette pauvre fourmi
Entre ses sœurs les bêtes énormément audacieuses
Et très habiles à la bataille ?
À quoi bon ?

Le temps et la guerre
Vont du même pas sur les tranchées, sous la terre.
Point de paysage ;
Mais les soldats ont leurs arbres de sang déracinés
Où chantent les shrapnels
Pendant toute la journée
Comme des moineaux dans les cages.

Maintenant, sous le feu, minuit de Noël.
L’aumônier du bataillon ayant mis sa soutane,
Le Christ de Neuve Chapelle,
Noirci sur les ruines, ouvre ses bras sur l’engeance
Portugaise du front, qui fête son enfance.
Un gros mulet est là qui joue le rôle de l’âne,
Et, quant à la vache,
Ce caporal mourant
Arrache de vrais gémissements.

― ‹‹Seigneur des Armées,
Seigneur très petit et très grand sur cette étoile de bois,
Je vous offre tous les blessés
Et les agonisants, et les vivants, qui pourtant connaissent
[tes dois.››
Disant, le prêtre se tut.
Et, de son doigt signalant la blessure foncière du Christ,
Renouvelée d’un coup de fusil venu d’à gauche,
Il baissa sa tête portugaise un peu laineuse et triste,
Intime avec la chair qui pue,
Et dure et militaire, sans la faiblesse d’un reproche.

IV

Puis (
Limiter le ronflement des obus, le bourdonnement des
mitrailleuses, l’éclat des verylights et toute sorte de fra-
cas, peut-être sur le piano).
9 avril
(Les mêmes bruits, plutôt sur du fer blanc).
9 avril 1918.
‹‹C.E.P. ― Q.G.B. ― Aux Commandants des Bataillons
[d’Artillerie. (Confidentiel).
L’ennemi flanque le secteur anglais sur notre droite.
La 3e Réserve Mobile tournoie sur l’aile
Gauche. Danger. Feu de barrage. (Date)››.

Dans les gîtes de l’arrière-garde les aides de camp tapent
[à la machine,
Et les troncs égorgés des arbres, sous la soudaine rafale,
Tombent ; et les canons sonnent minuit sur les ruines
Comme l’airain tressaille aux tours des cathédrales.
Onde après onde,
Sous la musique divine qui se fait de plus en plus ample
[et ronde,
Les Allemands percent,
Brisent, cassent,
Car une femme les berce,
Une femme horriblement belle et toute couronnée
[d’affreuse grâce.
Dans un coin de la tranchée envahie,
Zé pare les coups de tous ces Allemands énormes
Du seul geste de sa main gauche justicièrement durcie,
Pendant que, de sa main droite nourrissant la dernière,
L’irrévocable mitrailleuse
(‹‹Ah, cães de Niza !››), il pense à sa pauvre mère
Qui coud peut-être à la machine, insoucieuse,
Pendant que tous ces Allemands énormes,
En recevant de lui la Mort, belle femme qu’ils aiment,
[l’écrasent.
Zé n’est plus qu’une forme
Sanglante et raccourcie sur la terre rase.

V

Et maintenant, mon vieux, que tu as fait ton devoir
Et que la Justice est plus forte ― croit-on ―
Du seul fait qu’elle a eu ton sang et put y boire,
Viens dans ta petite maison
Sur les flots de naguère,
Où t’attend
Notre mer,
Si fidèle toujours à ceux qui partent ou tombent,
Ta mère,
Les pins et les colombes.
Remercie Messieurs les Alliés d’avoir bien voulu
Te recevoir parmi les illustres rangs victorieux,
Quoique le vin de la Victoire ce ne sois pas toi qui
[l’aies bu,
Mon vieux.
Te voilà dans la nef où l’ombre vit
Et où il y aura toujours une flamme docile au vent,
Qui veut voir si tu es encore enseveli :
Car un jour tu ne le seras plus :
Car c’est trop, vraiment, que d’être comme ça à tout
[jamais inconnu,
Le soir, la nuit, le matin.
Dans l’ombre zodiacale où ton corps s’est perdu.

Dors sous les pins.

(Vitorino Nemésio) *
*
Bibliografia: *
*

Etiquetas: ,