sexta-feira, outubro 24

Não sei o que há entre Dvisnsk e Nova Iorque...


Mark Rothko «No. 207» 1961, oil on canvas
(Berkeley Art Museum Collection, University of California, USA)
*
*
MARK ROTHKO: NUMBER 207- RED OVER DARK
BLUE ON DARK GRAY, (1961)

Não sei o que há entre Dvisnsk
e Nova Iorque,

e mesmo que soubesse
proporia que tudo fosse silenciado,

que nada se dissesse,

e só o avassalador silêncio
pudesse dizer quem fui e o que fiz.

As palavras enredam-nos em armadilhas
mortais
e nada há mais mortal
que a vida,

por isso,
as minhas telas
são o silêncio que são,

onde as cores se demoram
para que a exaltação do silêncio
permaneça e se guarde

e só quem as contemple reconheça
o que lá está:

a dor,
o sofrimento,
a vida em estado puro.

Se alguma coisa tenho para dizer,
direi, apenas, que há emoções
desconhecidas no que faço,

e que é pela claridade que confronto
o público
com as telas

que, com elas,
deve gritar e chorar,

porque foi exactamente aos gritos e a chorar
que as pintei,

rangendo os dentes
e insuflando-lhes vida.

Vejam:

alio este vermelho a este azul,

as cores conjugam-se,
mesmo repelindo-se,

e, olhando bem,
não é o só o vermelho e o azul o que se vê,
aqui, em frente à tela,
mas tudo o que nos toca o coração,

e se encontra latente na memória

e, pelo confronto,
chega.

O azul, por exemplo:

sente-se que oscila,

sente-se que nos leva para trás,
sente-se que nos arrasta pela nuca

e nos coloca
perante obsessões
que nos envenenam.

E, levando-nos para trás,
os nossos olhos fecham-se,

e entramos num quarto muito escuro,
e, no escuro, reconhecemos
o azul do brilho de uma lâmina,

e os nossos dedos,
azuis,
tocam a lâmina,
e a lâmina,
azul néon e mate,
impele-nos a confrontar a morte,

até que não podemos mais
e, a correr, saímos.

E o vermelho

– é, tão-só, vermelho,

ou atrai-nos para um poço?

O poço é escarlate,

e escarlate sendo, o que se vê?

Uma mulher deitada numa cama,
com um roupão vermelho,

e as unhas pintadas de vermelho,

e a boca vermelha,

e a cabeça caída sobre uma almofada,
também vermelha,

de um vermelho vivo,
tão brilhante,

que sabemos
que há um crime oculto no vermelho
que nós observámos na infância.

Vejamos o conjunto:

o azul está por baixo e, por cima,
o vermelho primário a transformar-se
em lábios,
corais,
crepúsculos,

e um sortilégio avassalador
que nos leva a um monte com um túnel.

Atravessando o túnel
vemos as cidades,
e, por cima das cidades,
o demónio,

e o demónio blasfema,

e lembra-nos a indiferença
com que os nossos pais nos abandonaram,

e é medonha a noite,
e é medonha a sensação de termos sido
abandonados.

No fim, há só silêncio.

Mas o milagre já aconteceu,

já cada um de nós foi confrontado
com o que não queria ver
pela selvajaria da serenidade

e pode, depois disso,
voltar para casa.

De novo vem a nós
o silêncio:

estamos em casa
e as cores, de tão amenas,
são já frenéticas,

e os nossos dedos rasgam-nos
a carne,
e supliciamos o corpo,

e percebemos que há pouco sentido
na vida que levamos.

Tem cor a nossa vida?

E a resposta chega-nos,
certeira e inequívoca,
enquanto nos lembramos
dos gritos e do choro
que, em frente ao quadro,
produzimos,

e da força que há na nossa natureza,

e dos milagres possíveis
que em cada coisa há.

Coube-nos viver num tempo de assassinos,
mas é a claridade que almejamos,

não a que veio ao quadro convocar-nos,
mas a que, pelo poder da pintura,
se instala em nós,
a modular a noite
e a apaziguar-nos.

É essa claridade que procuro,
– e o silêncio.

O silêncio das cores e o seu apelo
irrevogável,

de que nada há a temer,
mesmo que atemorize.

A vida é isso mesmo:

o medo à nossa frente,
imóvel como a esfinge,

e nós sempre a enfrentá-lo,

transparentes,
aflitos,
condenados,

mas prontos para ver

as cores do infinito.
*
(Amadeu Baptista)
*
- poema inserido na obra inédita «Doze Cantos do Mundo», cedido por cortesia do autor -
*
Nota: O autor acaba de ser galardoado com o Prémio Literário Oliva Guerra / Sintra 2008, com base na obra inédita «Doze Cantos do Mundo». PAUL GAUGUIN: O CRISTO AMARELO (1889) é outro dos poemas da referida obra, encontrando-se disponível para leitura aqui.

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quarta-feira, outubro 3

Aqui na praia do Lizandro


Mark Rothko «Untitled» (Water Scene) ca. 1934
watercolour on paper


Aqui na praia do Lizandro

O poeta, por vezes,
apenas descreve sentimentos,
nas paisagens íntimas que observa,
observando-se.
Especialmente quando a vida é tão intensa
que apenas apetece vivê-la.
Outras vezes, é o próprio poema
explodindo por dentro de si mesmo.
Quando surgem rimas automáticas,
num ritmo quase febril,
palavras em convulsão
que a caneta não consegue reter.
Mas a poesia também acontece
quando glosamos palavras
que, já antes, foram escritas.
Quando versos, feitos reversos,
aperfeiçoam poemas imperfeitos
que, outrora, nos vieram.
Hoje, não.
Aqui na praia do Lizandro, diante do mar,
sentado na areia molhada da manhã,
meus versos fluem saudosos,
como se estivessem inspirados
na solidão de estar aqui.
No silêncio da praia deserta,
sentindo o sol doirar meu corpo
e molhando os pés,
depois de uma longa caminhada,
neste prazer de estar aqui,
vou pensando nos sonhos
que, de noite, me atomentaram
e que lembrei ao acordar.
Retomando quem sou,
dói o prazer de estar aqui,
escrevendo em mim
estas palavras de solidão.

(José Adelino Maltez)

in «Sphera, Spera, Sperança», 2002
(Livro IV, Somos o sítio onde estamos)

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sexta-feira, setembro 21

PARA O LEITOR LER DE/VAGAR


Mark Rothko «Untitled», 1941-42
(oil and graphite on linen)
- National Gallery of Art, Washington -

*
PARA O LEITOR LER DE/VAGAR

Volto minha existência derredor para. O leitor. As mãos
espalmadas. As costas
das. Mãos. Leitor: eu sou lento.
Esta candeia que rodo amarela por fora,
e ardentescura por dentro.
Candeia tão baixa-viva. Sou lento numa luminos-
idade como em meio de ilusão.
Volto o que é um rosto ou um
esquecimento. Uma vida distribuída
por solidão.
*
**********Sou fechado
como uma pedra pedríssima. Perdidíssima
da boca transacta. Fechado
como uma. Pedra sem orelhas. Pedra una
reduzida a. Pedra.
Pedra sem válvulas. Com a cor reduzida
a. Um dia de louvor. Proferida lenta.
Escutada lenta.
*
― Todo o leitor é de safira, é
de. Turquesa.
E a vida executada. Devagar.
Torna-se a infiltrada cor da. Pedra
do leitor.
Volto para essa pedra absoluta. Relativa
à minha pedra.
Minha pedra pensada com a forma
de. Uma lenta vida elementar.
*
Leitor acentuado, redobrado leitor moroso.
Que entende o relato sem poros,
o mês arroz dealbado sobre a pedra
sem orelhas, pedra sem boca. E que desce os dedos
sobre. Meus dedos pelo ar. E toca e passa.
Pelas pálpebras paradas. Pelos
cerrados lábios até às raízes.
E cai com seus dedos em meus dedos.
E espera devagar.
Leitor que espera uma flor atravancada,
balouçando baixa
sobre. Mergulhados
filamentos no terror
devagar.
*
Mas que espera. Doce. Contra o hermético
movimento do mundo.
E que o mundo movimenta contra.
As de Deus auxiliado
auxiliar. E que Deus movimenta contra. Suas ondas
muito lentas, amargas ondas muito.
Antigas, ignoradas, corridas. Sobre
a primeira face do poema. Leitor
que saberá o que sabe dentro. Do que sabe
de mais selado. E esperará
dias e anos dobrado, leitor. Varrido
pelo movimento dos dias.
Contra o movimento nocturno do. Poema devagar.
*
E que espera.
E para quem volto. Muitas coisas sobre
Uma coisa. Volto
uma exaltante morte de Deus. Auxiliado
auxiliar. O espírito, a pedra.
Do poema.
Leitor à minha frente. Vindo
do mais difícil lado
das noites. Ainda tocado e molhado
de suas flores aniquiladas.
Rodo. Para esse rosto difuso e vagaroso
Meu sono.
A fantasia minuciosa. A oblíqua inovação.
A solidão. Trémula devagar.
*
Leitor: volto
para ti. Um livro que vai morrer depressa.
Depressa antes. Que a onda venha, a onda
alague: A noite caída em cima de teus dedos.
De encontro à cor de encontro à. Paragem
da cor. Este livro apertado nas estrelas
da boca, estrelas.
Aderentes fechadas. Por fora
leves às vezes, presas.
Para eu batê-las durante o tempo.
Eterno, o tempo. De uma onda maior que o nosso
tempo. O tempo leitor de um. Autor.
Ou um livro e um Deus com ondas de um mar
mais pacientes. ―
***************Ondas do que um leitor devagar.

(Herberto Hélder) *

in «Lugar», 1962

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