terça-feira, dezembro 23

DEMASIADO HUMANO

*
Angelo Morbelli «Twilight», 1894-96
(oil on canvas)
- Civica Galleria d'Arte Moderna, Verona -


DEMASIADO HUMANO

______________________ao Adolfo Casais Monteiro


Escancarei, por minhas mãos raivosas,
As chagas que em meu peito floresciam.
Versos a escorrer sangue eis escorriam
Dessas chagas abertas como rosas…

Assim vos disse angústias pavorosas
Em versos que gritavam… ou sorriam.
Disse-as com tal ardor, que todos criam
Esse rol de misérias fabulosas!

Chegou a hora de cansar…, cansei!
Sabei que as chagas todas que aureolei
São rosas de papel como as das feiras.

Que eu vivo a expor minh’alma nas estradas,
Com chagas inventadas retocadas…
Para esconder bem fundo as verdadeiras.

(José Régio) *

in «Poemas de Deus e do Diabo», 1925

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sexta-feira, dezembro 21

NATAL


Bernini pittore «Cristo deriso» ca. 1635, olio su tela


NATAL
*

Mais uma vez, cá vimos
Festejar o teu novo nascimento,
Nós, que, parece, nos desiludimos
Do teu advento!

Cada vez o teu Reino é menos deste mundo!
Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos,
Festejar-te, ─ do fundo
Da miséria que somos.

Os que à chegada
Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos,
Somos ─ não uma vez, mas cada ─
Teus assassinos.

À tua mesa nos sentamos:
Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome;
Mas por trinta moedas te entregamos;
E por temor, negamos o teu nome.

Sob escárnios e ultrajes,
Ao vulgo te exibimos, que te aclame;
Te rojamos nas lajes;
Te cravejamos numa cruz infame.

Depois, a mesma cruz, a erguemos,
Como um farol de salvação,
Sobre as cidades em que ferve extremos
A nossa corrupção.

Os que em leilão a arrematamos
Como sagrada peça única,
Somos os que jogamos,
Para comércio, a tua túnica.

Tais somos, os que, por costume,
Vimos, mais uma vez,
Aquecer-nos ao lume
Que do teu frio e solidão nos dês.

Como é que ainda tens a infinita paciência
De voltar, ─ e te esqueces
De que a nossa indigência
Recusa Tudo que lhe ofereces?

Mas, se um ano tu deixas de nascer,
Se de vez se nos cala a tua voz,
Se enfim por nós desistes de morrer,
Jesus recém-nascido!, o que será de nós?!

(José Régio) *

in «Diário de Notícias», edição nº 33 345 de 25 de Dezembro de 1958

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FADO


Paula Rego «Promessas Quebradas» 2006, óleo sobre tela
*

*
************FADO
DO GRANDE E HORRÍVEL CRIME

Por essas feiras do alfoz
Do Porto, leal cidade,
Brutal e triste, uma voz
Levanta um pregão feroz
De crime e fatalidade.

Junta-se o povo de roda,
Crianças, velhos e moços
Que seduz a nova moda;
E os olhos da roda toda
São como bocas de poços…

E a nova moda é já velha,
Recente, embora, a toada;
Revelha, velha, revelha,
Que a todas mais se assemelha,
De novo, não conta nada.

Vem dos inícios do mundo,
(Por não sei que ódio divino)
De quando, a errar vagabundo,
Caim desceu bem ao fundo
Do seu maldito destino.

Só a maneira é que é vária
De um mesmo fado cumprir
A sinistra prole do pária.
E a assistência é extraordinária,
Que o bom povo quer ouvir!

Desfolha um bandolim gasto
Seu choro falso e palreiro
Frente a uma casa de pasto,
E um alto grito nefasto
Berra por todo o terreiro.

Canta uma mulher pejada,
Senhora-do-Ó fadista,
Ou uma garota enfezada
Que tem olhos de enjeitada
Mas pretende ser corista…

Canta um velhote que tosse,
Babando as barbas de neve,
Ou um rapazinho precoce,
Com esse ar dos a quem roce
A asa da morte breve…

Canta um esbelto vadio
De torvo olhar cor de lodo,
Que esguicha um mau riso frio
À triste a quem mata o cio
E apanha o dinheiro todo…

Canta uma cega, rolando
Por todo o alvar poviléu
Seus olhos vítreos olhando…
Canta um fado miserando,
Não mais, porém, do que o seu!

Canta uma família inteira,
― Pai, mãe, avó, quatro filhos —
E ao calar-se a cantadeira,
É a pobre velha gaiteira
Que intercala os estribilhos…

Um seráfico gandula
Que inda em falsete se exprime
E entre o público circula,
Pregoa uma canção chula
Mailo
grande e hòrrível crime!

Surdo, o violão dlão toa,
E o bandolim se lhe enlaça.
Ou, carpindo a sós, ressoa
Uma guitarra, a mais boa
Companheira da desgraça.

E enquanto, em plena quermesse
De movimento, cor, sol,
A própria luz arrefece,
A voz de lástima e prece
Desfia o macabro rol:

Cose um marido a facadas
A mulher que estremecia,
E as mãos inda ensanguentadas,
Vai, de entre seus camaradas,
Esganar quem no traía!

Jovem mãe abandonada
Com seu filhinho nos braços,
Uma malaventurada
Deixa-o numa água-furtada
Retalhadinho em pedaços!

No mais vil prédio dum beco
Dos que a decência condena,
Sem que de tal corra um eco,
Num charco de sangue seco
Seis dias jaz Madalena!

Um filho desnaturado
Talha a golpes de podoa
O ventre em que foi gerado…
E o corpo em sangue escoado
Levanta a mão que abençoa!

E, por bordéis e hospitais,
Por mesas de anatomia,
Por salas de tribunais,
Por colunas de jornais,
Se estira o rol dia a dia…

Nos intervalos do fado,
Fala em prosa a cantadeira:
Maldiz o bruto malvado
Num discurso alto clamado
Com vozes de carpideira.

E, num tom quase faceto,
O loiro e reles menino
Mostra ao povinho um folheto
Que traz, moldurada a preto,
Uma foto do assassino…

Que verde curiosidade,
Que gosto de sangue e morte,
Que dó, que ferocidade,
Preme ali tal sociedade
Nesse culo à
negra sorte?

Sentimental, caricato
De rapapés ao terror,
À história do do retrato
Segue-se o extenso relato
De outro crime inda
melhor.

E enquanto um diz que
são tretas,
E os demais olham inquietos,
E outro, que tem quaisquer letras,
Decifra essas cifras pretas
A um grupo de analfabetos,

Sob o imenso azul perfeito
Como abóboda de igreja,
As mães de filhos de peito
Tremem, sem achar direito
De acusar quem quer que seja…

(José Régio) *

in «Fado», 1941

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sábado, julho 14

AUSÊNCIA


Artur Bual «Cristo e a Transcendência», acrílico sobre tela


AUSÊNCIA

Um a um, vão-se-me os dias,
Dia a dia, eu vou com eles…
Olhos extintos, mãos frias,
Perpasso ao longo dos dias
Como sombra que repeles…

E porquê? Porque me deixas
Nesta frieza, em que forças
Nem tenho para erguer queixas
Cujo alívio me nem deixas,
Ou contra mim já não torças…?

Não me vês Tu sofrer tanto
Quanto gostas de me ver?
Ou não sei eu, por enquanto,
Valer-me de sofrer tanto
Para chegar a vencer?

No entanto, vão-se-me as horas
Num sofrer tudo o que passa,
Só porque Tu Te demoras
A atirar às minhas horas
Uns restos da Tua graça…

Levanto os olhos lá cima,
Sondo esse abismo estrelado,
Baixo-os ao chão…, e o que anima
Esse abismo lá de cima
Anima a colina e o prado:

Ao Teu simples ígneo sopro,
Abrem-se os astros, as flores,
E as cavernas como a escopro…
Encapelam-se, ao Teu sopro,
Vento e mar com seus furores…

Só a mim me não aqueces
Com as bênçãos do Teu bafo!
Só dum ser vivo Te esqueces,
E este ar, que já não aqueces,
Me não é ar, e eu abafo…

Fosse eu pedra bruta! Fosse
Uma pouca de água! Um bicho
Sem razão, feroz ou doce,
Que virias!, nem que eu fosse
Qualquer montinho de lixo…

Fosse eu terra…, e dera flor!
Fosse eu ar, mar… gozaria
No sol Teu próprio calor!
Que o céu dá sóis e o chão flor
Porque o Teu amor lhos cria…

Mas sou este ser humano
A quem deste alma, razão,
Coração, vontade… e o engano
De sonhar ser mais que humano,
Contra a humanal condição!

E é por ser mais, que me deixas
Na solidão em que estou?
Por ser Teu filho, me fechas
Assim só comigo, e deixas
Entregue ao não-ser que sou?

Não posso! Que farei au,
Tua obra-prima falhada,
Que acusa quem na escreveu
De lhe dar o que lhe deu
E a deixar não terminada?

Desde que Te amo, não sei
Com nada mais contentar-me!
Onde estarei? onde irei?
Desde que Te amo que sei
Que é tudo o mais vão alarme…

Corra que não corra o mundo,
Só sobre mim próprio giro
Se mais encontrar, ao fundo
Dos mil caminhos do mundo,
Que um eu contra quem me firo…

Qualquer jornada que faça,
Qualquer empresa que tente,
Se me falha a Tua graça,
Faça o que faça ou não faça,
Que faço que me contente?

Amar-me, já o não consigo;
Fugir-me a mim, não no alcanço;
Não suporto estar comigo!
Se consigo ou não consigo,
Da mesma maneira canso…

Toda a largueza do mundo
Não me cura a falta de ar!
Sufoco!, neste profundo
Buraco negro do mundo
Que só Tu vens alargar…

E Tu não vens! E há que dias,
Há que séculos, Te espero,
De olhos extintos, mãos frias,
Sem nada que me encha os dias
Senão frio e desespero!

Fervem-me no peito as queixas,
As blasfémias, o clamor
Do abandono em que me deixas…
Mas gritos, blasfémias, queixas
Bem sabes que é tudo amor!

Bem sabes como é verdade
Que nada Te substitui,
Ou Te empana a claridade,
Em quem, por ver a Verdade,
Já tudo em volta lhe rui…

Ai, que os irmãos me não creiam,
É de crer! pois lhes advém
Que soletrem mas não leiam,
E só creiam, ou não creiam,
Consoante lhes convém.

Mas Tu, que me vês por dentro
Como eles vêem por fora,
Tu, em cujo amor eu entro
Nu até alma, por dentro
Dum banho lustral de aurora,

Tu, ─ não! não podes deixar-me
Sem Ti, nem nada no mundo!
Para quê todo este alarme?
Mas como é que ousas deixar-me
Sequer um breve segundo?

Pois não vês que já pertences
Ao amor com que me enleias?
Não me enleies, ou não penses
Que eu, sim, mas Tu não pertences
Às nossas comuns cadeias!

Livra-me de Ti de vez,
Se Te não queres cativo
Do meu amor! Ou não vês
Que isto é nem morrer de vez
Nem, também, sentir-me vivo?

Em Ti, por Ti amo tudo!
Se Te vais e em vão Te chamo,
Fico cego, surdo, mudo…
Faltas-me e falta-me tudo,
Que afinal só a Ti amo!

Pois bem, deitar-me-ei por terra,
Nu no chão nu, sem conforto
Senão o cinto que enterra
Seus férreos dentes na terra
De minha carne e meu corpo,

Deitar-me-ei dias e noites,
Não provarei água ou pão,
Fustigar-me-ei com açoites,
Encherei dias e noites
Gritando a Tua traição,

Até que venhas! Até
Que, de novo, a Tua graça
Me dê calor, luz, ar, fé,
Me ressuscite! ou até
Tudo que sou se desfaça

(José Régio) *

in «Mas Deus é Grande», 1945

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