quarta-feira, fevereiro 27

A primeira morada


Peter Doig «Girl in White with Trees» 2001-02, oil on canvas
*
*
A primeira morada

lembro-me, a mãe subia
pela tarde transportando
pequenos vasos de
orquídeas, cavando junto
ao muro alto
onde se abrigavam pezinhos
de hortelã e crisântemos, vigiando
o florir lento dos antúrios
pondo e dispondo flores
com uma atenção muito grave
feita de silêncio e
cuidado

Lembro-me, os dias contavam-se
por esses aromas, lisas invocações
as vizinhas celebravam
com alegrias
na pausa dos bordados

nesses dias já adriano
atingira os confins da grécia
e ao olhar a neve
no alto do etna alcançou
uma felicidade que
pensou jamais seria
turva

mas são precárias
as imagens que
rolam pelas encostas
difíceis

adriano não sabia


(José Tolentino Mendonça)


in «Os Dias Contados», 1990

Etiquetas: ,

quinta-feira, fevereiro 7

A OUTRA FACE


Peter Doig «Purple Jesus (Black Rainbow) 2006, oil on canvas


A OUTRA FACE

Hás-de voltar aqui, hás-de sentir
a estupidez do mundo como um pêndulo
batendo a horas certas
ao ritmo dos dias, das semanas,
dos meses ou dos anos que, sem dares por isso,
hão-de passar velozes até dissolverem
o céu e o inferno e os teus últimos
rastilhos do orgulho. Hás-de aprender
a amar os que te odeiam
e a afogar a tua bílis negra
no caudal desse rio a que chamas
perdão ou esquecimento.

Hás-de voltar aqui, hás-de envergar
essa coroa de espinhos que te assenta
tão bem, hás-de mentir
de novo a essa gente, obedecer
com um sorriso inócuo ao seu tráfico
de pequenos conluios burocráticos,
às rasteiras da inveja, aos mais iníquos
crimes humanos – tudo isso
a que mais tarde alguém há-de chamar
simplesmente injustiça
Hás-de voltar aqui, hás-de saber
dar-lhes a outra face.

(Fernando Pinto do Amaral)


in «A Luz da Madrugada», Dom Quixote, 2007

Etiquetas: ,