domingo, junho 22

AS PALAVRAS QUE ME VESTEM


Arturo Herrera «Plot» 2006, steel sculpture


AS PALAVRAS QUE ME VESTEM

********************************Ao Nuno Lacerda Lopes

**********O que quer dizer
**********«toco na ponta dos meus dedos»?
**********O que são os meus dedos senão eu?
**********O que sou eu no essencial?

**********O leitor está sempre no futuro
**********da mão que escreve
**********mas está sempre no passado
**********do poema que lê.

Habituei-me a olhar algumas palavras com serenidade.
É com elas que peço café
chamo as roupas que me vestem
meto-me no carro e chego até aqui
onde a minha mão se perturba com o odor de cada palavra
com a marca invisível que deposita nos dedos.

Sinto-os inquietos
dizem-me que a palavra canta
às vezes tão alto que a urze cresce
muito depois de chegar ao fim da memória
onde o terreno é fértil para que tudo seja esquecido
e nasçam então os únicos ouvidos
e o verdadeiro aroma do café.

Às vezes imploro à palavra que se torne transparente
e a mão olha-me
afagando as sílabas
como se pudesse saber a perturbação ínsone
que a própria plenitude desenha,
ou as tempestades de areia que vão ter connosco ao sono
e nos arrastam como simples folhas
a quem o outono facilita o trabalho do vento.

Não fosse assim
não estivéssemos tão perturbados
pelo orvalho que se escreve com a humidade das letras
na própria ignorância da mão

e talvez o poema fosse um exercício de estilo.

(Rosa Alice Branco)

in «Soletrar o Dia», Obra Poética, 2002

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quarta-feira, outubro 10

Manual de Jardinagem


René Magritte «Les Amants», 1928, huile sur toile
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MANUAL DE JARDINAGEM

É preciso mudar a terra do poema,
talvez arranjar um vaso maior
e deitar
estrume em cada vaso.
Ainda ontem removi a terra
e vi no peso das palavras como escondem
o segredo da leveza.
É melhor esperarmos pela primavera/
por todos os meses que faltam
para hoje. Até lá
regarei o vaso como de costume.
Tenho exactamente o tempo de uma pausa/
atravessa o poema com o teu passo ágil
e senta-te comigo.
Que palavras nos fizeram falar? O que buscamos
no silêncio? Qual a melhor hora
para regar a água?
Caminhemos um pouco. No fundo do vaso
a razão declina no corpo do poema.
Havemos de a retirar com a pá que floresce na primavera/
depois atravessamos verso a verso
à superfície
sem vaso que contenha a humildade da terra.


(Rosa Alice Branco)

in «Soletrar o Dia», Obra Poética, 2002

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quarta-feira, julho 18

O LUGAR DO AMOR

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Miquel Barceló «Improvisació II», 1987
técnica mixta sobre tela


O LUGAR DO AMOR

Voltamos sempre ao local do crime e ao lugar
do amor: um lugar quente que nos acolhe pela vida
fora, pela vida dentro, queremos voltar: a cozinha
do tamanho da casa, o fogão crepitava como
lareira acesa todo o dia, a mesa ao centro e nós
à volta correndo, aceitando o que nos davam,
apanhando o que queríamos. Ah, os risos na cozinha,
as vozes atarefadas, os braços das mulheres os filhos
pequenos que andavam por ali, os filhos dos outros
que entravam porque estava quente, havia comida
e as brincadeiras eram uma carícia nas suas vidas:
todos nos criávamos por ali, a cozinha criava-nos,
um avental limpava-nos as mãos, a azáfama
aquecia a alma, as correrias coravam-nos as faces
e de nada tínhamos fome. Era um bulício
que durava até à noite, a noite das mulheres acesas
até altas horas. Dormíamos no doce afago dos pais,
os outros onde a vida deixa. Amassava-se o pão
no nosso sono. Todos nos criámos por ali: a cozinha
era o lugar do amor: amassar o pão com a poesia.

(Rosa Alice Branco)


in «Soletrar o Dia», Obra Poética, 2002
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