terça-feira, outubro 28

Canção; Nove D'Abril; Brasão; Anoitece devagar


Cy Twombly «Poems to the Sea», 1959
(oil, crayon, pastel and coloured pencil on paper)
- Collection Dia Art Foundation, New York -
*
*
CANÇÃO

Pelos que andaram no amor
Amarrados ao desejo
De conquistar a verdade
Nos movimentos de um beijo;
Pelos que arderam na chama
Da ilusão de vencer
E ficaram nas ruínas
Do seu falhado heroísmo
Tentando ainda viver!,
Pela ambição que perturba
E arrasta os homens à Guerra
De resultados fatais!,
Pelas lágrimas serenas
Dos que não podem sorrir
E resignados, suicidam
Seus humaníssimos ais!
Pelo mistério subtil,
Imponderável, divino,
De um silêncio, de uma flor!,
Pela beleza que eu amo
E o meu olhar adivinha,
Por tudo que a vida encerra
E a morte sabe guardar,
― Bendito seja o destino
Que Deus tem para nos dar!


(in «Canções e Outros Poemas – Piquenas Canções de Cabaret», Edições Quasi, 2008)



Cy Twombly «Ferragosto V», 1961
(oil paint, wax crayon, lead pencil on canvas)
- Thomas Ammann Fine Art, Zürich -


NOVE D’ABRIL

Louvar a guerra? ― Loucura
Que é necessário arrancar
De quem a quiser sentir!
― A humanidade não deve
Atraiçoar a razão
Fundamental de existir.

Punhais, espadas, metralha,
Tudo isso para quê,
Se a vida pode ser bela?
― O homem à luz do amor
Chegaria ao infinito
Para tocar uma estrela!

Viver na lama sinistra
De uma trincheira atascada
De mortos e podridão,
É perder a consciência
Do que vale para a vida
Ter no peito um coração…

Morrem cem mil? Não importa?
Em nome da Pátria quantas
Infames negociações!
Soluços! Caem por terra
Nas lágrimas dos vencidos
As mais altas ilusões.

Conquistar novas bandeiras,
Chegar além!..., Mais além!...,
Matar, impor, destruir,
É tombar, ingloriamente,
Na maravilha fatal
Do eterno Alcácer-Kibir!

(in «Canções e Outros Poemas – Baionetas da Morte», Edições Quasi, 2008)


*
Cy Twombly «Min-Oe», 1951
(paint on canvas)
- Robert Rauschenberg Foundation Collection -


BRASÃO

Muita gente supõe que o nosso Império
Existe em fantasia ―
Recortado no mapa e nada mais;
Que as riquezas que dormem
No silêncio da terra
À sombra das florestas de ramalhar profundo
São anedotas hirtas
Que se espalham apenas
Para entreter o riso universal do mundo.
Que a fé que revolveu as taras do gentio
Não passa de loucura pretensiosa e audaz;
E mais, e mais ainda:
― Que a raça portuguesa de nada foi capaz!

Ruins espectadores ―
Que vêem só ortigas onde rebentam flores!

Deixá-los arrastar no pântano sinistro
Das suas condições
A megalomania de que a sorrir derrubam
Os factos e as lições!

Deixá-los progredir ao sopro da vileza
Que amortece e dilui todo o esforço vital;

― Há uma palavra linda que brilha nos espaços,
Diz-se com oito letras, é esta: ― Portugal.

Ó África formosa mordida pelos sóis!
Saudade negra e vasta surgindo além do mar!
― Pelos meus olhos passa o vulto de Mouzinho,
Trigueiro e varonil no gesto de mandar!

Raízes florescei num turbilhão de cores!
Areias e animais, aragens e neblinas,
Lamentos de batuque, ― ó cânticos guerreiros!,
Ó pedrarias, frutos, plumagens, ― heroísmos!,
Formai este Brasão formoso entre os primeiros!

Ó África de sonho, Império de gigantes
Que tombaram no ardor de uma cruzada santa,
Sois a base e o troféu da Pátria Portuguesa
Que na minha alma vibra e nestes versos canta!

(in «Canções e Outros Poemas - Intervalo», Edições Quasi, 2008)



Cy Twombly «Apollo and the Artist», 1975
(oil paint, wax crayon, pencil and collage on paper)
- Private Collection -

*
Anoitece devagar.

No terreiro,
Vão-se os pares
Ajustando para a dança.

― Quem é que baila comigo?

Bailarei eu!,
Grita uma linda Maria
De rosto largo e trigueiro.

E o harmónio
Murmurando,
Dá início ao movimento
Que é todo ligeiro e brando.

Agora ―
Apertam-se mais
Os corpos
Nas voltas lentas e bruscas
Da toada musical.

Vá de roda, quem mais ama?
Quem mais quer ao seu benzinho?
Quem mais ama mais padece;
Eu hei-de amar poucacinho.

Ao redor do bailarico
Já se vai juntando gente
Que andava um pouco dispersa;
E a minha linda cachopa,
Balanceada,
Contente,
Parece dada a um sonho…
― Nem eu sei o que ela sente!

Paro. Mas o meu braço descansa
Nas espáduas do meu par.

A noite cobriu
De sombras a natureza.

Ah!, se eu pudesse cantar
― E dar luz aos corações!

Fico a pensar e a olhar…

― Já se acenderam balões!

Foi aquele moço! Aquele
Que traz um cravo na boca
― Escarlate
Como a cinta
Com que ele envolve os quadris.

E a olhá-lo me ponho
Na graça quente e flexível
Dos seus aspectos viris.

Ai, a vida!,
É tão enganosa e fria,
Tão outra da que nós temos,
Que é bem melhor desejá-la
Como coisa que flutua
Para lá da que nós vemos…

Vamos descansar ali…
Deixemos…
― Digo ao par que me acompanha.

E ouvindo a voz do harmónio,
E contemplando
Esvaído
Os pares em desalinho,
Sinto a mesma sensação
De ter bebido algum vinho.

(António Botto) *

(in «Canções e Outros Poemas - Dandismo», Edições Quasi, 2008)
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Nota: Cy Twombly em exibição no museu Guggenheim Bilbao.
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