sexta-feira, agosto 15

Resposta à carta da árvore triste de Al Berto


Francis Picabia «L'élégante» 1942-43, huile sur carton


Resposta à carta da árvore triste de Al Berto

Não.
Quando partires não quero que me deixes cartas
nem rastos ou lembranças de palavras
nem sequer uma fotografia branca transparente
esquecida no fundo da gaveta que não temos cá em casa
ou no meio das páginas do livro que julgas que eu não li
e que tu sabes que leste mas nem sequer folheaste.
A verdade é que estas palavras também não são uma carta
nem a resposta possível ou impossível a uma carta
nem sequer verdadeiras palavras musicalmente silabadas
na medida em que constituem apenas queiras ou não
o desencontro do absurdo num espaço de brincadeira
a incoerência lúcida de alguém que pergunta e responde sozinho.
Quando partires – e sei que já partiste – não formules
acusações prosaicas lamentos poéticos insolúveis desculpas
não deixes visualizados horas dias noites movimentos
esperas de vivências sonhadas desarrumadas e nunca ditas
encarceradas no quarto ou na casa na cave ou no sótão
mantidas vivas pelos finíssimos fios de luz que as atravessam
fios do que podia ter sido ou havido e afinal não houve nem foi.
Não.
Enganas-te.
Não sou a mulher que abandonaste ou vais abandonar
para voltar a reencontrar quintuplicada com o mesmo corpo
com os mesmos gestos inventados, com o mesmo olhar
na próxima hora da próxima rua da próxima cidade
exactamente milimetricamente igual a esta em que vivemos
se é que mesmo esta realmente factualmente existe.
Repito que te enganas.
Não sou a mulher que abandona a tua tão lúcida loucura
para abrir a janela do jornal opaco logo pela manhã
e ler com avidez a notícia de que o tal
papagaio valioso com 32 anos
capaz de falar três idiomas
foi morto por um jovem drácula de nome punk.
Não.
*
Quando partires não me deixes cartas nem palavras
nem sequer o silêncio espectante do telefone mágico a iluminar
a possibilidade côncava do corpo erecto das paredes lisas.
Não me ofereças a escrita em curva suave do gesto gasto
que já não sabe ser cúmplice das cores sempre mutáveis
da estátua imóvel e incolor que pareço ser mas nunca fui.
Quando partires – e sei que já partiste – não me deixes
a memória escrita de todo o desejo fundo reaberto em sangue
reescrito em gritos que não saem da fenda profunda da ausência
nem brotam das palavras quentes violentas molhadas de sexo
nem sequer escorrem diluídos pela lembrança do entorpecimento
das pernas e dos braços do peso atroz e lento da nuca transpirada.
Não deixes promessas nem conselhos para minha redenção
pois hei-de continuar sempre a abrir teimosa e quotidianamente
a janela opaca do tal jornal que papagueia vozes a cinco

***************************************dimensões
e não me ensina a mágica sabedoria de cozinhar água salgada
misturada com destroços de plantas a sangrar quanto baste
pois essa divina sabedoria é minha desde o início do tempo
e só leio o jornal para fingir persistentemente que aprendo o

**********************************************mundo.
Deixa-me antes o ombro amigo de uma qualquer parede nua
contra a qual possa ficar abandonado um pensamento lento
a esquecer as aves diurnas dos meus gestos de bom ou mau

**********************************************agouro
postos ao teu quotidiano serviço durante séculos e séculos de sol.
Deixa-me o pano de linho branco no qual sempre bordei,
também a branco, os transparentes desenhos ancestrais
da frágil paciente e cabalística hipótese de felicidade que sobrou
desde tempos incertos do prazer dos luminosos fantasmas da vida.
Não.
Quando partires não quero que me deixes cartas
nem mesmo rastos ou lembranças de palavras
nem sequer uma fotografia branca transparente
daquelas que gritam coisas que se não podem já compreender
encontradas no meio de páginas de livros que julgamos ler
mas que apenas sustentam o vazio da leitura violenta dos corpos.
*
Quando partires – e sei que já partiste – não formules
acusações prosaicas lamentos poéticos insolúveis desculpas
não deixes visualizado o gesto o suor o quarto a rua ou a cidade
e muito menos o prosaico café da primeira esquina quotidiana
que serve de templo às orações mentais dos sonhos inconfessáveis
dos sonhos que deveriam ser fantasmas inevitavelmente

****************************************partilhados
e que afinal podiam ao calor de duas vozes ter sido mesmo ditos
em voz de fios muito finos de luz que atravessam as almas.
Não.
Não.
Mudei de ideias.
Afinal não te enganas.
Sou a mulher que não abandonaste nem vais abandonar
porque me reencontras quintuplicada com o mesmo corpo
noutros gestos inventados ou por inventar, com o mesmo olhar
milimetricamente igual a este com que especularmente

***************************************te escrevo.
Repito.
Não te enganas.
Quebrou-se o silêncio do telefone mágico que ilumina de curvas
o rasto erecto do desejo inscrito nas paredes que já não são lisas,
Mas se partires se por acaso partires – e eu sei que já partiste –
deixa-me o corpo reaberto em gemido molhado e doloroso
a escorrer diluído pelo entorpecimento dos braços cansados
como fotografia branca e tansparente
feita da seda das raízes de ti.
Sim.
Nesse caso.
Se por acaso.
Deixa-me uma memória sem palavras reais
uma lembrança no corpo do sexo e no corpo da alma.

(Ana Margarida Falcão)

poema inédito

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2 Comentários:

Blogger Lucy in the Sky with Diamounds disse...

Belo poema!
Uma das coisas que aprendi com os meus pacientes e após ter enfrentado um câncer é que; nada na vida é para sempre... As únicas coisas que deixamos, são as lembranças (por isso procure viver alegremente todos os momentos) e o amor... Dizer à quem afeiçoamos o que sentimos por elas é demasiado importante. Pois, um dia, pode ser tarde...

Beijos, made in brasil

30 de setembro de 2008 às 22:54  
Blogger Ilídio disse...

Descobri este poema por acaso e, não por acaso, apaixonei-me por ele. É uma dupla delícia porque quem o concebeu foi a minha querida professora Ana Margarida Falcão. O poema faz-me lembrar a mulher do romance russo, a mesma mulher que teima em aparecer nos romances alemães. É uma mulher extremamente lúcida e apaixonada. A luta desta mulher é imperceptível, ela é forte, mas, mesmo que diga não e mesmo que saiba que ele partiu, denuncia-se. Repete as frases como quem chora e soluça. Um soluço que se repete insistentemente. Sofre só, mas fá-lo a dois, por ela e por ele - é um sofrimento absurdo e apaixonado.

Ilídio Cândido

24 de novembro de 2009 às 23:38  

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